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China: governo rastreia celulares para perseguir manifestantes contra Covid Zero

today4 de dezembro de 2022 14

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Depois de 20 minutos de espera no frio, ela surge de bicicleta, com o sorriso aberto e óculos vintage. A conversa aconteceu perto de um pequeno canal cercado de árvores, onde há poucas chances de ter câmeras de vigilância.

Mianhua, 35 anos, moradora de Pequim, participou de um protesto na noite de domingo (27) para exigir o fim das restrições sanitárias. É a primeira vez em mais de três décadas que a população vai às ruas da capital, principalmente mulheres, muito afetadas por três anos de política de Covid Zero.

Manifestante é imobilizado por policiais durante protesto em Xangai, na China, em 27 de novembro de 2022. — Foto: Associated Press



Foi também a primeira vez que policiais fardados, visivelmente sem diretivas, às vezes parecendo desnorteados, tentaram parar e cercar os manifestantes. O trabalho de repressão começou nas horas seguintes.

Na madrugada de segunda-feira, a mãe de Minhua recebeu a visita das autoridades para saber se sua filha havia participado do cortejo. “A polícia não me encontrou, então eles foram à casa da minha mãe às duas da manhã”, explicou a manifestante. “Eles perguntaram onde eu estava. Para que não a assediassem ainda mais, dei meu endereço e fui convocada. Eles sabiam de todos os meus movimentos; a que horas eu saí de casa no domingo, por quais ruas andei, e me forçaram a admitir que estava no protesto.”

A jovem acredita que a polícia a tenha seguido e a localizado através de seu próprio telefone. As autoridades realizaram inspeções aleatórias do conteúdo dos smartphones de usuários em várias cidades. “Manifestantes tiveram seus telefones confiscados no metrô, outros na rua”, explica o advogado Wang Shensheng.

“Alguns então desapareceram, como a estudante que começou os protestos com uma folha em branco em público”, continua. “Não temos mais notícias dela. Outros foram interrogados sob custódia policial por perturbação da ordem pública”, disse o advogado à RFI.

Como na Rússia, as folhas em branca empunhadas pelos manifestantes são o símbolo da censura. Os manifestantes são intimidados, reprimidos ou simplesmente desaparecem.

Manifestante segurando um pedaço de papel em branco na China — Foto: Tyrone Siu/Reuters

A manifestante de Pequim conta que havia um policial “bom” e um “malvado” na delegacia. O policial simpático “reduziu” seu tempo de presença em protesto, enquanto o outro, “mais durão”, se recusou a fechar a janela durante o interrogatório, apesar do ar gelado do inverno de Pequim. “Ele queria que eu dissesse que os estrangeiros nos incitaram a manifestar. Também me perguntaram se recebi dinheiro do exterior, o que obviamente não é o caso”. E para poder ser liberada, Mianhua teve de assinar uma carta na qual se comprometia a não participar de “reuniões ilegais”.

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Mas as ameaças não desmotivaram Minhua. Para ela, assim como para outras manifestantes, o que aconteceu no último fim de semana passado marca uma virada. Questionada sobre a presença massiva de jovens mulheres à frente das manifestações, ela cita uma geração que sente “asfixiada” e que sofreu muito com os lockdowns. “Pequim é uma cidade privilegiada comparada a muitas cidades da China, mas não é por isso que estamos indiferentes ao que está acontecendo longe daqui”, diz.

A vigilância e pressão policial obrigam os manifestantes a serem cuidadosos. “Estou um pouco assustada agora, porque sei que fui fichada. Toda vez que vejo um carro de polícia, fico nervosa. Quando saio de casa, apago todos os aplicativos suspeitos do meu celular. Em seguida, eu tiro o chip do meu smartphone, para evitar que eles me sigam”, conta Minhua.

Além do receio com aplicativos de celular e tecnologia de reconhecimento facial, há também o medo de ser pego com aplicativos estrangeiros como Instagram ou serviços de mensagens criptografadas como Telegram e Signal, acessíveis apenas com VPN na China. “A polícia identificou alguns manifestantes e, no dia seguinte, os aplicativos de seus telefones foram hackeados, ou pelo menos houve tentativas de conexão”, disse o advogado Wang.




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Por: G1

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