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Como o Reino Unido enviou de volta ao Caribe centenas de migrantes com distúrbios mentais

today27 de junho de 2023 10

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Documentos antes classificados como confidenciais revelaram que pelo menos 411 pessoas foram enviadas de volta entre os anos 1950 e o início dos anos 1970, em um programa que deveria ter sido voluntário. Famílias afirmam que foram separadas e algumas nunca foram reunidas novamente.

O governo britânico afirma que está comprometido com a reparação das injustiças daquela época.

Segundo um porta-voz, “reconhecemos o ativismo das famílias que buscam a reparação da injustiça histórica enfrentada pelos seus entes queridos e permanecemos totalmente comprometidos com a correção dos erros enfrentados pelas pessoas da geração Windrush”.



Os fatos revelados referem-se ao escândalo de Windrush, que causou a deportação indevida de centenas de cidadãos da Commonwealth — a Comunidade Britânica de Nações.

Muitos deles vieram da região do Caribe e as revelações desencadearam pedidos de investigação pública sobre aquela política de repatriação.

Os repatriados eram parte de um grupo de milhares de pessoas que se mudaram de colônias britânicas para o Reino Unido nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

Elas ficaram conhecidas como a geração Windrush — nome de um dos primeiros navios a chegar ao Reino Unido trazendo essas pessoas, o HMT Empire Windrush. O ano de 2023 marca o 75º aniversário das primeiras chegadas.

A BBC News encontrou, nos Arquivos Nacionais do Reino Unido, documentos que revelam a escala dessa política.

Especialistas agora acreditam que o esquema pode ter sido ilegal, já que nem todos os pacientes tinham a capacidade mental necessária para concordar em voltar para o seu local de origem.

O psiquiatra Aggrey Burke afirma que a decisão de devolver pessoas com problemas mentais para a Jamaica não foi tomada no melhor interesse dos pacientes — Foto: BBC

‘Uma grande mágoa, imensa’

Joseph, pai de June Armatrading, foi um dos deportados.

Como outras pessoas do Caribe que viajaram para o Reino Unido após a guerra, Joseph era cidadão britânico. Ele nasceu em St. Kitts, colônia do Reino Unido que, até hoje, é administrada diretamente por Londres, e tinha passaporte britânico.

Joseph chegou ao Reino Unido em 1954 e morou em Nottingham, na Inglaterra, com sua esposa e suas cinco filhas. Mas ele começou ter problemas de saúde mental na década de 1960.

Joseph Armatrading foi diagnosticado com psicose paranoide e, em 1966, foi devolvido para St. Kitts. Ele nunca mais viu sua família.

June tem agora 65 anos. Ela conta que sua mãe disse a ela e às suas irmãs que o pai as havia “abandonado”.

Ela cresceu acreditando que seu pai não as amava, o que causou “uma grande mágoa, imensa”.

Mas a BBC teve acesso a uma carta escrita por Joseph Armatrading, pedindo para voltar ao Reino Unido e reunir-se à sua família. Pouco se sabe sobre o que aconteceu com ele depois do pedido.

Em cartas que, antes, eram confidenciais, autoridades do governo admitiam que o procedimento de repatriação de Joseph Armatrading “não havia sido correto”. Os documentos revelam que seu passaporte foi confiscado, de forma errônea.

Quando mostramos as cartas para June Armatrading, ela ficou em choque.

“Estou perturbada. É perturbador, é realmente perturbador… como eles se atreveram?”, questiona ela. “Este era um homem vulnerável. Você precisa cuidar das suas pessoas vulneráveis e eles não fizeram. Eles o deixaram — eles o abandonaram.”

June Armatrading soube pela mãe que seu pai teria abandonado a família. Agora, ela acredita que foi o Estado britânico que o ‘abandonou’ — Foto: BBC

Marcia Fenton ingressou na assistência social quando ainda era bebê. Ela havia sido separada da mãe, Sylvia Calvert, que foi enviada de volta para a Jamaica no final dos anos 1960. Seu pai não conseguiu cuidar dela sozinho.

Mãe e filha somente se reuniram muitos anos depois, na Jamaica. Sylvia havia recebido alta naquele momento, mas ainda não estava bem de saúde. Ela morreu em 2007.

Marcia ainda quer descobrir o que aconteceu com sua mãe quando ela chegou de volta à Jamaica. Tudo o que ela sabe é que ela passou algum tempo no Hospital Bellevue, na capital jamaicana, Kingston.

“Sua devolução para a Jamaica roubou a minha mãe”, declarou ela à BBC.

Ela quer uma investigação sobre como e por que pessoas como a sua mãe foram enviadas de volta para os seus lugares de origem. “Ninguém deveria ter sido repatriado se tinha problemas mentais” afirma ela. “O governo britânico deveria pedir desculpas.”

Marcia Fenton afirma que ‘roubaram’ sua mãe quando ela foi separada e enviada de volta para a Jamaica — Foto: BBC

Como funcionou a política?

A análise dos documentos dos Arquivos Nacionais conduzida pela BBC demonstra que 411 pacientes com doenças crônicas e mentais foram enviados de volta para países da Comunidade Britânica de Nações no Caribe entre 1958 e 1970.

Mas os departamentos governamentais aparentemente não mantêm registros abrangentes e, por isso, o número pode ser maior.

O Conselho Nacional de Assistência — que deu origem ao Departamento de Trabalho e Aposentadorias — costumava ficar a cargo do processo.

Cartas do governo e documentos políticos dos arquivos indicam que cada paciente deveria ter “expressado o desejo de retornar”. Eles sugerem que a repatriação só deveria ocorrer se “beneficiasse” os pacientes e se houvesse “disposições apropriadas” para eles quando retornassem.

Mas não se sabe ao certo se pacientes vulneráveis poderiam tomar essas decisões e se essas disposições apropriadas realmente existiam. Um documento acadêmico afirma que a assistência à saúde mental no Caribe naquela época carecia de “pessoal treinado e recursos”.

As autoridades do governo britânico estavam preocupadas em não dar a impressão de que estavam “tentando ativamente descarregar… os cidadãos da Comunidade Britânica que tinham pouca utilidade para o Reino Unido”. Mas parece que as autoridades jamaicanas não ficaram convencidas.

Em 1963, o Escritório do Alto Comissariado da Jamaica escreveu para o governo britânico queixando-se de que os hospitais do Reino Unido estavam solicitando repatriações, “em grande parte, com base na pressão sobre os leitos ou outros serviços hospitalares”.

A geração Windrush, composta por “Cidadãos do Reino Unido e das Colônias”, tinha direito ao mesmo status legal de qualquer pessoa nascida no Reino Unido.

Mas o professor James Hampshire, da Universidade de Sussex, na Inglaterra, afirma que, desde a primeira chegada de cidadãos britânicos do Caribe, houve o desejo de restringir o seu número, por parte dos governos dos dois partidos, trabalhista e conservador.

“A intenção e o efeito da legislação aprovada naquele período [anos 1960 e 70] era de restringir alguns tipos de imigração e não outros”, afirma ele. “Destinava-se principalmente ao que era chamado na época de ‘imigração de cor’.”

O professor Kris Gledhill, que foi juiz de processos legais sobre saúde mental, afirma que a legalidade da prática de repatriação de pacientes de doenças mentais é discutível.

Para ele, “o que você está fazendo é confiar em uma ‘escolha voluntária’ que, se você fosse determinar corretamente a capacidade da pessoa de fazer aquela escolha, você diria que eles não têm aquela capacidade”.

A advogada de imigração Jacqueline McKenzie, do escritório de advocacia londrino Leigh Day, representou centenas de vítimas do escândalo de Windrush em 2018. Sobre a repatriação de pessoas doentes e com problemas de saúde mental, ela afirma que “é absolutamente chocante que isso estivesse acontecendo”.

“Vidas foram destruídas”, afirma ela. “O Estado agora deve aos descendentes daquelas pessoas o fornecimento de respostas e de algum tipo de compensação.”

Os médicos que pesquisaram as consequências aos pacientes devolvidos ao Caribe concluíram que o impacto foi negativo e que muitos queriam voltar para o Reino Unido.

No início dos anos 1970, Aggrey Burke — o primeiro psiquiatra clínico negro do NHS, o serviço de saúde pública britânico — concluiu que o envio de pacientes com doenças mentais graves do Reino Unido para o Hospital Bellevue, na Jamaica, não foi realizado no seu melhor interesse.

Ele agora afirma que existia falta de curiosidade sobre o que aconteceu com os pacientes. “Ninguém parecia ter interesse no ‘e agora?’, na próxima etapa”, segundo Burke.

Outro psiquiatra dos anos 1970, George Mahy, de Barbados, analisou os casos de cerca de 200 pacientes com doenças psiquiátricas originalmente da região do Caribe.

Ele descobriu que cerca de 52% deles haviam sido aconselhados a voltar do Reino Unido e, em muitos casos, receberam auxílio financeiro do governo britânico. Segundo Mahy, muitos desses pacientes tinham fortes arrependimentos e queriam voltar para a Inglaterra.

Em resposta à BBC, um porta-voz do governo afirmou: “O bem-estar dos pacientes hospitalares detidos com base na Lei de Saúde Mental é fundamental. A lei foi alterada desde a época daqueles casos — agora, um tribunal independente precisa concordar que a eventual repatriação seria feita no melhor interesse do paciente.”

Não existem fotos de Joseph Armatrading. Na sua casa em Nottingham, sua filha June conta que se lembra de ter visto uma com ela e suas irmãs, mas, com o passar dos anos, ela foi perdida.

Mas June está decidida a fazer com que a história do seu pai não seja esquecida.

“O governo ainda precisa responder às perguntas sobre o que aconteceu com meu pai, o que aconteceu com Joseph Armatrading?”, questiona ela. “Eles nos deixaram perdidos.”




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Por: G1

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