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‘Não suporto saber que tenho seu sangue’: mulher fala pela 1ª vez sobre pai pedófilo

today28 de fevereiro de 2023 13

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“Não suporto a ideia de que tenho seu sangue”, afirma Jenny Pearson sobre seu pai, Hamish Dawson. “Se eu pudesse fazer alguma forma de transfusão, eu faria.”

Pearson já sabia desde criança, nos anos 1970, que seu pai era abusivo, física e emocionalmente. Mas foi apenas no último verão escocês que ela soube dos detalhes dos abusos sexuais que ele cometia com seus alunos quando era professor em uma importante escola particular.

Na maior parte da infância, Pearson morou com seus pais em alojamentos escolares de propriedade da Academia de Edimburgo, na Escócia, onde seu pai trabalhava. Ela sabia, na época, que o comportamento do pai era estranho, mas descobriu apenas recentemente o verdadeiro horror das suas ações.



Uma de suas vítimas foi o apresentador de rádio Nicky Campbell, da BBC, que revelou o abuso sexual que sofreu em 2022, no seu podcast Different.

Foi a primeira vez que Campbell, com 61 anos de idade, falou sobre o abuso sofrido quando era aluno da escola, quase 50 anos atrás. Ele indicou Hamish Dawson como o professor das “mãos bobas” que havia abusado dele e de seus colegas.

As recordações da sua infância traumática inundaram a mente de Pearson enquanto ela ouvia Campbell relembrar como ele foi abusado. Ela escreveu imediatamente para o apresentador por email, pedindo uma oportunidade de falar com ele e com outras vítimas.

Hamish Dawson morreu em 2009 e sua filha Jenny afastou-se dele muitos anos antes.

No episódio mais recente do podcast, ela conta a Campbell que sua primeira reação foi de raiva, pois seu pai estava morto e não poderia ouvir o testemunho de suas vítimas. Ela conta que não tinha raiva do que Campbell havia dito e ouvir a verdade vir à tona foi a tremenda comprovação do terrível abuso que ela também sofreu.

Na conversa, Campbell conta a Pearson que, quando ele tinha 12 ou 13 anos de idade, o pai dela chamava os meninos para a frente da sala, colocava-os sobre o seu joelho e acariciava o pênis dos garotos.

Desde que Campbell falou pela primeira vez sobre o abuso que ele presenciou e sofreu na escola particular, quase 100 outras vítimas da Academia de Edimburgo se apresentaram.

Ficou claro que os abusos de Dawson iam muito além das “mãos bobas”.

Um dos sobreviventes contou a Campbell que Dawson abusava dos meninos nos dormitórios, retirando as roupas da sua vítima escolhida em frente aos colegas e amarrando-os às camas com gravatas escolares, antes de abusar deles.

Horas depois de ouvir o programa original, Jenny Pearson, que trabalha como terapeuta, entrou em contato com Campbell. “Eu quis fazer contato porque acredito na verdade e não suporto segredos e conluios”, ela disse.

Pearson afirma que teve conversas extraordinárias.

“Provavelmente parece bizarro dizer isso, mas elas foram maravilhosas”, ela conta. “Falamos o mesmo idioma de pontos de vista diferentes.”

Jenny Pearson adolescente, no quintal da Mackenzie House, na Academia de Edimburgo. — Foto: Arquivo pessoal via BBC

Pearson agora tem 64 anos de idade. Ela afirma que as conversas com os sobreviventes dos abusos despertaram lembranças da sua própria infância, algumas delas muito visuais.

Sua família mudou-se para os alojamentos estudantis da Academia de Edimburgo quando ela tinha sete anos de idade.

Ela passou sete anos na Dundas House, da escola particular, e mais cinco na Mackenzie House, perto dali, até sair de casa com 18 anos e nunca mais voltar.

Os aposentos onde a família morava ficavam sob o mesmo teto dos dormitórios onde dormiam os estudantes. Pearson afirma que seu pai saía pela porta de emergência todas as noites e ela só o via de novo no dia seguinte.

Ela conta que, durante sua adolescência, pouco via seu pai. Ela sempre ouvia: “ele está com os meninos”.

“Posso dizer de coração que eu não sentia a falta dele”, ela conta. Mas Pearson relembra que se ressentia por ser deixada sozinha com sua mãe, que sofria de doença mental e, muitas vezes, comportava-se como uma “bruxa gritando”.

“Meus pais eram uma abominação”, segundo ela.

Quando morava no alojamento estudantil, Pearson costumava odiar os meninos que riam e lançavam olhares maliciosos quando ela ia ao banheiro.

“Sempre me senti muito exposta e vulnerável”, ela conta. “Eu me sentia invadida, eu me sentia violada, eu me sentia menosprezada. Eu sabia que havia algo de sexual, era assustador e não havia um adulto a quem recorrer com segurança.”

Mas Pearson agora percebe que os meninos deviam odiar a ela e a tudo o que tivesse a ver com os Dawsons, devido ao comportamento do seu pai.

“Eu não sabia daquilo na época”, ela conta. “Era apenas uma menina pequena.”

Durante a conversa, Campbell pergunta a Pearson se foi um choque saber que seu pai abusava física e sexualmente das crianças.

“Eu não sabia a extensão”, respondeu ela. “Não foi um choque completo. Eu sempre soube que ele costumava bater nos meninos porque ele costumava andar com o chinelo que ele usava. Agora sei que ele usava outras coisas.”

Campbell pergunta como é dizer “meu pai foi pedófilo”.

“É terrível”, responde ela. “É repugnante. É vergonhoso. É nojento. Passei toda a minha vida profissional lutando pelos direitos das crianças e dos jovens. Acho que somos totalmente opostos e me sinto feliz por isso.”

Hamish Dawson saiu de repente da Academia de Edimburgo e antecipou sua aposentadoria com 56 anos de idade. Pearson afirma que aquilo nunca fez sentido para ela.

“Achei que ele iria morrer ali”, ela conta. “Parecia que ele havia se casado com a academia.”

Nicky Campbell, da BBC, estudou na Academia de Edimburgo, na Escócia, nos anos 1970. — Foto: Arquivo pessoal via BBC

Segundo Nicky Campbell, os rumores na época foram que tinham encontrado pornografia na sua pasta e ele foi forçado a pedir demissão.

Depois de sair da escola, Jenny Pearson foi estudar no exterior e viu seus pais o mínimo possível. Em resposta, seu pai escreveu a ela uma carta na qual pediu formalmente que ela nunca mais entrasse em contato com ele.

A Academia de Edimburgo emitiu uma nota afirmando que, “como qualquer pessoa consciente, ficamos horrorizados com os relatos de abusos do passado”.

“As escolas devem ser lugares seguros para as crianças e encorajamos qualquer pessoa que tenha sido vítima de abuso a entrar em contato com a polícia”, prossegue a nota.

“Continuamos trabalhando em conjunto com autoridades, como a polícia da Escócia e a Scottish Child Abuse Inquiry, durante a investigação sobre o que aconteceu. Elas estão conduzindo devidamente a determinação dos fatos e de quais as ações que podem precisar ser tomadas. Respeitaremos este processo, sem comentar seu trabalho que está em andamento.”

“O bem-estar das crianças é a base do nosso etos escolar atualmente e temos medidas sólidas em vigor para proteger todos os estudantes confiados aos nossos cuidados”, conclui a nota.




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Por: G1

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