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As supostas mensagens ocultas em ‘Alice no País das Maravilhas’

today11 de julho de 2023 8

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A história fantástica de Lewis Carroll (1832-1898), com seus bolos mágicos, portas secretas, gatos risonhos e falsas tartarugas, nunca deixou de ser impressa desde que foi publicada pela primeira vez. Ela ficou recentemente em segundo lugar na lista dos 100 melhores livros infantis de todos os tempos, em votação promovida pela BBC.

Um século e meio depois do seu lançamento, a obra já inspirou filmes, quadros, balé e jogos de computador. Existe até uma síndrome neurológica com o seu nome.

Mas seu subproduto mais prolífico, sem dúvida, são as leituras alternativas.



Quando mergulhamos nos textos escritos por gerações de críticos, acadêmicos e blogueiros, o adorado clássico da literatura juvenil pode se tornar uma alegoria sobre a cultura das drogas, uma parábola da colonização britânica ou a história de uma heroína com um caso mal resolvido de inveja do pênis.

As origens e as controvérsias

Alice no País das Maravilhas nasceu de forma modesta, em 1862. A história serviu de entretenimento para a pequena Alice Liddell, então com 10 anos de idade, e suas duas irmãs. Elas viajavam de barco pelo rio Tâmisa, na Inglaterra, com o matemático Charles Dodgson e seu amigo sacerdote.

O sucesso foi tão grande que Alice insistiu para que Dodgson a transcrevesse, o que ele fez. Escrita à mão meticulosamente com tinta sépia, a obra não contém um único erro e é repleta de detalhadas ilustrações, feitas por ele próprio.

Com a inscrição Um Presente de Natal para uma Criança Querida em Memória a um Dia de Verão, ela leva o pseudônimo sob o qual o autor já havia publicado algumas poesias: Lewis Carroll.

Alice era filha do diretor da Igreja de Cristo, o colégio de Oxford, na Inglaterra, onde Dodgson lecionava. Ele era ávido praticante da moderna arte da fotografia e sua amizade evoluiu graças aos seus esforços para fotografar a ela e sua irmã. Sua lente era especialmente voltada para Alice, que a encarava de forma assertiva nos seus retratos obsessivamente elaborados. Seu olhar era de notório autocontrole.

As meninas de Liddell não eram as únicas crianças amigas de Dodgson. Não existe nenhuma prova de nada explicitamente impróprio nos seus relacionamentos com elas, mas, do nosso ponto de vista do século 21, é difícil não suspeitar de um homem adulto que não só enviava às meninas cartas maravilhosas, cheias de jogos de palavras e quebra-cabeças, mas também pedia mechas dos seus cabelos e as convidava para sentar-se no seu colo e posar para fotografias, às vezes nuas ou seminuas.

É claro que as pessoas da era vitoriana tinham uma visão diferente desta situação. Para começar, as fotografias criadas por ele não eram algo incomum. Outra pioneira britânica dos retratos fotográficos, Julia Margaret Cameron (1815-1879), tirou muitas fotos de crianças vestidas e em vários estágios de nudez.

Além disso, o que chamava a atenção entre os contemporâneos de Dodgson não era a ideia de que ele passava o tempo com crianças muito pequenas, mas que ele poderia estar confraternizando com meninas perto do que era, na época, a idade legal para consentimento: 12 anos (ela seria elevada para 16 em 1885).

Os biógrafos vêm questionando há muito tempo a verdadeira natureza da ligação de Dodgson com as meninas. Em relação a Alice, o mistério é aprofundado pelo fim do relacionamento entre eles ocorrido em 1863, cerca de um ano depois da lendária viagem de barco.

Será que ele queria se casar com Alice? Poderia ele ter tentado cortejar sua irmã mais velha, Lorina, ou mesmo a governanta, a Srta. Prickett?

Surgiram todos os tipos de especulações e as páginas cortadas do diário de Dodgson aumentam ainda mais as incertezas.

À medida que a sociedade evoluía, não foi só o próprio Dodgson quem sofreu novas investigações. Com o declínio do pudor vitoriano e o surgimento da teoria da psicanálise, seu livro começou a parecer muito menos inocente.

Novos exames do texto levaram os críticos a encontrar inúmeras imagens ginecológicas, desde a toca do coelho até a cortina que Alice precisava colocar de lado. As chaves e fechaduras eram consideradas símbolos de relações sexuais e a lagarta – bem, não era ela um tanto… fálica?

Inevitavelmente, algumas pessoas enxergaram inveja do pênis no texto, transformando o pescoço de Alice estendendo-se em uma espécie de paródia da ereção.

E existe a passagem em que Alice está se abanando antes de começar a encolher e a água salgada que atinge seu queixo quando ela tem poucos centímetros de altura – ambos os trechos adquirem um aspecto que decididamente esconderia a masturbação.

Outras leituras sutis observaram a viagem de Alice como menos relacionada especificamente ao sexo e mais sobre o desenvolvimento de uma menina ao longo da infância e da puberdade até a idade adulta.

Nossa heroína se sente desconfortável no seu corpo, que passa por uma série de mudanças extremas; seu sentido de si própria se desestabiliza, criando incerteza sobre sua própria identidade; ela enfrenta a autoridade e não consegue entender facilmente regras que são aparentemente arbitrárias, os jogos das pessoas à sua volta e até a morte.

O famoso crítico literário britânico William Empson (1906-1984) ficou particularmente encantado. Ele declarou que Alice é “um pai quando entra na toca, um feto no fundo e só consegue nascer tornando-se uma mãe e produzindo o seu próprio fluido amniótico”.

É claro que, às vezes, uma lagarta fumando um narguilé é apenas aquilo – especialmente quando ela está ao lado de um cogumelo mágico.

Desde os anos 1960, os defensores das drogas interpretam as aventuras de Alice como uma grande viagem. A letra da música White Rabbit (“Coelho branco”, 1967), da banda norte-americana Jefferson Airplane, ajudou bastante a solidificar a associação:

“Lembre-se do que disse o Arganaz / Alimente sua cabeça, alimente sua cabeça.”

Na verdade, o livro tem um ar psicodélico desde a cena de abertura, quando Alice está confusa devido ao calor – sem falar de todas aquelas pílulas, do tempo movendo-se de forma errática e do Gato Risonho, que ora está aqui, ora está lá.

Um dos escritores preferidos de Dodgson era o britânico Thomas De Quincey (1785-1859), autor do livro Confissões de um Opiômano Inglês. Embora ele consumisse remédios homeopáticos, não existem evidências concretas de que ele tenha experimentado drogas alucinógenas.

Ainda assim, Alice continua sendo associada às drogas, como mostra uma fala do filme Matrix: “Você toma a pílula azul, a história termina, você acorda na sua cama e acredita no que quiser acreditar. Você toma a pílula vermelha, você continua no País das Maravilhas e eu vou mostrar como a toca do coelho é profunda.”

Mas nem tudo são sexo e drogas. Outra linha da crítica considera que Alice é uma alegoria política.

Quando a nossa heroína segue o Coelho Branco, ela chega a um lugar tão estranho e desconcertante que chega a ser engraçado. E quem governa aquele local é uma rainha temperamental.

Supostamente, Dodgson mantinha sentimentos contraditórios sobre a rainha Vitória, mesmo ela tendo adorado seu livro. E o lugar tem um sistema legal atabalhoado, muito parecido com o Reino Unido da era vitoriana.

Mas como Alice se comporta naquela terra estranha? Confusa com a forma em que os nativos fazem as coisas, ela tenta impor seus próprios valores, com resultados quase catastróficos. O romance não poderia então ser uma alegoria da colonização?

Existe também a questão do poema A Morsa e o Carpinteiro, que os personagens Tweedledum e Tweedledee recitam no livro Alice no País do Espelho. Algumas interpretações indicam que o carpinteiro é Jesus e a morsa é Pedro, enquanto as ostras são discípulos.

Outros insistem que o poema fala do Império Britânico. A morsa e o carpinteiro representam a Inglaterra, enquanto as ostras são as colônias. Até o romancista britânico J. B. Priestley (1894-1984) entrou no debate, sugerindo que a morsa e o carpinteiro são, na verdade, arquétipos de dois tipos diferentes de políticos.

Analisar as estranhas teorias criadas por sucessivas gerações sobre o “verdadeiro” significado das aventuras de Alice nos faz compreender como as mudanças de costumes sociais podem alterar radicalmente a interpretação de um texto.

O fato de que cada geração conseguiu observar na obra seus próprios modismos e preocupações claramente comprova sua intrínseca imortalidade.

E pode também ser testemunho de outra questão importante: o mistério insolúvel da profunda personalidade do seu autor e os espaços que ele cria no texto para uma infinidade de interpretações.

Sua amizade com crianças traz uma sombra que é inegável. Na exposição Alice: Cada Vez Mais Curiosa, do Museu Victoria & Albert de Londres (2021), o autor foi claramente colocado em segundo plano. Seu famoso e – segundo alguns – provocador retrato de Alice Liddell como A Criada Pedinte, por exemplo, não foi incluído na exposição.

O movimento #MeToo destacou a controversa questão de se é possível admirar a arte de boa qualidade feita por pessoas más. Mas, no caso de Charles Dodgson/Lewis Carroll, é provável que nunca saibamos ao certo se ele era um predador reprimido ou um senhor afetuoso e tímido, que sofria de gagueira.

Como salientou a escritora norte-americana Katie Roiphe, é possível que ele não se enquadre em nenhuma das categorias definidas por nós hoje em dia.

Já a sua musa, Alice Liddell (1852-1934), cresceu e teve o tipo de vida esperado para uma mulher da sua classe. Depois de chamar rapidamente a atenção do crítico de arte John Ruskin (1819-1900) e do filho do Príncipe de Gales, Leopold, ela se casou com o jogador de críquete Reginald Hargreaves (1852-1926).

Apenas um dos três filhos do casal sobreviveu à Primeira Guerra Mundial. Seu nome era Caryl – por pura coincidência, segundo sempre afirmou Alice.

Atualmente, o debate sobre o mundo da personagem da ficção permanece, como uma festa do chá do Chapeleiro Louco que nunca termina. Alice é uma parábola dos transtornos alimentares; uma fábula de alerta sobre a então recém-criada álgebra simbólica; ou uma sátira das Guerras das Rosas – as disputas pelo trono inglês ocorridas entre 1455 e 1487.

Neste estranho contexto de tantas teorias opostas, todos nós ficamos tão confusos quanto Alice.

Charles Dodgson era professor de matemática. Por isso, não surpreende que suas histórias sejam repletas de alusões aritméticas e geométricas.

Alice recebe uma série de quebra-cabeças, desde a charada do Chapeleiro Louco até o jogo de croquet com a Rainha de Copas. Mas, à medida que ela tenta resolvê-los, eles invariavelmente se mostram de pouco propósito e não têm resposta.

Dodgson era uma pessoa lógica, mas o País das Maravilhas é um reino governado sem lógica. Talvez seja esta a mensagem final da sua exuberante criação: que o mundo é um lugar maluco, no qual as expectativas são frequentemente frustradas.

Em vez de lutar para encontrar seu significado, talvez seja melhor apenas desfrutar da viagem.




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Por: G1

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