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Os negócios milionários por trás da relação do Catar com a Europa

today14 de dezembro de 2022 14

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O acordo de fornecimento de gás representa uma importante alternativa estratégica para a Alemanha que atualmente depende em grande parte do fornecimento de gás da Rússia, abalado pela guerra na Ucrânia.

O acordo é também um dos fatores que mostram que os laços do país com a Europa vão muito além do futebol e afetam a vida de milhões de pessoas.

Tudo indica que as parcerias tendem a ser fortalecidas pela guerra na Ucrânia, apesar de muitos europeus questionarem se é correto fomentar relações com um regime cujos valores parecem contrários à democracia, à liberdade individual e ao respeito aos direitos humanos — questionamento que se ampliou com a atenção gerada pela Copa do Mundo.



Os laços entre o país do Golfo Pérsico e a Europa passam por várias áreas, mas o gás é o principal. Embora o Catar seja um país pequeno, possui uma das maiores reservas de gás natural do mundo. E tem clientes importantes na Europa.

Desde que a guerra começou na Ucrânia e a Rússia reduziu a exportação de gás natural para os países que apoiavam Kiev, os europeus buscam fontes alternativas desse combustível, que hoje é crucial para o funcionamento de suas economias e aquecimento de suas casas.

Foi assim que o Catar ganhou maior relevância para a Europa.

A Alemanha, após acordo com a estatal Qatar Energy e com a participação da multinacional ConocoPhillips, espera que quantidades crescentes de gás do Catar cheguem à Brunsbüttel, onde está sendo construído um dos terminais para substituir importações da Rússia.

“A União Europeia é muito dependente do gás russo, então garantir alternativas é ainda mais urgente”, diz Dharshini David, repórter de negócios internacionais e comércio mundial da BBC.

Mas ele afirma que as negociações para aumentar o gás que a UE recebe do Catar — 5% do total que o bloco importa — têm sido complicadas.

Isso porque o Catar prefere fornecer gás com acordos de longo prazo, entre 15 e 20 anos, como o que assinou com a Alemanha, o que pode entrar em conflito com os objetivos da Europa de usar menos combustíveis não renováveis no longo prazo.

Além disso, vários países asiáticos competem com a Europa por abastecimento e segurança energética e veem o Catar como uma opção relativamente confiável e geopoliticamente calma.

As alternativas podem não ser atraentes. Por exemplo, enquanto parte do maior campo de gás do mundo está nas águas do Catar, o restante do campo está nas águas do Irã (os dois países produzem gás de forma independente).

Grandes empresas europeias como a francesa TotalEnergies e a italiana Eni chegaram a acordos bilionários com a Qatar Energy nos últimos meses para aumentar a produção de gás no campo.

O Reino Unido importa cerca de metade do gás que utiliza, a maior parte via gasoduto da Noruega. Mas o Catar é seu segundo maior fornecedor estrangeiro, fornecendo cerca de 9% de suas importações de energia.

“Em teoria, é a quantidade necessária para abastecer os aquecedores de cerca de um milhão de lares britânicos. Em menos de 20 anos, o Catar se tornou uma parte vital de nossa matriz energética”, diz David.

E ele aponta que a dependência da Grã-Bretanha do gás do Catar pode aumentar no futuro, já que Londres fortaleceu o relacionamento com Doha para garantir abastecimento à medida que as reservas do Mar do Norte diminuem.

Nos últimos meses, o Reino Unido conseguiu reduzir as importações da Rússia, que representam 4% do total, tornando ainda mais crucial o gás que obtém do Catar.

O Catar, aliás, é o proprietário majoritário do terminal de South Hook, no País de Gales, onde o gás natural liquefeito é descarregado em contêineres especiais. O governo do Catar está investindo milhões para aumentar a capacidade do terminal em 25% até 2025.

Até lá, o Catar espera dobrar sua produção de gás natural liquefeito.

Investimentos milionários

Ao mesmo tempo, o Catar usou sua crescente riqueza de gás para investir em outros países e ganhar influência externa muito maior do que normalmente teria.

Na Europa, o principal destino dos investimentos do Catar tem sido o Reino Unido, segundo representantes de ambos os lados nos últimos anos.

Ao todo, o braço de investimentos do Estado do Catar despejou cerca de US$ 48,5 bilhões em áreas que afetam milhões de vidas britânicas.

E o governo do Reino Unido está disposto a tentar fazer este investimento aumentar.

Em maio, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson anunciou um acordo para o Catar investir cerca de US$ 12 bilhões nos próximos cinco anos, em setores que vão de medicina e biologia à cibersegurança.

As autoridades do Catar cultivaram relações com os altos escalões do governo e do empresariado britânico. O emir do Catar, Tamim bin Hamad al Thani, foi um dos poucos líderes do Golfo a comparecer ao funeral da rainha Elizabeth 2ª em setembro.

E o atual rei Charles 3º aceitou em 2015 uma doação para sua fundação de caridade de mais de US$ 2,4 milhões — parte desse dinheiro teria sido entregue em espécie, dentro de sacolas, por um ex-líder político do Catar.

Em setembro, o Catar comprou 24 caças construídos no condado inglês de Lancashire, parte de um acordo de cerca de US$ 6 bilhões com a empresa britânica BAE Systems.

O governo do Catar também é um dos 12 maiores proprietários de imóveis no Reino Unido.

Seu império imobiliário inclui participação proprietária significativa em marcos icônicos de Londres, como o arranha-céu The Shard, a luxuosa loja de departamentos Harrods e o prestigioso hotel cinco estrelas Claridge’s.

O Catar também tem participações significativas em algumas das maiores marcas britânicas: no banco Barclays e no aeroporto de Heathrow, em Londres, por exemplo.

Apesar de tudo isso – ou talvez por causa disso – algumas questões levantadas pela Copa do Mundo parecem ter causado desconforto.

Depois que a autoridade de transporte de Londres proibiu a publicidade turística do Catar nos ônibus, táxis e metrôs da cidade devido a preocupações com os direitos humanos no país, o Catar decidiu rever seus investimentos na capital britânica, informou o jornal Financial Times no final de novembro.

Nesta semana, a polícia da Bélgica prendeu quatro pessoas, incluindo a vice-presidente do Parlamento Europeu Eva Kaili, acusadas de receber propinas do Catar.

Os acusados, membros do Parlamento Europeu, foram indiciados por corrupção e lavagem de dinheiro.

O Catar negou ter participado de qualquer ilegalidade.

A presidente do parlamento, Roberta Metsola, disse que a situação é muito grave e afirmou que a “democracia europeia está sob ataque”.

O Catar comprou o clube Paris Saint-Germain (PSG), no qual joga o argentino Lionel Messi (à dir.); na foto ao lado do presidente do clube Nasser Al/Khelaifi, e o brasileiro Neymar — Foto: AFP via BBC

A estratégia de investimento do Catar no Reino Unido é replicada em menor escala em outras partes da Europa.

O país dispõe de uma ferramenta extraordinária para isso: um fundo soberano estimado em US$ 450 bilhões, administrado pela Qatar Investment Authority (QIA).

A França é o segundo maior destino do dinheiro do Catar na Europa, de acordo com um estudo recente do instituto de pesquisa francês e catariano Economic Circle.

No total, os ativos do Catar na França são estimados em cerca de US$ 26 bilhões.

Além da famosa aquisição do clube de futebol Paris Saint-Germain (PSG) por uma subsidiária da QIA, o Catar comprou ações de várias empresas francesas: do grupo de mídia Lagardère à loja de departamentos Printemps.

Na Alemanha, estima-se que os investimentos do Catar ultrapassem US$ 24 bilhões, incluindo participações no capital de grandes empresas do país, como Volkswagen, Deutsche Bank e Siemens.

Ao visitar a Espanha e reunir-se com as autoridades locais em maio, o emir do Catar anunciou planos para investir cerca de US$ 5 bilhões no país ibérico, o que aumentaria em cerca de 50% o capital catariano colocado neste país europeu.

Diferentes analistas apontam que por trás de tudo isso há algo mais do que a busca de influência no ocidente.

O Catar traçou uma estratégia para diversificar sua economia e torná-la menos dependente de combustíveis fósseis. Seus investimentos em diferentes setores da economia global podem ajudar nesse sentido.

A organização da Copa do Mundo de futebol deste ano também buscou atrair atenção e turismo para o país. Mas, com a polêmica que tem gerado, tudo indica que o evento está longe de ser a sua maior aposta para estreitar os laços com a Europa.

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Por: G1

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