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A ‘guerra’ da Nova Zelândia para tentar eliminar os ratos do país

today28 de junho de 2023 7

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O grupo Predator-Free Miramar quer proteger as aves nesta área de Wellington, capital do país, exterminando ratos — todos eles.

Depois de vestir jaquetas de alta visibilidade, os voluntários recebem manteiga de amendoim — a isca ideal para roedores — e veneno.

A cada um é alocado uma área onde eles precisam verificar armadilhas e caixas de iscas com venenos. “Boa sorte, companheiros”, diz Dan Coup, que lidera o grupo.



Um aplicativo de GPS orienta Coup pelo mato até as armadilhas em sua rota. Em cada um, ele repõe a isca e atualiza as informações no app. Nenhum armadilha tem sinais de que um rato passou por ali.

Mas enquanto ele examina o terreno em busca de excrementos e outras pistas, seu telefone vibra. Um participante postou uma imagem em seu grupo de WhatsApp: um rato morto em uma armadilha.

Esta não é uma boa notícia. “Dave vai se sentir bem por ter pego o rato, mas ficamos tristes por ainda haver ratos”, Coup suspira.

Erradicar ratos e outros predadores é o objetivo não apenas de Miramar, mas de toda a Nova Zelândia. O governo espera que a tarefa seja concluída até 2050.

É uma tarefa difícil. O maior território onde todos os ratos foram erradicados até agora é a Geórgia do Sul, uma ilha de 170 km de extensão no Atlântico Sul. Os conservacionistas da Nova Zelândia acreditam que a missão poderá ser cumprida no prazo certo em uma área maior do que o Reino Unido.

Outros apontam para problemas práticos e éticos.

No centro do projeto está o ecossistema singular do país. A Nova Zelândia se separou de um antigo supercontinente há 85 milhões de anos, muito antes da ascensão dos mamíferos. Sem predadores terrestres, os pássaros conseguiam criar seus ninhos no chão ou até mesmo ficar sem voar.

O Kiwi, símbolo nacional da Nova Zelândia, está ameaçado há muito tempo: poucos filhotes conseguem sobreviver sem controle de pragas — Foto: GETTY IMAGES

lAlém disso, a Nova Zelândia foi a última grande terra colonizada por humanos. No século 13, os polinésios trouxeram camundongos e ratos do Pacífico. Seis séculos depois, os europeus introduziram mamíferos maiores que se alimentavam de pássaros indefesos. Quase um terço das espécies nativas foram exterminadas desde a chegada dos humanos.

Esforços para salvar as espécies que restaram não são novos. Na década de 1960, os conservacionistas conseguiram exterminar os ratos nas pequenas ilhas. Mas lidar com predadores virou um fenômeno social depois de 2010.

“O assunto bombou e se tornou um tema nacional”, diz James Russell, biólogo da Universidade de Auckland e defensor do projeto de extermínio até 2050.

Um fator que mudou as atitudes, diz Russell, foi o advento das câmeras infravermelhas. No século 20, as pragas mais visíveis e alvos de grandes abates eram grandes herbívoros, como veados e cabras. Mas a partir dos anos 2000, os ativistas que defendem a vida selvagem conseguiram demonstrar o que os pequenos mamíferos faziam à noite.

Imagens de ratos atacando ovos e filhotes foram compartilhadas nas redes sociais. “Aquela filmagem sensibilizou muitos”, diz Russell. Um ecologista na época calculou que a Nova Zelândia estava perdendo 26 milhões de aves por ano para os predadores.

Em 2011, um físico famoso, Paul Callaghan, popularizou a ideia de um país livre de predadores. Russell e outros jovens conservacionistas argumentaram que isso seria possível com investimento e mobilização suficientes.

Os políticos embarcaram na ideia. Em 2016, uma lei marcou os piores predadores para erradicação: os três tipos de ratos (rato do Pacífico, rato de navio e rato da Noruega), mustelídeos (arminhos, doninhas e furões) e gambás.

A metade deste século foi escolhida como um prazo factível.

Os ratos noruegueses chegaram em navios europeus no final do século 18 e rapidamente se espalharam pela Nova Zelândia — Foto: GETTY IMAGES

O Predator Free 2050 Ltd, um órgão público, foi criado para canalizar dinheiro do governo e privado para projetos locais que testam estratégias de erradicação.

O mais ambicioso deles é o Predator Free Wellington. Em uma cidade de 200 mil habitantes, o projeto tem como objetivo matar uma série de pragas, principalmente ratos que prosperam em ambientes urbanos.

A equipe de 36 pessoas do projeto transformou caçadores de ratos amadores em verdadeiros exterminadores.

O órgão fornece veneno anticoagulante, que é muito mais eficaz do que armadilhas, além de aplicativo GPS que armazena informações de todos os dispositivos em tempo real.

Câmeras foram instaladas em pontos de acesso. “Se algum rato aparecer, minha equipe de planejamento sabe onde precisa colocar seus recursos”, diz o diretor do Predator Free Wellington, James Willcox.

Cada rato encontrado morto é enviado ao laboratório para uma autópsia. Isso é crucial porque os anticoagulantes matam lentamente. Os ratos são animais sociais inteligentes e aprendem a evitar coisas que os prejudicam.

O rato envenenado morre longe da caixa de iscas. O Predator Free Wellington precisa das autópsias para monitorar a eficácia.

“Nós os cortamos para ver se foram mesmo mortos pelo veneno”, explica Willcox. “Também precisamos entender: é macho, é fêmea, se reproduziu recentemente? Estamos perseguindo um rato ou uma família de ratos?”

Miramar tem estado na vanguarda da ofensiva contra os predadores. Os ratos são agora uma raridade na península e muitos pássaros nativos voltaram. O canto característico do tui, cujos números em Wellington haviam diminuído para apenas alguns pares em 1990, é hoje onipresente.

“Em nosso quintal, agora temos tui voando o tempo todo”, diz Paul Hay, morador de longa data de Miramar. “A fauna de aves disparou especialmente nos últimos cinco anos.”

A cidade está se beneficiando de um conceito de conservação criado em Wellington: cercas à prova de predadores.

O primeiro ecosantuário urbano do mundo foi inaugurado em 1999, a poucos quilômetros do centro da cidade em linha reta. Agora chamada de Zealandia, o local é protegido por uma cerca de 8 km.

Os visitantes têm suas malas verificadas e precisam passar por uma barreira de duas portas que se assemelha a uma câmara de descompressão.

Por trás de medidas de biossegurança tão rigorosas, pássaros que antes eram raros não apenas sobreviveram, mas estão se espalhando pelos bairros vizinhos.

Existem agora dezenas de santuários cercados ao redor da Nova Zelândia. Um dos maiores, o Brook, cobre quase 700 hectares.

Um ano depois que uma cerca de exclusão de predadores foi erguida em 2016, a área foi varrida de pragas. O desafio agora é garantir que nenhuma praga nova entre.

A vigilância constante é essencial. Um rato pode ser acidentalmente derrubado por uma ave de rapina; uma árvore pode cair sobre a cerca, permitindo que uma doninha ou furão se infiltre.

Qualquer dano à cerca aciona um sistema de alerta. “Se o alarme disparar no meio da noite, um de nós sobe lá e verifica”, diz Nick Robson, gerente de operações da Brook.

Câmeras e tintas alertam a equipe sobre qualquer incursão. Mas a ferramenta de detecção mais eficiente — e o pior inimigo do predador — é o melhor amigo do homem.

“Os cães são especialmente treinados para detectar certas pragas e ignorar outras”, diz Robson. “Pode ser que um cachorro consiga detectar um rato que não é pego pelos nossos dispositivos.”

Prevenir a reinvasão é uma preocupação especialmente para as chamadas ilhas offshore — que são mais isoladas e menos povoadas. Rakiura, ou Stewart Island, é a maior delas. Separada do continente por 25 km de água, tem ratos, mas nunca teve mustelídeos.

Esse relativo isolamento permitiu que pássaros raros fizessem seus ninhos ali. Os conservacionistas estão trabalhando duro para preservar a espécie.

Gadget, uma cadela farejadora, é uma celebridade que tem sua própria página no Facebook. É possível segui-la enquanto ela verifica os barcos que chegam em busca de roedores clandestinos.

Nos últimos 20 anos, o grupo de voluntários Stewart Island/Rakiura Community & Environmental Trust (Sircet) impediu que ratos e outras pragas destruíssem uma colônia de muttonbirds, uma espécie de aves que faz ninhos no solo e que quase desapareceu do continente.

“Estamos segurando as pontas”, diz Shona Sangster, presidente do Sircet, enquanto inspeciona as armadilhas no mato.

Defesas fortes são vitais para pequenas ilhas próximas que já estão livres de predadores. Os ratos podem nadar por até 800m. Mantê-los longe desses santuários e das aves ameaçadas que eles abrigam é uma luta constante.

O dinheiro do governo ajudou. O Predator Free Rakiura, um projeto criado sob o esquema 2050, forneceu experiência, funcionários especializados e ferramentas novas, como armadilhas de recarga automática. Elas esmagam o crânio de qualquer rato que se aproxima e requerem manutenção mínima. As vítimas caem mortas e a natureza faz a limpeza.

As armadilhas de recarga automática são ideais para santuários remotos — Foto: BBC

O projeto Predator Free Rakiura tem um orçamento muito mais modesto do que os projetos de Wellington. Mas os conservacionistas locais contam com enorme apoio popular. Em 2020-21, diz Sircet, 261 pessoas dedicaram-se à causa, uma enorme taxa de mobilização em uma ilha de 440 habitantes.

No ano passado, o grupo distribuiu armadilhas para crianças em idade escolar e distribuiu prêmios para o maior número de ratos capturados, o maior rato, o de maior dente e o mais peludo.

Os jovens são criados em uma comunidade onde o controle de predadores é extremamente importante, diz Sangster. “Algo que seria um pouco incomum para quem vem de fora é parte do dia-a-dia deles.”

A Sircet também promove a posse responsável de animais de estimação na ilha. Gatos que matam pássaros devem ser castrados e microchipados.

Os cães — que tendem a confundir kiwi com brinquedos fofos — também podem ser perigosos. A Sircet oferece um programa voluntário (para os donos dos cães) em que um kiwi eletrônico dá um leve choque nos cães, ensinando-os a manter distância dos pássaros.

As iniciativas até agora foram bem-sucedidas. Mas quais são as chances de Rakiura, uma área do tamanho da Grande Londres, se tornar completamente livre de predadores em 27 anos? Sangster é cauteloso. “Mire nas estrelas e você pode pousar na Lua”, diz ela.

A viabilidade de todo o projeto 2050 tem sido motivo de debate entre os conservacionistas. James Lynch, o fundador da Zealandia, tem reservas quanto à praticidade e custo-benefício da ideia. Ele apoia o objetivo final de remover predadores.

“O problema é que não temos nenhuma caixa de ferramentas para isso no momento”, diz Lynch.

A maioria das aves nativas, observa ele, não precisa de um ambiente sem predadores para prosperar. As poucas que o fazem, ele argumenta, podem sobreviver em santuários offshore ou urbanos. Em vez de tentar limpar todo o país das pragas, Lynch recomenda concentrar os recursos na floresta em torno de áreas cercadas para maximizar a sobrevivência das aves.

Esse conceito, diz ele, funcionou em Wellington e representa a melhor esperança em todo o país enquanto as ferramentas para a erradicação completa estão sendo desenvolvidas.

Outros consideram fantasiosa a própria ideia de uma Nova Zelândia livre de predadores. O pesquisador de conservação Wayne Linklater aponta que, nos últimos 150 anos, a Nova Zelândia perdeu todas as guerras que travou contra coelhos e outras pragas.

Campanhas para exterminar seres inteligentes não são apenas impraticáveis, mas eticamente equivocadas, acrescenta Linklater. “Reunimos enormes recursos e a paixão das pessoas e implementamos grande crueldade. Como pudemos nos alegrar tanto com o sofrimento?”

O movimento livre de predadores, diz Linklater, “depende de demonizar uma espécie e torná-la inimiga para que você possa matá-la”.

Além disso, quem é o Homo sapiens, o mais invasivo dos predadores mamíferos e destruidor sistemático de habitat, para declarar guerra total a outras criaturas?

Em vez de estabelecer metas nacionais impossíveis, Linklater recomenda permitir que as comunidades determinem suas próprias metas de biodiversidade. Os residentes de Auckland poderiam conviver com alguns ratos e gambás, enquanto os moradores de Stewart poderiam priorizar a proteção de seus kiwis e muttonbirds.

Para o biólogo James Russell, que trabalhou para dar respaldo científico ao projeto 2050, estratégias localizadas são inúteis. “É o modelo pouco ambicioso”, ele encolhe os ombros.

Para ele, salvar pássaros em apenas alguns lugares é uma falsa economia, pois requer investimento perpétuo para impedir o retorno de predadores. A erradicação de pragas é cara, mas “você paga uma vez e pronto”.

Russell admite que ninguém sabe como atingir a meta. A tecnologia de controle de pragas, no entanto, deu grandes passos desde a década de 1960 e ainda pode haver novos avanços nos próximos 27 anos.

Quanto às objeções morais, não há respostas concretas. Cabe aos indivíduos e às sociedades ponderar argumentos complexos. Os neozelandeses, diz Russell, decidiram coletivamente que sacrificar algumas espécies para salvar outras é o caminho correto.

É verdade que, neste momento, a oposição à erradicação está em baixa e o entusiasmo, em alta.

De volta à península de Miramar, Dan Coup espera o dia em que ele e seus colegas caçadores de ratos perderão seus empregos.

“Você tem a opção de continuar trabalhando para sempre ou investir uma quantia enorme antecipadamente para eliminar o último 0,5% dos ratos e não precisar trabalhar novamente”, diz ele.




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Por: G1

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