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Como tática da pandemia pode ajudar UE a enviar mais munição para Ucrânia

today22 de fevereiro de 2023 6

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Ou, mais precisamente, o que o governo estoniano pede a Bruxelas é que reserve 4 bilhões de euros (cerca de 22 bilhões de reais) de financiamento conjunto da União Europeia (UE) para garantir 1 milhão de cartuchos de munição a serem entregues nos próximos seis meses.

Em um documento distribuído entre os governos do bloco e o qual a DW teve acesso, a Estônia argumenta que uma injeção financeira de tais proporções poderia aumentar em sete vezes a capacidade da indústria bélica europeia. Além disso, afirma que isso agilizaria a entrega de quantidade significativa de munição no período de seis meses, em vez dos quatro anos estimados nas condições atuais.

Disparos superam capacidade produtiva



A capacidade máxima de produção combinada dos fabricantes europeus de munição não ultrapassa 230 mil cartuchos por ano atualmente, segundo o documento estoniano. É quase essa a quantidade que a Ucrânia usa num único mês à medida que avança a guerra de agressão da Rússia.

Em entrevista à DW, o ministro da Defesa da Estônia, Hanno Pevkur, disse que seu governo já obteve um retorno positivo sobre a proposta, apontada por ele como uma vitória tanto para e militares e indústrias europeus e ucranianos — e, conforme espera, uma derrota para a Rússia.

Para Hanno Pevkur, a Comissão Europeia deve se encarregar da aquisição conjunta de munição — Foto: DW

“Um ponto é 1 milhão de cartuchos para a Ucrânia“, explicou Pevkur.

“Mas o outro é que haverá um projeto sustentável para os países europeus, para os militares europeus, para também adquirirem muito mais munição no futuro. Quando a indústria aumenta as capacidades de produção, também pode manter essa capacidade por mais tempo.”

Fundo europeu como atalho

Recorrer ao orçamento geral do bloco para financiar tais esforços não é algo permitido, já que os fundos da UE não podem ser aplicados em empreendimentos militares. No entanto, esta limitação já foi contornada com o fundo de ajuda militar da UE, o chamado “Mecanismo Europeu de Apoio à Paz” (MEAP), um fundo “fora do orçamento”, atualmente no valor de 5,5 bilhões de euros, com o qual os países-membros colaboram de acordo com seu Produto Interno Bruto (PIB). Recentemente, ele tem sido usado para reembolsar governos, por exemplo, por suas contribuições militares à Ucrânia. O que a Estônia sugere agora é que esse mecanismo de ajuda seja usado para financiar sua ideia.

Segundo Pevkur, a Estônia não se importa como tais gastos serão financiados ou se as compras feitas serão de munição nova ou já existente. “O importante é que haverá uma decisão política de que iremos fazê-lo”, enfatizou o ministro da Defesa estoniano. “Não temos tempo a perder.”

Tanto o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, quanto o chefe de política externa da UE, Josep Borrell, encorajaram os governos que integram suas organizações a enviarem à Ucrânia tudo o que puderem. E isso, mesmo que os suprimentos nacionais caiam temporariamente abaixo das diretrizes de estoque da Otan previamente acordadas, com o entendimento de que eles serão repostos mais tarde, quando a escassez diminuir. Os chefes de aquisições dos Aliados se reuniram várias vezes na sede da aliança militar em Bruxelas para discutir como acelerar os processos de produção, deliberadamente reduzidos por décadas.

Indústria espera encomendas

Mas mesmo os esforços para acelerar esse processo parecem inadequados para tal tarefa. Três dias antes do primeiro aniversário do início da guerra, Stoltenberg, Borrell e o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, encontraram-se pela primeira vez. Após as negociações, o grupo anunciou que haveria uma reunião conjunta de especialistas em aquisições da Otan, da UE e da Ucrânia, organizada, conforme Stoltenberg, “para ver o que mais podemos fazer juntos para garantir que a Ucrânia tenha as armas de que precisa”. A aliança também ajudará a Ucrânia a estabelecer seu próprio sistema de compras que seja “eficaz, transparente e responsável”.

Mas fontes da indústria dizem que, apesar de toda a discussão, o número de contratos que suas empresas têm recebido aumentou apenas ligeiramente no ano passado. Falando na sede da Otan nesta terça-feira (21/02), Kuleba confirmou ter ouvido comentários semelhantes.

“Depois de conversar com representantes [das] indústrias de defesa, essa lacuna [entre comprador e produtor] ficou ainda mais evidente”, afirmou.

“Mas isso não quer dizer que não haja vontade política da parte dos compradores. Faltam é procedimentos e entendimento de como tudo deve funcionar, e é por isso que estamos nos reunindo com as indústrias de defesa. É por isso que estamos estabelecendo o mecanismo de coordenação para reunir a todos.”

Mas até que isso aconteça, os fabricantes dizem que não podem financiar investimentos baseados em especulações. “Se os governos querem ver mais capacidade de produção, precisamos ver os pedidos chegando”, disse um representante de uma fabricante de munição que preferiu permanecer anônimo por questões políticas. “Acho que aqui há um risco muito real de algumas dessas empresas realmente irem à falência. Quando você aumenta maciçamente a produção, faz investimentos maciços, emprega mais pessoas, compra matérias-primas, tudo isso, e então começa a produzir e em um ou dois anos, toda a demanda cai de novo. O que você faz então como empresa?”

Comissão considera compras antecipadas

Para quem acha que já ouviu isso em algum lugar antes, não está enganado. Os mesmos argumentos foram levantados pela indústria farmacêutica no início da pandemia de coronavírus, quando solicitada a aumentar drasticamente a produção de vacinas. Para a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, algumas das lições aprendidas na ocasião podem ser aplicadas à aquisição conjunta de munição.

O chefe da Otan, Jens Stoltenberg, com o ministro do Exterior da Ucrânia, Dmytro Kuleba (esq.), e pelo chefe de política externa da UE, Josep Borrell — Foto: NATO

“No nível europeu, financiamos acordos de compra antecipada [de vacinas]. Poderíamos fazer o mesmo com a indústria de defesa europeia para que eles possam construir suas linhas de produção de forma mais rápida e ampla e assim acelerar a produção”, disse ela à DW nos bastidores da Conferência de Segurança de Munique na semana passada.

“Temos as instituições para isso. Não precisamos criar algo novo, mas devemos usar o Mecanismo Europeu de Apoio à Paz, que já possui um dispositivo de coordenação com a Ucrânia.”

Plano francês apoiaria empresas da UE

Há também outro plano em cogitação, este modelado em um programa de assistência à Ucrânia que já vem sendo usado na França. Nathalie Loiseau, presidente do subcomitê de Segurança e Defesa do Parlamento Europeu, e o legislador francês Benjamin Haddad, presidente do comitê de amizade França-Ucrânia do Parlamento, recomendam o estabelecimento de um pacote de 1 bilhão de euros, com os Estados-membros contribuindo com base em seus PIBs. A Ucrânia poderia usar esse dinheiro para comprar o que precisasse dos fabricantes europeus, colocando assim o dinheiro de volta na indústria da UE.

Para Haddad, a comparação com a campanha da vacina é pertinente. “Nos últimos anos, percebemos que quando colocamos os recursos, o capital e a vontade política para fazer algo, podemos realmente fabricar, produzir e distribuir muito mais rapidamente do que esperávamos”, disse ele, observando que, inicialmente, previa-se que levaria anos para desenvolver e distribuir uma vacina, mas isso foi feito em menos de um ano.

Em entrevista à DW, Haddad disse que não vê os diversos planos na mesa como excludentes. “Todos eles são complementares”, avaliou.

“Mas acho que é hora de tomarmos impulso. Não podemos demorar ou hesitar. Cada dia que adiamos nosso apoio militar a Ucrânia é um dia para a Rússia“.

A Estônia espera agora ver sua proposta aprovada na próxima cúpula da UE marcada para o final de março, se não antes, de acordo com o ministro da Defesa, Pevkur. “Meu prazo é amanhã”, diz ele. “Mas para a Ucrânia, foi ontem.”




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Por: G1

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