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A batalha na Flórida sobre como racismo é ensinado nas escolas

today13 de março de 2023 24

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“Traz muitas memórias”, diz Bracy, 74, em uma cafeteria perto da escola.

São memórias de como ela era constantemente atormentada por seus colegas – que cuspiam, batiam nela e chamavam-na de palavras ofensivas.

Houve uma vez que ela precisou levar pontos na cabeça depois de uma surra. Tudo porque ela foi uma das primeiras estudantes negras quando a escola passou a atender alunos de todas as etnias, em 1965.



Por décadas, Bracy passou os meses de fevereiro – quando se comemora o Mês da História Negra nos EUA – visitando escolas da região para compartilhar sua história de perseverança diante de uma reação violenta e racista à integração das escolas no sul do país.

Neste ano, porém, foi diferente. Bracy foi convidada a visitar apenas duas escolas da Flórida, e não dezenas, como costumava acontecer.

Ela atribui a queda no número de convites a leis recentes focadas em como escolas ensinam temas como história afro-americana, raça e racismo – leis que educadores dizem estar forçando-os a silenciar e que ativistas de direitos civis chamam de censura.

“Nunca imaginei que, 50 anos depois, estaríamos nesta batalha em que estamos hoje”, diz Bracy.

O Estado da Flórida está na linha de frente da batalha de um movimento do Partido Republicano para modificar a forma como as discussões raciais são ensinadas nas escolas americanas.

O governador Ron DeSantis lidera um movimento para acabar com o que ele chama de movimento ideológico. Mas professores no Estado dizem à BBC que as mudanças têm produzido efeitos assustadores – e muitos temem ser criminalizados por discutir a história americana.

Desde julho, entraram em vigor na Flórida diversas leis que restringem o que pode ou não ser ensinado em salas de aula para crianças de 5 a 18 anos.

Liderados por DeSantis, republicanos dizem que essas leis são importantes para blindar as crianças de conteúdo impróprio e do que chamam de doutrinação liberal em temas como raça e orientação sexual.

Na última semana, em um discurso para marcar o início de um novo mandato do Poder Legislativo, DeSantis reiterou seu compromisso com “fortalecer os direitos dos pais”, dizendo que “escolas devem entregar uma boa educação, não doutrinação política”.

DeSantis, fortemente apontado como pré-candidato à presidência dos EUA, disse que quer que a Flórida seja o Estado “onde o ‘woke’ morre”.

O “woke” é um termo impreciso que costuma ser usado por comentaristas conservadores em referência a agendas promovidas por ativistas de esquerda – desde identificação de pessoas transgênero até a alegação de que as instituições americanas são sistemicamente racistas.

Alguns pais, como Aly Legge, mãe de 5 filhos que se define como mulher multirracial, elogiam as mudanças. Ela acha que as leis protegem seus filhos de “aprenderem que são perpetuamente vítimas”.

Legge defende que professores devem ensinar história sem fazer com que crianças brancas se sintam culpadas ou que são “inerentemente racistas”.

Uma das leis, a HB 1476, exige o aval do Estado para todos os livros didáticos usados em escolas públicas. Educadores que sejam enquadrados por violar a lei podem ser acusados criminalmente e sentenciados a até cinco anos de cadeia.

Desde a aprovação da lei, mais de 170 livros foram removidos das estantes das bibliotecas enquanto esperam para ser possivelmente vetados, incluindo livros como A Vida de Rosa Parks (a famosa ativista de direitos civis negra).

Outra lei, chamada “Stop W.O.K.E”, dita que “o currículo não pode ser usado para doutrinar ou persuadir estudantes” e visa supostamente impedir que crianças sintam “culpa ou angústia, ou estresse psicológico” durante aulas sobre a escravidão nos EUA.

Em novembro, um juiz da Flórida vetou a aplicação dessa lei em universidades, em resposta a um processo judicial que argumentava que a legislação viola a Constituição americana. Mas a lei segue vigente para o ensino básico.

Especialistas dizem que a lei é vaga e deixa a cargo dos professores adivinhar quais explicações sobre fatos históricos podem ou não serem consideradas ilegais.

“Doutrinação não é um termo legal, é um juízo – depende de quem a emite”, diz Rebecca Bratspies, professora na Universidade City da Escola de Direito de Nova York. Sem limites claros para o que professores podem ou não dizer, Bratspies diz que os professores provavelmente serão guiados pelo medo.

“Eu não saberia o que ensinar ou não na sala de aula”, ela afirma.

A BBC fez contato com dezenas de professores para questioná-los sobre os efeitos das novas leis. Os que aceitaram conversar com a reportagem pediram anonimato.

E todos negaram promover “doutrinação” a respeito de raça ou supremacismo branco – o que eles dizem é que é difícil ensinar sobre escravidão e direitos civis sem confrontar o racismo profundamente enraizado na construção dos EUA.

A BBC fez múltiplos pedidos de entrevista ao Departamento de Educação da Flórida para esclarecer o que exatamente é enxergado como “doutrinação” ou “forçar culpa e angústia” em estudantes, o que é proibido pela lei Stop W.O.K.E. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.

Para muitos educadores, a ausência de clareza cria um clima de incerteza e preocupação. Eles dizem que o foco de seu trabalho será não ensinar, mas sim evitar processos judiciais.

“Será que algo que eu vou dizer, que para mim soa totalmente inócuo, vai levar à minha demissão e na prática arruinar a minha carreira?”, questiona um professor de ensino médio consultado pela reportagem.

Outro professor, este de ensino fundamental, disse que precisou brigar internamente para poder dar uma aula sobre Jesse Owens, o famoso atleta olímpico e medalhista americano que se destacou também na luta pelos direitos civis.

A septuagenária Bracy, por sua vez, diz que recorreu à autocensura, para evitar processos judiciais. Durante um discurso neste ano a alunos da escola de Gainesville, ela não mencionou que recebeu ameaças de morte antes de se formar ou que a Klu Klux Klan chegou a incendiar uma cruz no quintal da casa dela.

“Foi a primeira vez que tive de refletir sobre como contar minha história, em vez de simplesmente contá-la”, diz Bracy. “Não quero deixar ninguém em situação difícil.”

Professores ‘desmoralizados’

Professores também relatam uma profunda frustração com o que deixarão de ensinar a seus alunos.

“O que o governador DeSantis fez conosco é deixar claro que a história negra não é importante”, um professor de ensino fundamental disse à BBC.

Outro relatou que professores de um dos condados da Flórida estão tão desmoralizados que passam o intervalo debatendo se devem se mudar para outro Estado.

“Alguns dos nossos melhores professores querem ir embora da Flórida”, disse esse educador.

No mês passado, os legisladores estaduais da Flórida rejeitaram a inclusão de um curso de nível universitário sobre História Afro-Americana em escolas de ensino médio. O Departamento de Educação do Estado disse que o motivo é que foram encontrados elementos de “doutrinação woke disfarçados de educação”.

A empresa que criou o curso, chamada College Board, mais tarde mudou partes do currículo, mas nega ter sido influenciada pela decisão da Flórida.

Vale destacar, ao mesmo tempo, que muitas famílias mantêm seu apoio à lei.

Yvette Benarroch, 53, mãe de dois filhos, diz que sentia até então que os pais eram frequentemente impedidos de saber o que acontecia dentro das salas de aula das crianças – e que isso está mudando sob o governo de DeSantis.

Benarroch é uma de mais de 100 voluntários da Flórida que estão inspecionando livros didáticos do Estado.

“Eles devem focar em ensinar a ler, escrever, fazer matemática”, defende.

Já o professor Don Falls argumenta que as discussões sobre direitos dos pais estão sendo usadas como desculpa para permitir mais controle do governo sobre a educação.

Em janeiro, o distrito escolar onde ele trabalha exigiu que todos os professores cobrissem as estantes de livros de suas escolas, até que cada um deles fosse analisado sob a ótica da nova legislação.

‘Conhecer a história para não repeti-la’

Muita coisa mudou na escola Gainesville High nos quase 60 anos em que Bracy inaugurou a integração racial das escolas do Estado.

Hoje, o corpo estudantil é predominantemente negro – uma grande diferença em relação àquela época, quando Bracy era apenas uma entre três estudantes negros da escola.

Diante de estudantes da Gainesville High, em um dia de fevereiro, ela falou dos custos físicos e emocionais de seu pioneirismo. O auditório de alunos ouviu em silêncio.

“Suportei aquilo porque sabia que haveria aqueles que viriam depois de mim”, Bracy afirmou, refletindo sobre as décadas que se passaram desde sua graduação. “Estou num momento em que ainda estou disposta a lutar.”

Depois do discurso, ela foi abordada por diversos estudantes, alguns deles com lágrimas nos olhos.

“Uma pessoa que não conhece sua história está condenada a repeti-la”, ela disse a eles.




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Por: G1

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