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A moeda internacional imposta pela Espanha por 3 séculos que serviu de modelo para o dólar

today19 de fevereiro de 2023 10

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Ela precedeu a libra esterlina de ouro e o dólar dos Estados Unidos. Na verdade, os americanos basearam-se nesse modelo para desenvolver o dólar.

A moeda se chamava “real de a ocho” (também conhecido como “dólar espanhol”). Era fabricada, em grande parte, com prata do continente americano e foi a primeira moeda internacionalizada da história moderna.

A divisa foi cunhada pelo Império Espanhol em meados do século 16 e impulsionada pelas imensas riquezas trazidas pela colonização da América.



E, até mesmo quando esse império entrou em decadência, a moeda espanhola continuou sendo uma das mais competitivas do mundo, estendendo sua supremacia até o final do século 19.

Com ascensão da Casa de Bourbon, monarquia espanhola começou a cunhar seus reais ‘de a ocho’ principalmente nos territórios americanos — Foto: Museu Arqueológico Nacional da Espanha/Divulgação

O nascimento de uma moeda global

A origem desta moeda remonta à reforma monetária adotada pelos reis católicos da Espanha em 1497, após a chamada Reconquista e a chegada ao continente americano.

Essa reforma é mencionada nos livros de história como a “Pragmática de Medina del Campo” e estabeleceu o real, uma moeda de prata, como unidade de pagamento.

Mas só em meados do século 16, o “real de a ocho” começou a popularizar-se, impulsionado principalmente pelos reis espanhóis Carlos 1º (que reinou como Carlos 5º, na Alemanha) e Felipe 2º.

Esses dois monarcas representaram a etapa de maior protagonismo e expansão do Império Espanhol.

A prata extraída das Américas, particularmente das minas do México e de Cerro Potosí (atual Bolívia), fez com que a emissão de moedas de prata disparasse.

“Perto de 1535, foram criadas na América as primeiras casas da moeda, no México e em Santo Domingo [hoje, República Dominicana]. Com essa grande quantidade de prata, o real dos reis católicos irá se multiplicar: um real de a dois, três, quatro… porque a melhor forma de transportar a prata é em forma de moeda“, explica o professor de história José María de Francisco Olmos, da Universidade Complutense de Madri, na Espanha, e pesquisador de numismática (estudo sob o ponto de vista histórico, artístico e econômico das cédulas, moedas e medalhas).

“Depois dessa pequena confusão, vai se firmar o real “de a ocho”, que é a multiplicação por 8 do real dos reis católicos”, explica ele.

E, ao lado da onça — unidade de medida do ouro —, o real “de a ocho” formou o sistema de dois metais promovido pela monarquia espanhola.

“Entra na Europa esse rio de ouro e prata. Como todos concordam que é uma prata muito boa, ela começa a transformar-se na moeda de referência de todos os demais países”, acrescenta Olmos.

Real ‘de a ocho’ foi primeira moeda a circular nos cinco continentes — Foto: Getty Images via BBC

No século 18, o real “de a ocho” consolida-se como moeda global, com a chegada da casa de Bourbon após a Guerra de Sucessão, um conflito internacional que envolveu as potências europeias em busca do controle do trono espanhol.

A Espanha concentrou-se posteriormente nas suas colônias no continente americano. Depois de assumir o controle da Real Casa da Moeda do México — que, até então, era uma concessão —, a metrópole ordenou a modernização das suas máquinas de cunhagem de moedas.

A partir de então, o real “de a ocho” passou a ser produzido com um novo desenho, exclusivo das colônias americanas. Ele foi chamado de moeda de “mundo e mares”.

Ela também ficou conhecida como a “colunária”, pois continha a impressão das colunas de Hércules (representando o estreito de Gibraltar) e, entre elas, os dois hemisférios do planeta, representando a expansão do Império Espanhol.

Especialistas em numismática consideram essa moeda uma das mais belas e esplendorosas já cunhadas.

Essa nova versão alcançou sucesso particularmente na bacia do Pacífico, onde o comércio funcionava até então com um sistema de um único metal com base na prata, segundo Francisco Olmos.

“Nos séculos 15 e 16, o comércio do Atlântico era importante. Mas, a partir de determinado momento, o comércio do Pacífico adquire importância igual ou maior”, explica o historiador. “Ali está a América, no centro, com suas minas, com suas moedas, que podem seguir tanto para o Atlântico quanto para o Pacífico.”

Transportado pelo famoso Galeão de Manila, navio que ligou o porto de Acapulco, no México, às Filipinas por mais de 250 anos até 1815, o real “de a ocho” foi introduzido na Ásia. Lá, ele foi aceito como moeda própria na China, no Japão, na Coreia e na Índia, entre outros países.

Algumas nações simplesmente perfuravam ou marcavam as moedas com selos locais para permitir sua circulação.

Captura de uma frota espanhola carregada de prata por um esquadrão de 24 navios da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais em Havana (Cuba), em 1628 — Foto: Getty Images via BBC

O ‘dólar das Colunas’, popular nas colônias britânicas

A moeda de prata espanhola também foi aceita nos domínios em expansão do Império Britânico nos séculos 18 e 19. Ela se popularizou com o nome de Pillar Dollar (“dólar das colunas”), em referência às colunas de Hércules no desenho do século 18.

Mas esse não foi seu único nome. Na Austrália, por exemplo, no início do século 19, ela foi chamada de holey dollar – o “dólar furado”.

Devido à escassez da moeda britânica, as autoridades coloniais australianas da época encomendaram a importação de cerca de 40 mil reais espanhóis, que foram “furados” e duplicaram o número de moedas disponíveis.

A moeda também ficou conhecida como “dólar espanhol” e atingiu a mesma popularidade nas 13 colônias britânicas da América do Norte. Lá, era mais fácil conseguir o dólar espanhol do que as próprias moedas britânicas.

O padrão do dólar americano (e de outras moedas)

Até mesmo durante a decadência do Império Espanhol, o real “de a ocho” continuou sendo uma moeda cobiçada pelo mundo.

Nos anos anteriores e posteriores à sua independência na década de 1770, os Estados Unidos começaram a desenhar sua própria moeda, com base no modelo das divisas imperiais espanholas. Os revolucionários americanos chegaram a financiar seu movimento emitindo papel-moeda garantido por reais espanhóis.

O dólar americano nasceu como moeda em 1785, mas o “dólar espanhol” continuou sendo aceito até 1857, quando a Lei da Cunhagem finalmente o retirou de circulação dos Estados Unidos.

Acrescente-se a este fato uma teoria bastante aceita sobre a origem do cifrão ($). Acredita-se que ele provenha da união das duas colunas de Hércules e da transformação das letras P e S, que podem fazer referência tanto à palavra “peso” quanto à expressão “Plus Ultra”, que acompanha o brasão da monarquia espanhola.

O fim e o legado do real “de a ocho”

As guerras napoleônicas e a independência das províncias espanholas no continente americano marcaram o início da queda da moeda espanhola. Quando perdeu o controle das minas de prata americanas e suas casas da moeda, a Espanha ficou sem poder continuar a produzir o que era seu principal produto de exportação.

Mesmo com o colapso do império, o real “de a ocho” continuou sendo uma moeda competitiva até o final do século 19.

No seu livro sobre a história da moeda, a historiadora espanhola María Ruíz Trapero afirma que o real “de a ocho” era mantido em depósito na China, na Índia e no Oriente Médio, como a principal moeda de reserva.

E não serviu apenas de modelo para o dólar americano. O dólar canadense, o tael chinês, o won coreano e, é claro, as moedas das repúblicas americanas que nasceram da independência das colônias espanholas basearam-se no mesmo modelo para sua consolidação.

Por tudo isso, seja a bordo dos galeões espanhóis ou saqueado pelos piratas, o real “de a ocho” atravessou “mundo e mares” ao longo de três séculos para tornar-se a moeda precursora da economia global que conhecemos atualmente.




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Por: G1

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