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A misteriosa ‘ilha da morte’ britânica palco de experimentos secretos na 2ª Guerra Mundial

today28 de abril de 2024 9

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“Mas esta não é uma história de antigas façanhas sombrias, nem uma superstição das Terras Altas da Escócia”, prossegue o repórter. “Não, esta história começou em 1942.”

“A guerra já durava três anos quando um grupo de cientistas do Escritório da Guerra subitamente tomou posse da ilha e começou a realizar experimentos tão secretos que, ainda hoje, 20 anos depois, muito poucas pessoas sabem o que aconteceu ali. E os habitantes locais não foram informados de nada.”

Robertson pretendia investigar as histórias de experimentos governamentais perigosos que, segundo se acreditava, teriam sido realizados em Gruinard.



Na época da sua reportagem, o Ministério da Defesa do Reino Unido já havia proibido o acesso a Gruinard e Robertson não conseguiu convencer os temerosos habitantes locais a levá-lo de barco em torno da ilha, para dar uma olhada mais de perto.

O que aconteceu foi uma catástrofe ambiental. Tragicamente, a ilha permaneceu uma área perigosa, contaminada e interditada por cerca de meio século. Foi apenas em 24 de abril de 1990 que o governo britânico finalmente declarou que a ilha era segura.

Gruinard foi o local de uma tentativa clandestina do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial de usar o antraz – uma infecção bacteriana mortal – como arma de guerra.

Os detalhes precisos sobre o que aconteceu ali só vieram a público em 1997. Naquele ano, o governo liberou a publicação de um filme feito na época pelos militares, detalhando os experimentos.

O projeto foi chamado de Operação Vegetariana. Ele começou sob o comando de Paul Fildes (1882-1971), na época chefe do Departamento de Biologia de Porton Down, uma instalação militar em Wiltshire, na Inglaterra, que existe até hoje.

Porton Down foi estabelecida em 1916, como a Estação Experimental do Departamento da Guerra. Seu objetivo era estudar os efeitos dos agentes de armas químicas, que eram cada vez mais empregados à medida que avançava a Primeira Guerra Mundial.

Nos anos 1940, o Reino Unido estava novamente em guerra e Porton Down foi encarregada de desenvolver armas biológicas que pudessem ser utilizadas contra a Alemanha nazista com efeitos catastróficos, minimizando o combate direto entre as tropas.

O plano era infectar bolos de linhaça com esporos de antraz e lançá-los de avião sobre pastagens de gado em toda a Alemanha. As vacas comeriam os bolos, contrairiam antraz e o transmitiriam para as pessoas que ingerissem a carne infectada.

O antraz é um organismo mortal de ocorrência natural e os sintomas da infecção podem demorar para aparecer totalmente. Mas, quando surgem, são sintomas horríveis e podem ser letais com muita rapidez.

Se fosse colocado em prática, o plano teria dizimado o fornecimento de carne da Alemanha e causado contaminação com antraz por todo o país, resultando em um número imenso de mortes.

Mas, para começar a compreender como o antraz funcionaria como arma em um ambiente real, os pesquisadores precisavam de um local ao ar livre, longe de áreas povoadas, para fazer testes.

Por isso, no verão de 1942, os militares compraram a remota ilha desabitada de Gruinard, de pouco mais de 2 km², e proibiram que os habitantes da região entrassem no local.

Uma equipe militar supervisionada por cientistas começou a realizar experimentos assustadores. Usando animais levados para a ilha para servirem de cobaias, eles começaram uma série de testes de liberação de esporos de antraz por todo o terreno da ilha.

“O objetivo era testar se o antraz sobreviveria a uma explosão no campo, o que eles não sabiam, e se permaneceria virulento”, declarou Edward Spiers, professor emérito da Universidade de Leeds, no Reino Unido, ao documentário da BBC Escócia The Mystery of Anthrax Island (“O mistério da ilha do antraz”, em tradução livre), de 2022.

“Cerca de 80 ovelhas foram amarradas em vários estágios a favor do vento em relação à explosão iminente”, ele conta. “A explosão foi detonada por controle remoto. Não era grande, mas uma corrente de esporos altamente poderosa se movimentou com o vento, causando infecção e morte por onde passava.”

Os resultados foram devastadores. Dias após a exposição, as ovelhas começaram a mostrar sintomas e morreram rapidamente. Seus corpos infectados sofreram autópsia e foram incinerados ou enterrados sob toneladas de entulho.

Alguns desses experimentos foram presenciados por pequenos agricultores locais que identificaram as nuvens de antraz flutuando sobre a ilha.

Um morador local, que havia vendido ovelhas para a equipe de cientistas, lembra-se de ter visto o que descreveu como a fumaça descendo sobre os animais.

“Acho que era todo tipo de gás venenoso, antraz”, ele contou a Robertson em 1962.

Os testes secretos prosseguiram até 1943 e os militares consideraram seus resultados um sucesso. Os cientistas então retornaram para Porton Down.

Como resultado, foram produzidos cinco milhões de bolos de linhaça infectados com antraz, mas o plano acabou sendo abandonado com o sucesso da invasão da Normandia, na França, pelos aliados. Os bolos foram destruídos após a guerra.

Em 1952, o Reino Unido já havia desenvolvido outra arma de destruição em massa, ao realizar sua ambição de se tornar a terceira potência nuclear do mundo.

Quatro anos depois, o país encerrou seu programa de armas biológicas e químicas ofensivas. E, em 1975, o Reino Unido ratificou a Convenção de Armas Biológicas, que proíbe todo o uso, produção e armazenagem deste tipo de armamento.

As consequências da Operação Vegetariana foram catastróficas para a ilha.

O antraz é uma bactéria muito resistente que pode persistir por décadas no solo, causando infecções quando ingerida, mesmo anos depois de um surto.

Os experimentos militares deixaram a ilha perigosa demais para que pessoas ou animais pudessem viver nela. A própria água da chuva que escorria da ilha poderia ser letal.

Nos meses que se seguiram aos testes, animais nas terras próximas à baía de Gruinard começaram a morrer.

No seu estudo intitulado Contamination and Compensation (“Contaminação e Compensação”, em tradução livre), a autora Elizabeth Willis menciona que o governo britânico pagou secretamente indenizações às pessoas afetadas, mas declarou que as mortes foram causadas por uma ovelha doente que havia caído de um navio grego que estava de passagem.

Um morador local disse à BBC em 1962 que “era bastante óbvio para nós que eles sabiam algo sobre aquilo ou não teriam feito os pagamentos com tanta rapidez”.

Os militares colocaram a ilha em quarentena por prazo indeterminado e instalaram placas alertando os visitantes para que se afastassem.

Nas décadas que se seguiram após a Segunda Guerra Mundial, foram realizadas tentativas de descontaminar o local, utilizando tratamentos químicos e queima controlada. Mas essas iniciativas se mostraram, em grande parte, ineficazes.

Em 1971, uma série de testes demonstrou que, embora não houvesse mais esporos de antraz sobre a superfície, eles ainda permaneciam no subsolo, representando grave risco a qualquer pessoa que entrasse na ilha.

Os experimentos secretos realizados durante a Segunda Guerra Mundial deixaram a ilha de Gruinard contaminada e interditada. — Foto: GETTY IMAGES via BBC

Um grupo ambiental chamado Dark Harvest Commandos desembarcou na ilha em 1981 e coletou amostras de solo infectado por antraz.

Eles deixaram um balde daquele solo em frente a Porton Down, para alertar sobre a contaminação mortal da ilha. Seu objetivo era forçar o governo a tomar alguma medida a respeito.

Cinco anos depois, cientistas voltaram a tentar descontaminar o local, encharcando a ilha com uma mistura de água do mar e formaldeído. Eles também retiraram e incineraram a camada superior contaminada do solo.

Desta vez, eles tiveram mais sucesso e, finalmente, no dia 24 de abril de 1990, depois de 48 anos de quarentena, o governo britânico declarou a ilha de Gruinard livre de antraz.

Gruinard não foi o único local onde o Reino Unido realizou testes secretos de armas biológicas. Mas foi o primeiro.

As consequências do que aconteceu ali permanecem como um lembrete sombrio dos riscos da guerra biológica e da capacidade humana de destruição.




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Por: G1

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