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Genocídio em Ruanda completa 30 anos: ‘Chorávamos e pedíamos perdão’, diz sobrevivente; entenda como foi massacre com 800 mil mortos

today13 de junho de 2024 10

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Nesta quarta-feira (12), em Brasília, o sobrevivente Christian Niyoyita falou sobre os “dias de terror” no país. À época, ele tinha 6 anos de idade.

“Eu vi minha tia no chão sendo cortada em pedaços com machetes [espécie de faca]. Chorávamos e pedíamos perdão. O sangue corria por toda parte”, diz Christian.

O embaixador de Ruanda no Brasil, Lawrence Manzi, diz que o atual desafio é lidar com a negação do genocídio e promover a educação sobre o assunto, especialmente para a geração mais jovem.



“Ainda temos atrasos no estabelecimento pleno da justiça, com muitos fugitivos do genocídio escondidos ou protegidos nas capitais ocidentais”, conta o embaixador.

A conscientização sobre o massacre de 1994, segundo Manzi, é um dos objetivos da exposição “Peace is our choice: A paz é nossa escolha”, que acontece em Brasília, até sexta-feira (14). A visitação, na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) é gratuita (veja detalhes mais abaixo).

Nesta reportagem você vai ver:

De uma maneira simplificada, o genocídio é um crime que tem o propósito de exterminar um grupo específico. Os assassinatos de 1994 em Ruanda são classificados como genocídio porque o objetivo era exterminar o povo Tutsi.

Outro exemplo de genocídio é o Holocausto – assassinato de milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Mulher desaba aos prantos, com o bebê nas costas, após fugir de Ruanda em 1994 — Foto: Reuters

O massacre em Ruanda marcou a tentativa de extermínio do povo Tutsi por extremistas do povo Hutu.

O doutor em educação Saulo Pequeno, professor do UniCEUB, explica que historicamente, as etnias Hutu e Tutsi se respeitavam enquanto civilizações, compartilhando convivência territorial e contextos sociais.

De acordo com o Kwibuka (em português “Lembrar”), organização do governo de Ruanda dedicada à memória do genocídio, entre 1897 e 1962, os países colonizadores Alemanha e Bélgica introduziram ideologias de ódio e divisão das etnias na região. Para o professor Saulo Pequeno, “essa estratégia é essencial para compreender o genocídio”.

“O domínio colonial favoreceu a minoria étnica Tutsi (15%) em cargos e funções administrativas, e passou a desatender, invisibilizar e restringir direitos básicos da maioria Hutu (84%)”, explica o professor.

Ao longo dos anos, a tensão entre os povos foi intensificada. A partir da independência de Ruanda, a maioria Hutu fez valer seu volume e chegou ao poder em 1962.

O professor Saulo conta que a etnia Hutu, acumulando décadas de ressentimento, e a produção da perspectiva de que uma etnia deveria ser superior e inimiga da outra, reproduziu o discurso colonial, e apontou a minoria Tutsi como a causa de todas as crises e problemas.

Nos anos 1990, uma guerra civil marcou a tentativa dos Tutsis de se oporem ao governo do então presidente Juvenal Habyarimana, de etnia Hutu, que intensificou a repressão e limitação de direitos da minoria. Saulo Pequeno diz que essa guerra foi marcada pelo fortíssimo armamento de oficiais Hutus e de milícias clandestinas, com fornecimento de armas pela França.

Extremistas Hutu faziam discursos pelo extermínio dos Tutsis e dos Hutu “moderados”, ideias que foram reforçadas pela mídia e propagandas da época. Segundo o Kwibuka, diversos massacres contra os Tutsis aconteceram entre 1990 e 1994.

O resultado desses fatos foi o planejamento do extermínio dos Tutsis, levado a cabo pelo regime do Movimento Revolucionário Nacional para o Desenvolvimento (MRND), do presidente Juvenal Habyarimana. O estopim para o início do genocídio foi quando o avião que transportava o presidente Juvenal Habyarimana foi derrubado, em 6 de abril daquele ano.

Fevereiro de 2004 – Crânios de vítimas do genocídio são expostos no memorial da igreja de Ntarama, em Ruanda — Foto: Gianluigi Guercia/AFP

Poucas horas depois da morte de Habyarimana, milhares de hutus iniciaram assassinatos em massa, para exterminar os Tutsis do país.

Em vídeo do governo de Ruanda sobre os 30 anos do genocídio, a senadora Marie Rose Mureshyankwano conta que milícias andavam armadas com porretes e machetes, cantando músicas de ódio e caçando Tutsis.

Além dos assassinatos, cerca de 250 mil pessoas foram estupradas e abusadas sexualmente. As mortes seguiram de 7 de abril até 15 de julho, quando a Frente Patriótica do Ruanda (FPR) interrompeu o massacre. Foram 800 mil pessoas assassinadas em 100 dias. Segundo o governo de Ruanda, o número de mortos passa de 1 milhão.

Milhares de crianças fugiram de Ruanda após genocídio — Foto: Getty Images/ BBC

Paul Kagame, que comandou o grupo apaziguador, está em seu terceiro mandato como presidente de Ruanda. O professor Saulo Pequeno diz que muito da população Tutsi que sobreviveu emigrou para outros locais e que o Tribunal Penal Internacional condenou e prendeu mais de 70% dos membros do governo ruandês.

O embaixador de Ruanda no Brasil, Lawrence Manzi, diz que o genocídio causou traumas, doenças, questões de justiça, elevado número de pessoas nas prisões e impacto na economia. Mas que o atual desafio é vencer o negacionismo sobre o genocídio que, segundo ele, ameaça inviabilizar o processo de recuperação do povo ruandês.

O relato de um sobrevivente Tutsi

Christian Niyoyita, sobrevivente Tutsi do genocídio em Ruanda. — Foto: Reprodução/CLDF

Em solenidade na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), nesta quarta-feira (12), o empresário e engenheiro tutsi Christian Niyoyita, de 36 anos, lembrou que tinha apenas 6 anos quando o genocídio começou.

“Minha irmã e eu estávamos há 50 km de Kigali, capital de Ruanda, na casa de nossa tia materna. Tínhamos ido passar as férias com ela e o genocídio começou alguns dias antes de podermos voltar para casa”, conta Christian Niyoyita.

O empresário diz que quando os massacres começaram, em 7 de abril, disseram para ele que “as coisas iam muito, muito mal” e que o presidente havia morrido.

“Algumas horas depois, o marido da minha tia nos diz que um vizinho, amigo dele, acabara de ser morto a tiros em casa. Foi aí que comecei a ter muito medo, porque vi os adultos chorando. A tarde começamos a ouvir muitos tiros, que não paravam, ficamos em casa sem sair até a noite do dia 10 de abril”, lembra Niyoyita.

Na noite do dia 10 de abril, o tio de Christian soube que a família seria morta no dia seguinte. As igrejas estavam cheias de refugiados e eles acabaram se escondendo em uma escola.

Mas um primo optou por fugir para o mato com um amigo. No dia 13 de abril a família soube que o jovem havia sido morto a tiros. O tio de Christian e outros tutsis saíram a noite para buscar o corpo do rapaz, já que “os assassinos matavam de dia e descansavam a noite”.

“Seu corpo foi trazido pra escola e eu, com seis anos, foi a primeira vez que vi uma pessoa morta. Todo mundo chorava”, lembra Christian Niyoyita.

O hoje empresário diz que naquele dia chorou muito com sua irmã, e que eles não tinha informações sobre como estavam os pais. Ele lembra que viu pessoas chegando na escola sem os braços e machucadas pelos extremistas. “Eu lembro do cheiro de sangue”, fala Christian.

No dia 16 de abril de 1994, milicianos e soldados invadiram a escola, que já abrigava cerca de mil pessoas. Christian se escondeu embaixo de uma cama enquanto eles jogaram granadas e atiraram.

“As pessoas choravam para não serem mortas com machetes, mas sim baleadas. Ser morto com um tiro era um luxo”.

Uma vizinha do tio de Christian conseguiu proteção de um dos assassinos para sair do local, levando o menino com ela. Quando chegaram a uma barreira de milicianos, o soldado disse que eles eram seus parentes e, depois de passar pelo local, os levou para um convento de freiras.

“Eu não parava de chorar porque meu pai ia me bater porque eu perdi a minha irmã”, lembra Christian Niyoyita.

Depois do convento, buscaram refúgio em um hospital, onde Christian acabou reencontrando a irmã e três primos. No local, água com sal era o único “alimento”.

No dia 21 de abril, milicianos que pretendiam matar os Tutsis escondidos no hospital foram surpreendidos pela Frente Patriótica do Ruanda (FPR), que lutava pelo fim do genocídio. Libertados pela FPR, Christian, sua irmã mais velha e seus primos foram levados para um campo de refugiados.

Ele se reuniu com a irmã mais nova e a mãe apenas em agosto, quando a mãe contou que o pai havia sido assassinado a tiros em 17 de abril. A vontade de reconstruir a vida e o país incentivaram Christian a estudar engenharia, profissão que exercita atualmente.

Como visitar a exposição em Brasília

Exposição

Exposição “Peace is our choice: A paz é nossa escolha” em Brasília.

A exposição “Peace is our choice: A paz é nossa escolha” traz em imagens e textos, em inglês e português, informações sobre o genocídio e seus desdobramentos. A visita é gratuita e pode ser feita sem agendamento na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).

“Esta exposição mostra que há esperança mesmo depois de passar por um crime tão horrendo”, diz o embaixador de Ruanda Lawrence Manzi.

Na exposição, os visitantes conhecem a história de Xavier Neymeye, que tinha 30 anos na época do genocídio. Influenciado pela propaganda de ódio contra os Tutsis, Xavier se juntou a 15 jovens que coletaram ferramentas agrícolas como armas. Eles encontraram uma mulher Tutsi e duas de suas filhas e as espancaram até a morte. Xavier se declarou culpado e foi preso.

Além de Xavier Neymeye, os visitantes da exposição também vão conhecer a história da sobrevivente Laurence Niyonangira, mulher que perdeu 37 de seus parentes no genocídio.

Peace is our choice: A paz é nossa escolha

  • 📅 Quando: até sexta-feira (14)
  • 📍 Local: Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF)
  • 🎫 Ingressos: de graça e sem agendamento

Foto da exposição “Peace is our choice: A paz é nossa escolha”. — Foto: Marcella Rodrigues/g1

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