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‘Ou morremos, ou vencemos’, dizem mulheres iranianas após seis meses de protestos e repressão

today9 de março de 2023 8

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“Eu posso estar tremendo de frio, mas me recuso a colocar um lenço ou um chapéu! Mesmo se o inverno é intenso, não quero que eles [as forças de segurança] pensem que eu cedi ou que estou com medo.”

A declaração de Haleh, uma iraniana de 58 anos, resume a postura de boa parte de suas compatriotas desde a morte em setembro de 2022 da jovem curda iraniana Mahsa Amini, detida pela polícia moral em Teerã por usar um véu de forma considerada imprópria.

Como muitas de suas compatriotas, Haleh mantém a cabeça erguida, descoberta, e não esconde a sua “aversão” ao regime. Moradora de Teerã, ela diz que nunca apoiou o véu obrigatório, nem tampouco “as outras leis draconianas da República Islâmica”. E desde a morte de Mahsa Amini, passou a atuar em vários grupos de oposição, participando em comícios, distribuindo panfletos e militando a favor da desobediência civil.



“Nossas reivindicações obviamente não se limitam à exigência da liberdade de nos vestirmos como queremos”, insiste Morvarid, 27 anos.

“Mas como o véu é a principal ferramenta do regime islâmico para reprimir as mulheres, esse acessório se tornou para elas o principal símbolo da luta. Por isso que, desde o início das tensões, resolvemos retirá-lo, rejeitá-lo, queimá-lo”, completa Haleh.

Desde que Tâhereh, uma poetisa executada no século 19 após ter retirado seu véu em público, as iranianas nunca pararam de lutar contra o extremismo religioso. No entanto, com o estabelecimento da República Islâmica em 1979, as restrições passaram a ser regidas pela lei de proteção à família.

O texto “promove o casamento de meninas, independentemente da idade, e incentiva a abundância de gestações, sempre com o objetivo de colocar as mulheres em uma espécie de prisão domiciliar. A obrigatoriedade do véu foi apenas um dos instrumentos de poder para atingir esse objetivo geral”, relembra Atena Daemi.

“O movimento atual exige a mudança completa do regime”, resume Pooran Nazemi, ex-presa política e defensora dos direitos humanos. Ela foi uma das signatárias, em 2019, de uma carta aberta chamada “Call of 14” exigindo a renúncia do líder supremo, Ali Khamanei, e a mudança do sistema político no Irã. Atualmente, Nazemi aguarda a decisão do Tribunal Revolucionário em um novo julgamento. Mas isso não a impede de continuar sua luta, se manifestar na mídia e postar mensagens e vídeos nas redes sociais para reafirmar sua determinação.

“As mulheres iranianas conhecem seus direitos, sabem o que lhes foi roubado e lutam para recuperá-los. Mesmo que o poder reprima de diversas formas, elas resistem e, no meu ponto de vista, isso é muito importante”, diz Atena Daemi, ativista dos direitos humanos que, aos 34 anos, já cumpriu cinco anos de prisão por sua ação militante.

Isolamento do Irã no cenário internacional

Pooran Nazemi ressalta que o isolamento do Irã no cenário internacional é apenas a consequência “da política e do comportamento de suas autoridades incompetentes”, que “desde o início se impuseram ao país a base de enganação e hipocrisia”. Segundo ela, a população “não é boba” e sabe agora que “a situação deplorável do país resulta da estrutura do regime atual e não, como afirmam as autoridades, da ação de ‘inimigos’ [externos]”.

Essa é uma constatação compartilhada por muitos jovens. “Além das restrições aos direitos das mulheres e da ausência de liberdades, tudo está desmoronando”, lança Hedieh, de 27 anos.

“A situação econômica é desastrosa. Em algumas cidades, a distribuição de gás e eletricidade é racionada, como durante uma guerra. Faltam remédios, o número de suicídios, que já era alto, aumentou, a depressão avança e todos estão convencidos de que para ter uma vida simplesmente normal é preciso acabar com o regime da República Islâmica”, defende. Segundo ela, “a população sabe muito bem que quem nos governa é incompetente e nem se importa com o agravamento da situação”.

Após um longo silêncio, com a voz embargada, ela continua: “O que temos a perder? Nada! De que adianta viver se você não pode ser livre e se não tem futuro?”, se questiona.

“Então vamos até o fim. Ou morremos, ou vencemos. A República Islâmica sempre foi sinônimo de terror. As mulheres hoje andam de mãos dadas. O medo se foi e o regime islâmico vai embora com ele, em breve!”, anuncia.

Manifestações diminuíram, mas mobilização continua

Embora as manifestações de rua pareçam menos frequentes, a determinação dessas mulheres segue intacta e mais forte do que nunca.

“É verdade que os grandes protestos foram suspensos, mas todos estão prontos para retomar o movimento assim que puderem. Enquanto isso, lutamos de formas diferentes. As pessoas estão expressando sua raiva e também seu desespero nas redes sociais”, relata Morvarid, uma iraniana de 27 anos.

“A vida parece continuar [normalmente] no Irã, mas todos estão convencidos de que essa revolta terá resultados”, diz Hedieh.

“Ainda que haja menos manifestações, a aversão aos valores promovidos pelo regime é cada dia mais evidente. Está crescendo o número de mulheres que andam nas ruas sem véu em Teerã, mas também em muitas cidades do interior. É, em si, um ato permanente de protesto”, explica.

Menina relata o que sentiu em novo ataque no Irã — Foto: JN

Outra forma de agir atualmente é por meio de greves, como as paralisações registradas no setor da educação, principalmente após o envenenamento de meninas em dezenas de escolas pelo país, em um episódio que indignou a população.

“Muitos acreditam que o envenenamento das estudantes é um ato de intimidação e vingança por parte do poder. Porque as alunas também estiveram na linha de frente dos protestos tirando seus véus, rasgando as fotos [dos líderes religiosos] Khomeini e Khamenei”, insiste Atena Daemi.

Para Ronak, uma moradora de Kermanchah, “a ausência de uma reação efetiva das autoridades [após os casos de envenenamento] demonstra seu envolvimento neste ato que deve ser qualificado como terrorista. O que mais me entristece é que desta vez as crianças também são alvo do poder. Crianças que ignoram totalmente nossas lutas. Esse crime não pode ficar impune”, afirma.




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Por: G1

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