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O que é a Brav-M, brigada policial francesa acusada de usar violência extrema contra manifestantes?

today28 de março de 2023 15

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“A próxima vez que viermos, você não vai subir na viatura para ir à delegacia, você vai subir em outra coisa que a gente chama de ambulância para ir ao hospital”: as ameaças ouvidas em uma gravação de membros da Brav-M viralizaram nas redes sociais francesas nos últimos dias. Um arquivo de cerca de 20 minutos revelado pela plataforma independente Loopsider mostra membros desta brigada ameaçando e intimidando sete jovens detidos durante um protesto contra a reforma da Previdência em Paris, no último 20 de março. 

Além de humilhações e insultos racistas, barulhos de tapas também podem ser ouvidos. “Você sabe que tem um cara feita para apanhar”, diz um membro da Brav-M a um manifestante, apoiado por outros policiais. 

As gravações que chocaram a França também motivaram dois jovens detidos nesta fatídica noite a registrar um boletim de ocorrência contra a unidade célebre por suas intervenções violentas. A jovem Salomé contou nas redes sociais que um dos policiais desceu da motocicleta, a derrubou e a arrastou, provocando diversos ferimentos em seu corpo. “Sua vida está por um fio”, teria dito o integrante da Brav-M à jovem. 



O outro estudante detido do grupo que denuncia o esquadrão móvel é Souleyman, originário do Chade. Na gravação, é possível ouvir os policiais zombando da nacionalidade do rapaz e perguntando se ele chegou a nado na França. O jovem denuncia um agente por agressão sexual. Ele relata que um membro da brigada agarrou seu pênis e disse: “você nem tem testículos”.

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Origem e função da Brav-M

A criação dessa brigada que atua em motocicletas ocorreu em 2019, quando o cargo de secretário de Segurança Pública de Paris foi assumido por Didier Lallement. Figura extremamente polêmica, ele foi diversas vezes acusado de repressão durante a crise dos coletes amarelos na França, e foi deslocado desde 2022 ao posto de secretário geral do mar.

Em entrevista ao jornal Le Parisien, um comandante da polícia que participou da criação da Brav-M explica, em off, que o objetivo era formar uma brigada que pudesse intervir rapidamente, já que outras unidades de polícia muitas vezes demoram a chegar nos locais de carro, carregando grandes quantidades de material. Os policiais da Brav-M circulam em duplas em motocicletas, utilizando capacetes e levando menos armamentos. 

Sempre em pequenos comboios, eles são célebres por intervir em manifestações, são convocados em casos de violências urbanas, degradações ou ações de dispersão, mas apoiam também unidades policiais em dificuldade. Teoricamente, eles podem entrar em ação somente sob risco iminente e sob ordens.

“São funcionários da polícia formados para manter a ordem. A única diferença [em relação aos policiais convencionais] é que eles têm um meio de locomoção que os permite de se moverem mais rápido”, explicou o atual secretário de Segurança Pública de Paris, Laurent Nuñez à Franceinfo no último sábado (25).

“Não temos a função de interpelar manifestantes, responsáveis sindicais ou passantes, mas servimos para neutralizar baderneiros ou black blocs. Quando somos chamados, é para reprimir”, reconhece um membro desta brigada, sob anonimato, ao jornal Le Parisien.

Desde o início da mobilização contra a reforma da Previdência, ao menos dois policiais da Brav-M estão sendo investigados. Um deles foi filmado esbofeteando um homem no chão – atitude qualificada de “inadaptada” pelo secretário de Segurança Pública. 

As violentas ações desta brigada vêm sendo comparadas às dos “voltigeurs”, unidade policial igualmente munida de motocicletas criada em maio de 1968 e extinta 14 anos depois, após o trágico falecimento de Malik Oussekine. O universitário foi morto aos 22 anos por três membros das forças de segurança durante uma manifestação estudantil em 1986 e se tornou o símbolo das agressões policiais na França.

As agressões protagonizadas pelo esquadrão motorizado viralizam nas redes sociais, gerando indignação e forte revolta na opinião púbica. Não por acaso, a radicalização de jovens vem sendo proporcional ao uso de violência pelas forças de ordem francesas nas últimas semanas. 

Na plataforma disponibilizada pela Assembleia de Deputados da França para o registro de petições, um abaixo-assinado criado para a extinção da Brav-M no último 23 de março já reúne quase 150 mil assinaturas. 

“A repressão policial que assola o nosso país deve ser discutida imperativamente junto ao desmantelamento da Brav-M”, avalia o autor da iniciativa, Yann Millérioux, um militante de 50 anos da periferia de Paris. “O país está sufocado pelos testemunhos de abusos violentos e brutais cometidos por essas brigadas motorizadas contra os manifestantes que tentam ser ouvidos sobre um projeto de regressão social”, reitera.

Na opinião de Millérioux, os casos de violência protagonizados pela Brav-M circulam no mundo inteiro, chocando a comunidade internacional e manchando a imagem da França. “Eles empregam uma força desproporcional e arbitrária, contrariando o esquema nacional de manutenção da ordem”, ele denuncia. 

Para que seja debatida na Assembleia de Deputados, a petição precisa alcançar 500 mil assinaturas. O secretário de Segurança Pública, Laurent Nuñez, no entanto, descarta qualquer possibilidade de que a Brav-M seja extinta. “Essa unidade nos é preciosa”, afirmou, em entrevista à rádio France Inter nesta terça-feira (28). Ele afirma que os policiais do esquadrão acusados de agressão foram afastados e estão sendo investigados.  

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Por: G1

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