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O surpreendente caso do parlamentar britânico que fingiu a própria morte e assumiu múltiplas identidades

today8 de janeiro de 2023 14

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Ele as havia deixado intencionalmente lá.

O membro do Parlamento britânico John Stonehouse viajou para os Estados Unidos em novembro de 1974, deixando seu cargo sem notificar o governo. Quando retornasse, seria repreedindo.

Mas ele não voltou. No dia 19 daquele mês, saiu para a praia do hotel onde estava hospedado e simplesmente sumiu. Apesar de não haver indícios de que tenha caído no mar, as autoridades concluíram que houve um infortúnio, e que o oceano Atlântico o engoliu.



No Reino Unido, surgiram especulações sobre seu misterioso desaparecimento.

Seu amigo William Molloy, outro parlamentar, afirmou que Stonehouse havia sido morto por inimigos por sua defesa da democracia e luta contra a pobreza.

Ele acrescentou que também não se podia descartar o envolvimento da máfia.

Outros especularam que ele havia cometido suicídio por causa de problemas nos negócios, pelos quais estava enfrentando um processo.

Eles também reviveram os rumores de que Stonehouse havia sido um espião na década de 1960, desencadeados depois que um ex-oficial da inteligência tcheca, Josef Frolik, o denunciou como tal em 1969, forçando o então primeiro-ministro Harold Wilson a negar as acusações na Câmara dos Comuns.

Stonehouse após ser deportado da Rodésia em 1959, após criticar o governo de minoria branca do país e estimular a população negra a defender seus direitos. — Foto: GETTY IMAGES/via BBC

Mas, por mais absurdas que possam soar as suposições, a realidade também o era. Em 24 de dezembro, Stonehouse foi preso pela polícia de Melbourne, na Austrália, no balneário de St. Kilda.

Na época de sua “primeira morte”, Stonehouse tinha 49 anos, esposa e três filhos. Ele era membro do Partido Trabalhista desde os 16 anos e do Parlamento desde 1957.

Durante a década de 1960, ascendeu rapidamente, tornou-se uma jovem estrela e passou a ser considerado um político com potencial para primeiro-ministro.

No entanto, embora sua carreira parlamentar tenha sido digna, nunca foi espetacular.

Para piorar, no final daquela década ele estava afundado em um miasma de suspeitas de espionagem, depois que Frolik associou seu nome ao de “Agente Kolon”.

De acordo com o tcheco, um arquivo afirmava que “em 1964 ele forneceu informações sobre planos e políticas governamentais e sobre questões tecnológicas, incluindo aeronaves, e recebeu pagamentos ao longo dos anos de £ 5.000 no total”.

Stonehouse com sua esposa Barbar e sua família em sua casa de campo, em 1969. — Foto: GETTY IMAGES/via BBC

Interrogado pelo Serviço de Segurança Interna do Reino Unido, o MI5, Stonehouse negou categoricamente que fosse ele, mas, embora nunca tenha sido formalmente acusado de traição, sua ascensão política foi prejudicada.

Anos mais tarde, documentos desclassificados da ex-Tchecoslováquia e do Reino Unido pareciam dar crédito às suspeitas. Entre outras coisas, descobriu-se que, em 1980, a primeira-ministra Margaret Thatcher aceitou o conselho do procurador-geral Sir Michael Havers para encobrir os feitos de Stonehouse, apesar de que ele “tinha certeza de que o Sr. Stonehouse era um espião dos tchecoslovacos”, de acordo com as atas de Downing Street.

A filha de Stonehouse, Julia, continua negando que isso seja verdade.

Quando sua carreira política começou a dar sinais de paralisia, Stonehouse passou a se dedicar a criar uma série de empresas ligadas ao ramo da importação e exportação, que acabaram sendo retumbantes fracassos.

A mais notória foi o British Bangladesh Trust (BBT), cujo objetivo declarado era encorajar o comércio entre o Reino Unido e Bangladesh.

Mas o negócio começou mal devido a um artigo desfavorável no jornal Sunday Times, que acusou a empresa de fraude por distribuir um folheto em bengali contendo declarações falsas.

Stonehouse esperava arrecadar £ 500.000 para o BBT, mas recebeu apenas £ 15.000, então ele teve que complementar o déficit com seus recursos pessoais, comerciais e empréstimos.

Stonehouse diria mais tarde que “saiu da situação de apuro, mas o processo me acorrentou às rodas de uma carruagem, cravando suas unhas em mim, drenando lentamente meu sangue e me preparando para um sacrifício final em um circo romano. ”

Com os negócios indo de mal a pior, sendo investigados pela polícia, um vício em remédios e rumores circulando de que ele era um espião da Tchecoslováquia comunista, Stonehouse queria fugir.

E que melhor maneira de escapar do que “morrer”?

Requer muito planejamento, se você quiser renascer em outro lugar.

A primeira coisa que ele fez foi calcular friamente a criação de duas identidades alternativas para si mesmo.

Em julho de 1974, ele contatou um hospital em seu eleitorado parlamentar e pediu informações sobre pacientes do sexo masculino de meia-idade recentemente falecidos, dizendo que tinha dinheiro disponível para suas viúvas.

Eles lhe deram os nomes e endereços de cinco homens, incluindo os do Sr. Donald Mildoon e do Sr. Joseph Arthur Markham.

Stonehouse visitou as viúvas dos dois homens para coletar informações para apoiar seus pedidos de cópias de suas certidões de nascimento.

Ele os usou para adquirir passaportes e falsificou a assinatura de outro membro do parlamento para obter esses documentos.

Fez, em seguida, um seguro de vida por £ 125.000.

A secretária de Stonehouse, Sheila Buckley, era 21 anos mais nova que ele e foi sua amante por cinco anos — Foto: GETTY IMAGES/via BBC

Stonehouse retirou dinheiro de suas empresas, depositou esses recursos em contas bancárias com o nome do falecido Markham e fugiu para Miami para fingir a própria morte. Depois, seguiu para a Austrália para começar uma nova vida com sua secretária e amante Sheila Buckley, que era 21 anos mais nova que ele.

Mas mesmo os projetos mais bem elaborados podem fracassar, e os planos de Stonehouse deram errado desde o início.

Como conta sua filha Julia no livro “John Stonehouse, meu pai”, o parlamentar só conseguiu sumir após uma tentativa frustrada.

Em 6 de novembro, ele chegou a Miami e passou pela imigração como Stonehouse, voltou e entrou novamente como Joseph Markham.

No dia seguinte, procurou um lugar para deixar as roupas que usaria para fugir após fingir ter se afogado no mar. Ele foi ao aeroporto comprar uma passagem em nome de George Lewis e adquirir uma mala e roupas, para deixá-las, junto com os documentos falsificados de Markham, em um armário.

Ele voltou e deixou uma muda de roupa escondida no local que havia encontrado perto da praia.

Tudo estava ocorrendo como programado.

Vestiu traje de banho, sapato e camisa, desceu de novo, deixou os dois últimos (sapato e camisa) na varanda do hotel e foi para o mar. Ele nadou até o local onde estavam as roupas escondidas, vestiu-as, saiu, pegou um táxi para o aeroporto e voou para Houston.

De lá viajaria para a Cidade do México para pegar o voo semanal da Quantas, tendo saído dos Estados Unidos como Markham. Mas chegou atrasado e perdeu o avião

Stonehouse estava hospedado no hotel Fontainebleau e escondeu a roupa usada para fugir na frente do hotel Eden Roc Tresor Tower — Foto: GETTY IMAGES/via BBC

Ele pensou que, como alternativa, poderia chegar à Austrália saindo de Los Angeles, mas também não conseguiu, então teve que voltar para Miami, onde percebeu que, apesar de dois dias de ausência e das roupas deixadas para trás para alertar o mundo de seu desaparecimento, ninguém sentiu sua falta.

Os problemas de Stonehouse continuaram.

Ele voltou para Londres e se encontrou com a esposa, antes de retornar a Miami para tentar novamente concretizar seu plano.

Quando finalmente chegou à Austrália, sua vida como Joe Markham não durou muito, pois assumiu outra “personalidade paralela”, a de Donald Clive Mildoon, porque, como ele disse mais tarde, a presença de John Stonehouse “era opressiva para mim, e eu tive que colocar uma barreira extra entre ele e eu.”

Ele sacou a maior parte de seu dinheiro da conta de Markham no Bank of New South Wales em Melbourne e abriu uma conta em nome de Mildoon no Bank of New Zealand.

Um funcionário do primeiro banco o viu entrar no outro e descobriu que ele tinha duas identidades.

A Polícia Estadual de Victoria inicialmente pensou que ele estivesse envolvido em fraude bancária.

Logo depois, começaram a suspeitar que ele era “Lucky” Lord Lucan, um aristocrata que havia desaparecido duas semanas antes de Stonehouse, depois que a babá de sua ex-mulher foi encontrada morta em Londres.

Eles verificaram que não era Lucan, pois não encontraram em Stonehouse uma cicatriz em sua perna esquerda- característica que o aristocrata tinha.

No entanto, Stonehouse havia sido descoberto e, apesar de seus advogados terem tentado impedir sua extradição alegando que não era crime ter mais de um nome, após tentar obter asilo na Suécia e nas Ilhas Maurício, ele foi deportado para o Reino Unido em junho de 1975.

Ao chegar a Londres, ele foi preso, mas posteriormente foi libertado enquanto aguardava julgamento. Ele se recusou a renunciar como deputado, antagonizando com Partido Trabalhista e a imprensa.

Em novembro publicou “The Death of an Idealist” (a Morte de um Idealista), no qual retratou o ocorrido como uma crise causada pela “hipocrisia e farsa da sociedade e da política inglesas”, e afirmou que isso produziu uma cisão psicótica em sua personalidade.

“Embora eu não reconhecesse totalmente na época, eu estava operando em três níveis. Um, a imagem do homem: legal, calmo e aparentemente no comando de todos os seus sentidos, levando a vida que normalmente se espera dele”, escreveu.

“Dois, o homem original, que usava todas as capas pesadas do homem imaginado como um fardo e desprezava esse papel, sofrendo profundo tormento quando a desesperança de sua posição se tornou mais aparente. Três, o homem Fênix: uma pessoa imaginária que estava livre de problemas e tensões e, através do relaxamento natural, deu conforto aos outros dois”, continuou.

“Os dois primeiros homens tiveram que morrer porque o estresse de viver era muito grande para eles. Eu queria que eles quisessem morrer. Eu queria que eles morressem. Eu queria morrer. Não havia outro jeito.”

Stonehouse fazendo churrasco em sua casa perto de Melbourne, onde viveu com o nome fictício de Donald Clive Mildoon, 1974. — Foto: GETTY IMAGES/via BBC

Tanto ele quanto seu advogado de defesa, Geoffrey Robertson QC e, até hoje, sua filha Julia, justificam o que Stonehouse fez como uma crise existencial que o levou a um suicídio psicológico.

Ele não convenceu o resto do mundo

Pouco antes de seu julgamento em abril de 1976, Stonehouse dispensou sua equipe jurídica e lançou sua própria defesa, que incluiu a leitura da declaração mais longa da história britânica.

Isso durou 6 dias e irritou tanto o juiz que mais tarde ele defendeu com sucesso a abolição desse antigo direito. No final, Stonehouse foi condenado a 7 anos de prisão sob a acusação de roubo e falsos pretextos.

O juiz concluiu dizendo-lhe: “Você não é um infeliz idealista. Você cometeu esses crimes quando pretendia garantir seu conforto futuro.” Stonehouse foi libertado três anos depois, para se recuperar de uma cirurgia de coração aberto, após sofrer três ataques cardíacos durante a prisão.

Ele se casou com Sheila Buckley em 1981, que também havia sido condenada a dois anos de prisão por sua participação nos planos de Stonehouse.

Com ela teve um filho, escreveu vários romances e fez várias aparições na televisão antes de morrer de ataque cardíaco em 1988.

O paradeiro de Lord Lucan ainda é desconhecido.




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Por: G1

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