Carta a Janja: Algumas dores não são ideológicas
Verônica Bareicha - 12/05/2026 09h44
Carta (Imagem ilustrativa) Foto: Pixabay/Margarita KochnevaTenho total consciência de que este espaço é para falar sobre a língua portuguesa, seus termos, seus detalhes, e juro que sempre tentei fazê-lo. Até nas vezes em que me envolvi em “tretas” do país, ou utilizei fatos cotidianos, o objetivo sempre foi ensinar o bom português. Hoje, peço aos leitores desta humilde coluna licença para não fazê-lo; e à editora do Pleno.News, perdão por abusar do espaço. Mas preciso falar de outra coisa.
Prezada dona Janja,
Eu não sabia que, fora o fato de sermos mulheres, tínhamos algo em comum. Até já citei seu exemplo aqui neste espaço, mas para falar de dicionários… hoje, o faço porque soube que a senhora também teve a sua mãe arrancada da vida por causa da Covid-19. E seu relato me chamou bem de perto, porque muitas vezes usei esse mesmo termo: “arrancada”, para falar da dor de ter perdido minha mãe.
Eu não sei como era o seu relacionamento com a sua mãe, mas sei como era o meu com a minha; a quem eu chamava com muito amor de “minha velhinha”. Inclusive, eu estava bem quietinha esses dias. Foi Dia das Mães e, para não ser dolorido, não entrei nas redes, não postei nada, apenas deixei a data passar. Mas aí, surpresa! Soube que foi sancionado um Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19 e ouvi seu discurso.
De verdade, acho que falamos muito pouco da covid. Não sei como foi para a maioria das pessoas, mas eu fiquei maluquinha naqueles dias. E isso começou bem antes mesmo de mamãe falecer. E depois? Às vezes, tenho a sensação de que seguimos vivendo como loucos, desembestados, nos esforçando para “normalizar” memórias estranhas…
Agora, entendo você, Janja, pois, quando algo de ruim nos acontece, queremos ter um culpado. Queremos nomear alguém para carregar o peso do nosso infortúnio e, então, direcionar sobre essa pessoa toda a nossa raiva, a nossa dor, a nossa desesperança. Mas, em relação à covid… o que fazer diante de um evento natural?
Em seu discurso, a senhora falou de pessoas que incentivaram o não uso de máscaras, a falta de vacinas, a desinformação e tal. Deixa eu contar uma coisa: minha mãe sempre me disse que eu não era todo o mundo. Então, nunca me liguei no que todo o mundo estava fazendo ou dizendo. Eu mesma comprei muitas máscaras para mamãe; e a mantive em casa muitas e muitas vezes para que não saísse e não se contaminasse.
Na verdade, a ironia da coisa toda foi que, aparentemente, o pior da pandemia já havia passado. O mundo voltava ao “normal”. E sim, mamãe havia acabado de tomar duas doses da Coronavac, a vacina brasileira, quando a covid chegou sem aviso, porque doença não avisa mesmo, e todos em casa fomos atingidos.
No primeiro momento, temi pela vida de papai. Ele chegou a ficar internado na UTI. Mas quem acabou indo foi mamãe.
O que quero dizer, dona Janja, é que não dá para culpabilizar ninguém. Infelizmente, passamos por uma pandemia. Milhares de pessoas ao redor do mundo perderam entes queridos.
Naquele primeiro momento, quando ainda pouco se sabia sobre máscaras, álcool em gel e vacinas, recebemos notícias horríveis vindas da Europa. De verdade, a quem esses familiares saudosos hoje culpam?
Não há “culpados”, Janja. Não há pessoas que, “ainda eleitas, estão impunes”. De verdade, eu sei o buraco enorme no peito que é ter alguém que a gente ama demais sendo arrancado de nós.
Depois da partida de mamãe, conheci o caos completo… Hoje, cinco anos depois dela ter ido, é que estou conseguindo voltar à vida. Mas de uma coisa eu tenho certeza: não posso culpar ninguém pela não gerência de um vírus horroroso.
Então, Janja, ponha a mão em sua consciência e se pergunte: sua mãe morreu por culpa de um presidente ou porque o mundo inteiro atravessou uma tragédia impossível de ser controlada?
Dói demais, eu sei. Mas depois de todos esses anos, a dor que ficou em mim não se transformou em militância, mas em saudade. Uma saudade doce, menos desesperada, menos dolorida do que naquele primeiro momento; mas não menos saudade.
A triste realidade é que a pandemia levou milhões de pessoas ao redor do mundo, inclusive pessoas que fizeram tudo “certo”. E sinceramente? Transformar o luto coletivo em disputa política não ressuscita ninguém.
Talvez seja justamente por isso que eu não consiga enxergar a pandemia como bandeira ideológica. Quando penso nela, não penso em governos. Penso na minha mãe; na falta que ela faz; no silêncio que ficou. Penso em quantas famílias carregam a mesma saudade que eu.
Então, me desculpe, Janja, mas algumas dores são humanas demais para caber em discursos políticos.
Oro para que Deus conforte a senhora, assim como oro por todos aqueles que perderam seus amados naqueles dias terríveis e inesquecíveis. Até porque, no fim das contas, a covid nunca perguntou em quem as pessoas votavam antes de entrar em suas casas.
Verônica Bareicha ama palavras e letrinhas desde sempre. Há vinte e tantos anos atua como revisora, redatora e ghostwriter. É pós-graduanda em Jornalismo Digital pela FAAP; pós-graduada em Mercado Editorial pela PUC-Rio e graduada em Letras, pelo Unasp-EC. Deseja neste espaço compartilhar o amor e dicas da língua portuguesa de forma leve, bem-humorada e divertida.
* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News. Comunicar erro Comunicar erroSe você encontrou erro neste texto, por favor preencha os campos abaixo. Sua mensagem e o link da página serão enviados automaticamente à redação do Pleno.News, que checará a informação.
Nome Completo E-mail Telefone Descrição do erro WhatsAppEntre e receba as notícias do dia
Entrar no Canal Telegram Entre e receba as notícias do dia Entrar no Grupo O autor da mensagem, e não o Pleno.News, é o responsável pelo comentário.