G1 Mundo

União da esquerda pode prejudicar Macron e dar vitória à direita radical nas eleições na França

today29 de junho de 2024 6

Fundo
share close

A Nova Frente Popular, criada no dia seguinte à dissolução do parlamento francês, e que une os partidos de esquerda na França, pôs por água abaixo a estratégia do centrista Macron e pode acabar facilitando ainda mais a vitória da direita radical de Marine Le Pen que lidera as pesquisas de opinião.

O presidente contava com esse eleitorado dos partidos de esquerda para manter seus deputados e barrar a expansão de Le Pen, que pela primeira vez tem chances reais de chegar ao governo.

O líder francês, dizem especialistas, tem sinalizado em discursos que a esquerda estaria contribuindo para a vitória do Reunião Nacional (Rassemblement National) de Le Pen nas eleições legislativas.



Não é à toa que Macron tem reservado suas críticas mais duras justamente para a aliança de esquerda, o que desagrada inclusive aos seus próprios apoiadores.

Ao se unir para as legislativas na França, a esquerda sabotou o plano do Macron”, afirmou à BBC News Brasil Thomás Zicman de Barros, pesquisador do Centro de Pesquisa Política da universidade Sciences Po de Paris.

Especialistas estimam que a esquerda não tem interesse, em termos estratégicos, de se aliar ao enfraquecido e criticado círculo de apoio do presidente francês, sobretudo após Macron ter privilegiado pautas contrárias à agenda dos partidos de esquerda promovendo reformas polêmicas, como a da aposentadoria.

“Qual seria o interesse para a esquerda de se associar a Macron que pouco estendeu a mão para esses partidos?”, questiona Barros.

“A aliança da esquerda é um golpe fatal para Macron. Ele baseou toda sua estratégia nessa desunião”, completa Gaspard Estrada, diretor do Observatório Político da América Latina da Sciences Po.

A esquerda já havia se unido nas eleições legislativas na França de 2022, com a chamada Nupes, mas a aliança apresentou problemas logo no início e desintegrou no ano passado.

Marine Le Pen. — Foto: Reuters via BBC

Nas eleições para o Parlamento Europeu, em 9 de junho, socialistas, ecologistas, comunistas e a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, considerado como esquerda radical, apresentaram candidaturas distintas.

Foi após o resultado dessa votação europeia que acabou liderada pela direita radical de Le Pen que Macron dissolveu o Parlamento francês, embora não fosse obrigado a fazer isso.

O partido de Le Pen teve mais do que o dobro do número de votos obtidos pelo partido de Macron, o Renascimento (Renaissance).

A vitória da direita radical foi vista por analistas como uma reação do eleitorado às políticas de migração, ao elevado custo das reformas ambientais e à alta inflação.

Em 24 horas, após a dissolução do Parlamento e da convocação de eleições legislativas, a esquerda se juntou.

De acordo com recentes pesquisas de intenção de voto, o Reunião Nacional, de extrema direita lidera com 36% e pode obter maioria relativa nestas eleições legislativas

Mas uma pesquisa do instituto Elabe divulgada nesta sexta-feira (28/6), indica que o Reunião Nacional e seus aliados (parte da direita moderada que se juntou a Le Pen, provocando o racha do partido Os Republicanos) já poderiam obter os 289 assentos necessários para garantir a maioria absoluta.

Isso permitiria que o Reunião Nacional triplicasse o atual número de cadeiras no parlamento, de 88.

Entretanto, outras pesquisas apontam que o partido de Le Pen, sozinho, deve conquistar entre 220 e 260 assentos, permitindo apenas uma maioria relativa.

A Nova Frente Popular, com 29%, pode terminar com algo entre 190 e 210 cadeiras, contra 149 detidas hoje pelos partidos de esquerda.

Para obter maioria absoluta é necessário um mínimo de 289 assentos, restando portanto, segundo essas pesquisas, pouco mais de 100 cadeiras a serem detidas pelo Renascimento, do presidente, juntamente com seus aliados, o que poderia inviabilizar os planos de Macron de se manter no comando pleno da França.

O avanço da esquerda é importante, mas não tão expressivo quanto o desabamento da coalizão de sustentação do presidente Macron, a Ensemble! (Juntos), que pode perder até quase dois terços de seus deputados.

Com 21% das intenções de voto, segundo o instituto Ifop, o centro macronista, liderado pelo seu partido Renascimento, teria entre 75 e 110 cadeiras, contra 250 da maioria presidencial antes da dissolução, o que poderia inviabilizar os planos de Macron de se manter no comando pleno da França.

Ele pode ser obrigado a ter que viver num governo de coabitação compartilhando o poder com um primeiro-ministro de um partido que se opõe a ele e com uma Câmara dividida, sem uma maioria estável caso a extrema direita não obtenha a maioria absoluta. Nesse caso, haverá uma fragmentação da representação nacional.

Os próprios partidários de Macron pediram que ele se mantivesse discreto nessa campanha e os candidatos da Ensemble! nem colocaram o rosto do presidente em seus kits por receio de sofrer rejeição devido à impopularidade do líder francês.

Segundo Gaspard Estrada, Macron considerou que seu partido chegaria ao segundo turno das eleições legislativas em várias zonas eleitorais graças à desunião da esquerda.

Desta forma, poderia repetir o mesmo que vem fazendo desde 2017, se apresentando como o único capaz de combater a direita radical e assim ganhar, mais uma vez o apoio da esquerda na votação final, como ocorreu nas eleições presidenciais de 2022.

“Mas Macron não discutiu isso com a esquerda antes de dissolver a Assembleia”, ironiza o cientista político.

Diferentemente do Brasil e de vários países, as eleições legislativas na França têm dois turnos. É possível ter uma votação final com três ou mais candidatos.

Para chegar ao segundo turno, é necessário ter 12,5% dos votos dos eleitores inscritos. Quanto maior a participação do eleitorado, aumentam as possibilidades de mais candidatos chegarem ao segundo turno.

Pesquisas estimam que o índice de comparecimento do primeiro turno neste domingo (30/6) será de 66%, bem mais elevado do que o das legislativas de 2022, que foi 49%.

Candidatos menos votados podem desistir do segundo turno para fazer por exemplo uma frente contra o Reunião Nacional, abrindo caminho para candidatos com mais potencial.

Segundo analistas, isso pode efetivamente ocorrer, mas talvez não na proporção imaginada pelo presidente, já que seu partido corre agora o risco de ficar de fora na votação final em vários colégios eleitorais.

Os ecologistas já informaram que vão deixar o segundo turno se estiverem em terceiro lugar e houver um candidato da direita radical.

Mélenchon também disse que espera que nenhum eleitor de seu partido “faça a besteira” de votar no partido de Le Pen, comandado por Jordan Bardella, que poderá ser o próximo primeiro-ministro da França.

A cada eleição, o Reunião Nacional vem ampliando seus resultados.

No passado, o partido começou a atrair camadas populares, como operários, que antes votavam na esquerda. Desempregados e trabalhadores com baixa qualificação representam uma base importante de seus eleitores. O partido se estendeu a outras categorias da população.

Um dos poucos bastiões que ainda resistem à direita radical na França é a capital, Paris.

Bardella, presidente do Reunião Nacional de Le Pen, declarou que não será primeiro-ministro se seu partido não obtiver maioria absoluta no parlamento.

A Constituição francesa prevê que a política estrangeira e a Defesa são atribuições do presidente, que é o chefe das Forças Armadas.

Mas diferentemente de outras raras ocasiões em que houve um presidente da direita republicana e um primeiro-ministro socialista, ou vice-versa, agora, com um governo radical de direita, pela primeira vez no poder, haveria riscos de conflitos em várias áreas, inclusive internacional.

O Reunião Nacional é bastante crítico em relação à União Europeia e tem o hábito de boicotar votações sobre os temas mais variados.

“Corremos o risco de uma situação ainda mais caótica, com um parlamento ingovernável”, diz Jérôme Fourquet, diretor do instituto de opinião Ifop.




Todos os créditos desta notícia pertecem a G1 Mundo.

Por: G1

Esta notícia é de propriedade do autor (citado na fonte), publicada em caráter informativo. O artigo 46, inciso I, visando a propagação da informação, faculta a reprodução na imprensa diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diários ou periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de onde foram transcritos.

Avalie

Post anterior

a-decisao-da-suprema-corte-dos-eua-que-aponta-exageros-em-casos-de-acusados-de-invadir-o-capitolio

G1 Mundo

A decisão da Suprema Corte dos EUA que aponta exageros em casos de acusados de invadir o Capitólio

A decisão também pode afetar um processo contra o ex-presidente Donald Trump. Os juízes decidiram que as acusações de obstrução de um processo oficial deveriam incluir provas de que os réus tentaram adulterar ou destruir documentos. Mais de 350 pessoas foram acusadas de obstruir o trabalho do Congresso — que, na ocasião, era a certificação da eleição presidencial de 2020, com a vitória de Joe Biden. A lei que os […]

today29 de junho de 2024 4

Publicar comentários (0)

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.


0%