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‘Nearshoring’: O boom industrial que o México vive como alternativa ao ‘made in China’

today25 de fevereiro de 2023 20

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Depois de analisar se era um bom negócio, a empresa americana decidiu cruzar a fronteira.

Hoje, ela possui duas fábricas inauguradas recentemente em Saltillo, no Estado de Coahuila, no nordeste mexicano.

A empresa americana está ligada ao gigante conglomerado chinês Hisun, que opera em todo o mundo.



Dada essa ligação com a multinacional, a Hisun U.S.A. acabou transferindo para o México a fabricação de alguns dos produtos que antes vinham da Ásia.

“A ideia é que a maior parte do mercado americano possa ser abastecida pelo México”, diz Marco Villarreal, diretor-geral da empresa no país latino-americano.

“Fabricamos do zero os veículos da categoria SUV no México e apenas os componentes são importados da Ásia”, afirma.

O executivo, que conhece bem o setor depois de ter trabalhado por vários anos em empresas como General Motors e Caterpillar, acredita que a tendência de realocação de fábricas de outros mercados para o México continuará crescendo.

“As oportunidades estão aqui, e você precisa aproveitá-las”, disse ele à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

A Hisun é uma das empresas que migraram para o México recentemente — Foto: BBC

A Hisun é uma das grandes empresas que optaram pelo “nearshoring”, expressão em inglês usada para se referir à estratégia das empresas de levar a produção para mais próximo dos mercados onde os produtos serão vendidos.

Se décadas atrás a tendência era do “offshoring” (levar fábricas para países distantes, em especial a China, para reduzir custos), agora a tendência é concentrar as unidades mais perto das regiões consumidoras.

Nesse caso, as empresas globais – e principalmente as asiáticas – têm buscado uma melhor porta de entrada para o maior mercado do mundo: os Estados Unidos.

E a chave dessa porta está nas mãos do México.

“A grande maioria das empresas está adicionando novas linhas de produção no México para diversificar sua produção fora da Ásia”, diz Carlos Capistran, economista do Bank of America.

A produção industrial no Norte e Centro do país cresceu, o emprego nessas regiões está bem acima dos níveis pré-pandemia e os salários também estão subindo em comparação com outras áreas do país, explica o economista.

Segundo ele, porém, há escassez de espaço para instalar as novas fábricas em alguns centros industriais do México.

O crescimento da indústria é confirmado pela Associação Mexicana de Parques Industriais Privados (AMPIP).

“Há mais interesse de empresas estrangeiras que querem vir para o México, principalmente asiáticas”, diz Claudia Esteves, diretora-executiva da entidade.

“Há pouco espaço disponível para alugar nos parques industriais.”

Segundo dados da entidade sindical, somente no ano passado foi iniciada a construção de 47 novos parques industriais no país.

Estimativas apontam que o nearshoring vai gerar aproximadamente US$ 30 bilhões (cerca de R$ 155 bilhões) à economia em 2022.

“Os espaços industriais estão sendo alugados ainda durante a construção. Isso nunca aconteceu antes”, diz Pablo Monsivais, analista do banco Barclays.

O Ministério da Economia informou recentemente que em 2022 o investimento estrangeiro direto no México cresceu 12% em relação ao ano anterior.

“Isso mostra que o nearshoring é uma realidade”, acrescenta Monsivais.

Em 2022, a liderança dos investimentos estrangeiros foi assumida pelas indústrias de automóveis e caminhões, componentes eletrônicos e autopeças.

O impacto na indústria automotiva

Há poucos dias, a montadora alemã BMW anunciou um investimento de US$ 870 milhões (cerca de R$ 4,4 bilhões) nos próximos três anos, a maior parte para a construção de um centro de produção de baterias elétricas em sua fábrica de San Luis Potosí, a 363 km da Cidade do México.

O setor automotivo é um dos que lideram o nearshoring.

“Estamos vendo o movimento da realocação (de fábricas para o México)”, diz Francisco Gonzalez, presidente da Indústria Nacional de Autopeças (INA).

Só no ano passado, explica ele, cerca de 70 fábricas do setor automotivo mudaram suas operações para o México.

Enquanto algumas dessas plantas já estão funcionando, outras estão prestes a iniciar as operações, acrescenta Gonzalez.

Ele afirma que existem empresas espanholas, suíças, alemãs, americanas e de outras partes do mundo que, em muitos casos, continuam operando na região asiática, mas, ao mesmo tempo, estão expandindo sua produção no México para vendê-la nos EUA.

“Existem transnacionais do setor automotivo que tinham toda a sua produção entre China, Malásia, Índia e Vietnã e agora estão se estabelecendo em território mexicano”, diz.

E entre as novas tendências está o rápido avanço da fabricação de carros elétricos e de baterias elétricas.

Por que as empresas estão indo para o México? O México se tornou mais atraente para instalar fábricas da Ásia devido à sua proximidade geográfica com os Estados Unidos, ao custo da mão de obra, à guerra comercial entre Washington e Pequim e às vantagens do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (T-MEC), que entrou em vigor em 2020.

Quando o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs tarifas de até 25% sobre as importações da China em 2018, muitas empresas procuraram maneiras de substituir o “made in China” pelo “made in Mexico”.

Por que pagar 25% de impostos para entrar no mercado americano se elas podem fabricar no México e exportar seus produtos daquele país sem pagar tarifas?

Esse foi o questionamento de muitas empresas estrangeiras que tinham toda a sua produção concentrada no gigante asiático.

O T-MEC, por sua vez, facilitou o escoamento de produtos entre México, Canadá e Estados Unidos quando as cadeias de abastecimento foram interrompidas pela pandemia, gerando um aumento gigantesco no custo do transporte marítimo e no tempo de espera para receber os produtos da China.

Enquanto isso, a Casa Branca declarou em 2021 como “prioridade de segurança nacional” garantir a disponibilidade de produtos estratégicos e a resiliência geral de sua cadeia de suprimentos, outro ponto a favor do México.

A todo este panorama somou-se, em fevereiro de 2022, a invasão da Rússia à Ucrânia, conflito que revelou o perigo de se depender de fornecedores de energia que podem usar o comércio como arma política.

Alan Russell, cofundador e presidente-executivo da Tecma, uma empresa que transferiu a produção de grandes indústrias para o México, diz que seus clientes não estão mais dispostos a depender das cadeias de suprimentos da China para vender para o mercado americano.

“As empresas não vão aceitar mais a desculpa de que o contêiner não chegou, ou que estão faltando contêineres, ou que um porto na China está fechado.”

As empresas que fabricam nos Estados Unidos, por sua vez, têm enfrentado escassez de trabalhadores.

Já no México há mão de obra abundante e de baixo custo em comparação com os salários pagos no mercado de trabalho americano, argumenta Russell.

Embora a mudança das fábricas demore vários anos, “o aumento recorde da migração fabril para o México começou após a pandemia”, diz o empresário.

Hofusan: a chegada das empresas chinesas

Parque industrial Hofusan é um do que estão crescendo no México — Foto: Getty Images via BBC

César Santos é testemunha de todas essas mudanças desde que firmou uma aliança empresarial com dois grupos chineses, o Holley Group e o Futong Group, em 2015, para a construção de um gigantesco parque industrial.

Localizado em um terreno de 850 hectares em Monterrey, a 220 quilômetros do Texas, na fronteira com os Estados Unidos, foi batizado de Hofusan e a partir de 2018 passou a alugar espaços para empresas chinesas interessadas em nearshoring fabricarem seus produtos mais próximos ao mercado americano.

Atualmente, são 21 empresas em operação no local. Santos diz que também está negociando com companhias americanas e italianas.

“É um boom industrial”, diz Santos. “Vendemos a primeira etapa e agora estamos na segunda.”

Uma das razões para a atratividade do nearshoring no México, diz o empresário, é que tanto a terra quanto a mão de obra são acessíveis para as empresas asiáticas, já que os salários aumentaram na China.

E desde que os Estados Unidos impuseram tarifas aos produtos chineses, o interesse cresceu rapidamente.

No parque industrial de Hofusan, chegaram as seguintes empresas: a multinacional eletrônica Hisense, a companhia de móveis Kuka Home e Sunon Furniture, a fabricante de autopeças Hangzhou XZB e a fabricante de equipamentos de jardim Skyish.

De acordo com um estudo da empresa internacional CBRE Research, a procura pela realocação de fábricas no México entre janeiro e setembro do ano passado veio principalmente da China, seguida dos Estados Unidos, Japão, Alemanha e Coreia do Sul.

Os efeitos do ‘nearshoring’Até agora, o governo mexicano não tem um levantamento sobre a magnitude e os efeitos do nearshoring no país.

Não há dados oficiais sobre o valor do investimento, nem o número de empresas que chegaram ao país, nem o impacto que o movimento teve na economia ou na criação de empregos.

O que está disponível são as informações parciais tratadas por cada Estado e pelas diferentes associações empresariais.

A BBC News Mundo questionou o Ministério da Economia sobre o tema, mas não obteve resposta.

Sabe-se que o governo teria uma lista de empresas com planos de realocar sua produção para o México.

Há alguns dias, o secretário de Relações Exteriores, Marcelo Ebrard, repetiu: “Temos 400 empresas na lista das que vêm para o México”.

Em janeiro, os governos do México, Canadá e Estados Unidos declararam durante a Cúpula de Líderes da América do Norte sua intenção de coordenar os investimentos na fabricação de semicondutores, uma questão-chave na agenda do presidente dos EUA, Joe Biden.

Tanto para as grandes quanto para as médias empresas, um dos maiores obstáculos para a instalação de fábricas no México é a falta de energia para garantir suas operações.

Enquanto o país não garantir serviços básicos às empresas intensivas no consumo de energia, os investimentos demorarão mais para se concretizar.

“O aumento da capacidade de geração de eletricidade e a modernização da infraestrutura de transmissão e distribuição são apenas os primeiros passos para tornar o México um destinatário viável desse processo de nearshoring”, disse Diego López, economista do BBVA.

Em algumas áreas há problemas de escassez de água que afetam as comunidades que vivem no entorno dos polos industriais, outro desafio que pode se tornar um grande entrave para o desenvolvimento dos negócios.

“O México é um destino cada vez mais popular para empresas americanas, mas muitos clientes estão preocupados com a questão energética”, diz Jorge González, chefe de Desenvolvimento de Negócios e diretor-executivo da The Nearshore Company, que fica no Texas.

O debate atingiu os mais altos níveis do governo.

Em julho de 2022, os Estados Unidos citaram a Resolução de Disputas do USMCA, argumentando que várias políticas energéticas mexicanas violam o acordo, favorecem empresas públicas do México e afetam negativamente as companhias americanas.

Outro dos desafios que as empresas enfrentam é a questão da segurança, dado o poder das organizações criminosas em determinadas áreas do país.

E, do ponto de vista comercial, também não é fácil para uma empresa obter todas as peças necessárias para fabricar o produto final, o que explica por que muitas empresas continuam importando peças e componentes da Ásia.

“Os mexicanos não têm feito um bom trabalho na fabricação dos componentes que importam da China, principalmente componentes eletrônicos”, argumenta Harry Moser, presidente da organização Reshoring Initiative, que promove o retorno da manufatura aos Estados Unidos.

Apesar das desvantagens, muitos investidores e empresários continuam confiantes de que o nearshoring para o México não será uma tendência passageira.

“A migração da manufatura vai continuar. Eles estão construindo espaço industrial o mais rápido possível”, diz Russell.

Marco Villarreal, que teve uma boa experiência com a transferência da manufatura da Hisun para o México, está totalmente convencido disso.

“Nearshoring é uma onda muito grande que continuará a crescer.”




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Por: G1

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