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As novas revelações que põem em dúvida ação de autoridades gregas em naufrágio que matou 600 imigrantes

today14 de julho de 2023 5

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Dois sobreviventes descreveram como a guarda costeira os pressionou para identificar nove egípcios que estavam a bordo como os responsáveis pelo tráfico humano.

Um novo vídeo do barco superlotado afundando no mar também desafia a versão da guarda costeira grega.

As imagens foram captadas quando o barco estava em um “curso estável”, segundo as autoridades locais.



O BBC Verify — um time de investigações jornalísticas da BBC — confirmou que a filmagem foi realizada quando a guarda costeira alegava que o barco não precisava de resgate. O vídeo de fato é da própria guarda costeira.

A reportagem também confirmou que a embarcação maior ao fundo no vídeo é o navio petroleiro Faithful Warrior, que foi até o local para fornecer suprimentos ao barco cheio de imigrantes.

A versão oficial da guarda costeira grega já havia sido contestada em outra reportagem da BBC Verify.

Agora, a equipe teve acesso a documentos judiciais que mostram sérias discrepâncias entre as declarações dos sobreviventes registradas pela guarda costeira e as evidências posteriormente apresentadas a um juiz.

Um intérprete também apresentou um relato sobre uma investigação de tráfico de pessoas no ano passado, depois que outro grupo de migrantes foi resgatado pela guarda costeira da Grécia.

Ele descreve como as testemunhas daquele incidente foram intimidadas pela guarda costeira. O processo jurídico se encerrou antes que pudesse chegar a um julgamento.

As revelações levantam novas questões sobre como as autoridades gregas lidam com tais desastres.

Tanto a guarda costeira grega quanto o governo grego não comentaram e recusaram os pedidos de entrevista para a reportagem.

Sobreviventes ‘silenciados e intimidados’

Logo após o naufrágio de 14 de junho, nove homens egípcios foram detidos e acusados de homicídio culposo e tráfico de pessoas.

Mas dois sobreviventes do desastre dizem que os sobreviventes foram silenciados e intimidados pelas autoridades gregas, após os imigrantes sugerirem que a guarda costeira pode ter sido a culpada pela tragédia.

No mês passado, foram feitas alegações de que a guarda costeira usou uma corda para rebocar o barco, fazendo-o afundar.

Os dois sobreviventes com quem a reportagem falou em Atenas, capital grega — cujos nomes foram modificados para Ahmad e Musaab, para proteger as identidades deles —–, dizem que foi exatamente isso que aconteceu.

“Eles amarraram uma corda pela esquerda. Todos foram para o lado direito do nosso barco para equilibrá-lo”, relata Musaab.

“A embarcação grega se afastou rapidamente, fazendo com que nosso barco virasse. Eles continuaram arrastando-o por uma boa distância.”

Os dois homens descreveram como passaram duas horas na água antes de serem apanhados pela guarda costeira.

Quando questionados sobre como eles sabiam que se passou esse tempo, Musaab diz que o relógio dele ainda estava funcionando.

Uma vez em terra firme, na cidade de Kalamata, eles afirmam que representantes da guarda costeira disseram aos sobreviventes para “calarem a boca” quando eles começaram a falar sobre como as autoridades gregas causaram o desastre.

“Quando as pessoas responderam dizendo que a guarda costeira grega era a causa [do naufrágio], o oficial encarregado do interrogatório pediu ao intérprete que dissesse aos entrevistados para pararem de falar”, disse Ahmad.

Ahmad diz que os resgatados foram instruídos a agradecer por não terem morrido.

Ele diz que ouviu gritos de: “Você sobreviveu à morte! Pare de falar sobre o incidente! Não faça mais perguntas sobre isso!”

Os dois sobreviventes dizem que têm medo de falar publicamente, porque temem que também sejam acusados, como os egípcios.

“Se houvesse um sistema justo, nós contribuiríamos”, confessa Ahmad.

Os homens disseram que pagaram US$ 4,5 mil (R$ 21 mil) por uma vaga no barco.

O irmão mais novo de Ahmad também estava a bordo. Ele ainda está desaparecido.

Para além do testemunho que foi dado pelos dois sobreviventes, a reportagem teve acesso a documentos judiciais que levantam questões sobre a forma como as provas foram recolhidas e apresentadas em tribunal.

Nas declarações iniciais de cinco sobreviventes, nenhum mencionou que a guarda costeira tentou puxar o navio migrante com uma corda. Mas dias depois, diante de um juiz, todos explicaram que houve uma tentativa frustrada de reboque.

A declaração inicial de uma das testemunhas diz:

“Um barco da guarda costeira veio nos ajudar e, de repente, nosso barco virou e todos fomos parar na água. Eles então nos resgataram com botes infláveis.”

Mas a mesma testemunha afirmou mais tarde a um juiz:

“O barco grego amarrou uma corda na frente de nosso barco e tentou nos puxar lentamente, mas a corda arrebentou. Na segunda vez que eles amarraram, sentimos inicialmente que estávamos sendo puxados, mas nosso barco colapsou. O barco grego acelerou e nós gritamos em inglês: Parem!”

O BBC Verify não falou com essas testemunhas e, portanto, não pode dizer por que os relatos mudaram.

A guarda costeira grega inicialmente negou o uso de uma corda — mas depois voltou atrás, admitindo que o equipamento havia sido usado.

Representantes da corporação afirmaram que a corda serviu apenas para tentar avaliar a situação do barco. Eles reforçaram que isso aconteceu pelo menos duas horas antes do navio de pesca virar.

Até o momento, foram confirmadas 82 mortes no naufrágio, mas a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que mais de 500 perderam a vida.

As autoridades gregas dizem que os homens egípcios acusados fazem parte de uma quadrilha de contrabando e foram identificados por outros passageiros. Eles enfrentarão prisão perpétua se forem considerados culpados.

Alguns sobreviventes alegam que alguns dos nove suspeitos maltrataram as pessoas a bordo — enquanto outros testemunhos apontam que esses homens estavam tentando ajudar.

Mas Ahmad e Musaab disseram que a guarda costeira instruiu todos os sobreviventes a dizerem que os nove homens egípcios eram os culpados pelo tráfico.

“Eles foram presos e acusados injustamente pelas autoridades gregas, como uma tentativa de encobrir o crime”, disse Musaab.

Um vice-promotor da Suprema Corte Criminal da Grécia está conduzindo uma investigação, mas os pedidos — inclusive da ONU — para um inquérito internacional e independente foram até agora ignorados. A Comissão Europeia indicou que confia na investigação grega.

Mas Ahmad e Musaab não estão sozinhos nas preocupações sobre a guarda costeira grega.

Intérprete se apresenta à BBC

Quando os nove homens egípcios foram presos horas após o naufrágio, a notícia foi amplamente divulgada como um exemplo de trabalho de investigação eficiente das autoridades gregas.

Mas, para Farzin Khavand, o fato soou como um alarme. Ele temia que a história estivesse se repetindo.

Ele diz que testemunhou a guarda costeira grega acusar dois iranianos inocentes de tráfico de pessoas no ano passado, após o resgate de 32 migrantes cujo barco teve problemas ao cruzar o mar a partir da Turquia.

Khavand, um cidadão britânico que fala persa e vive na área de Kalamata há 20 anos, atuou como tradutor durante a investigação da guarda costeira à época.

Ele diz que os migrantes — 28 do Afeganistão e quatro do Irã — explicaram que partiram da Turquia e ficaram no mar por oito dias antes de serem resgatados.

Os migrantes disseram a ele que, durante esse tempo, a guarda costeira grega se aproximou do barco partir, mas depois partiu.

Dois homens que falavam árabe abandonaram o barco depois que o motor explodiu, segundo Khavand foi informado pelos imigrantes afegãos.

Eles disseram que a maioria das pessoas se revezou para tentar conduzir o barco atingido para um local seguro — incluindo os dois iranianos acusados, que pagaram para estar a bordo, como todos os outros.

“Eles [os homens iranianos] ficaram muito traumatizados”, aponta Khavand.

Um dos dois acusados — um homem chamado Sayeed, que enfrenta uma longa sentença de prisão — foi resgatado com o filho, explicou Khavand.

“Eu perguntei a ele ‘Por que você levou uma criança de seis anos em um barco?’ E ele disse que os contrabandistas haviam dito que seriam apenas duas horas de viagem.”

Khavand retransmitiu os relatos para a guarda costeira, exatamente como havia ouvido — porém, quando viu as transcrições, o testemunho dos afegãos havia mudado. Ele teme que os relatos tenham sido alterados após a pressão das autoridades gregas.

Ele diz que os iranianos lhe contaram que alguns dos afegãos foram persuadidos pela guarda costeira a chamá-los de contrabandistas de pessoas — para evitar serem “tratados de forma desagradável”, ameaçados de prisão e “devolvidos ao Talibã”.

O caso acabou não seguindo adiante nos inquéritos. Khavand diz que não está disposto a ajudar a guarda costeira grega novamente.

Ele também relatou que quando Sayeed e o filho foram libertados da custódia, os € 1.500 (R$ 8 mil) que haviam sido confiscados não foram devolvidos a eles.

“Pensei, então, que não quero fazer isso de novo, porque eles [as autoridades gregas] não estavam tentando chegar ao fundo da verdade. Eles estavam tentando pegar alguns caras e acusá-los de contrabandistas de pessoas.”

Todas as acusações citadas foram feitas às autoridades gregas pela BBC — mas foram enviadas respostas. Um pedido de entrevista com o ministro de assuntos marítimos da Grécia — que supervisiona a guarda costeira — também foi rejeitado.

Grécia já foi acusada de violações de direitos humanos

A advogada Chrysanthi Kaouni, de Kalamata, diz que viu outros casos criminais movidos contra supostos contrabandistas de pessoas que a incomodaram.

Ela esteve envolvida em mais de dez desses casos, conta.

“Minhas preocupações são sobre as traduções, a forma como as evidências são reunidas e — mais tarde — a capacidade dos réus de contestar essas evidências”, listou ela.

“Por causa desses três pontos, não acho que existam salvaguardas suficientes de acordo com o direito internacional e, no final, não acredito que a Justiça seja feita.”

Um novo estudo descobriu que o julgamento médio para migrantes acusados de tráfico de pessoas na Grécia durou apenas 37 minutos, e a sentença média de prisão dada foi de 46 anos.

O estudo, encomendado pelo grupo The Greens/European Free Alliance do Parlamento Europeu, analisou 81 processos de 95 pessoas — todas julgadas por contrabando em oito áreas diferentes da Grécia entre fevereiro de 2020 e março de 2023.

O estudo afirma que os veredictos foram emitidos frequentemente com base no testemunho de um único policial ou oficial da guarda costeira e, em mais de três quartos dos casos, essas autoridades não compareceram ao tribunal para que as evidências fossem examinadas.

Ahmad diz que ele e os outros sobreviventes querem que as autoridades investiguem o naufrágio e recuperem as pessoas que afundaram com a embarcação, mas as autoridades dizem que isso é difícil, pois a água é muito profunda.

Ele compara o argumento com as vastas quantias de dinheiro e recursos gastos na busca por cinco pessoas no submersível Titã no Atlântico Norte no mesmo mês de junho.

“Mas nós éramos centenas”, diz ele.

“Não se trata apenas de um navio. São nossos amigos e familiares.”

*Com reportagem adicional de Nikos Papanikolaou, Daniele Palumbo, Kayleen Devlin e Joshua Cheetham




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Por: G1

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