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Por que escrevemos herói com h?
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Por que escrevemos herói com h?

Por Verônica Bareicha
21 de April, 2026
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Imagem da Notícia: Por que escrevemos herói com h?

Verônica Bareicha - 21/04/2026 10h32

Nesta terça-feira (21), celebramos o feriado de Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira, morto enforcado e reconhecido como herói apenas muitos anos depois. Imagino que quando falamos deste herói brasileiro que lutou contra o “sistema”, surjam duas questões. A primeira é quase automática: por que escrevemos herói com “h”, se essa letra nem mesmo é pronunciada?

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Confesso que gostaria de dar a esse “h” um significado grandioso. Mas a explicação é simples: no latim — língua que deu origem ao português — o “h” tinha som e importância, assim, permaneceu. Então, a palavra “heros”, por sua vez originada do grego “hḗrōs”, se referia a um nobre influente. O termo vinha da mitologia, e designava os semideuses, conhecidos por seus feitos extraordinários.

Hoje, segundo o Houaiss, herói tem alguns significados. Entre eles, o indivíduo notabilizado por coragem, tenacidade, abnegação e magnanimidade; alguém capaz de suportar, de forma exemplar, circunstâncias incomuns. Isso quer dizer que Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, foi alguém com essas nobres qualidades. Então, surge a segunda questão: por que esse apelido?

De acordo com historiadores, o moço aprendeu com um tio o ofício de dentista prático. Logo, muitos recorriam a ele quando precisavam de tratamento dentário; e, literalmente, ele “tirava dentes”. Daí o apelido. Agora, mais do que isso: Tiradentes também confeccionava próteses com ossos de animais e arame, permitindo que as pessoas continuassem a comer e a sorrir. Pra mim, esse detalhe revela muito sobre esse homem.

Mas veja, quando criança, sempre achei essa história fantástica. Até porque não deixa de ser curioso que Tiradentes seja o único brasileiro a ter um feriado nacional em sua memória. E por que seria?

Com o tempo, e novas informações, entendi que nada era tão simples quanto imaginei. Mas ainda assim penso que é importante relembrarmos o episódio. Veja, Joaquim José da Silva Xavier era um homem simples e batalhador. Teve diversas profissões, não apenas a de dentista. Embora possuísse alguns bens, acumulava dívidas com a Coroa Portuguesa, que taxava tudo o que era extraído, consumido ou produzido por aqui.

Nesse ponto, havia um contexto de cansaço — quase que coletivo — aos mandos e desmandos da Coroa, ainda um sentimento de “basta, já chega!” e a teoria Iluminista ganhava força mundo afora. Foi a junção disso tudo que fez com que ele e outros homens passassem a sonhar com a independência.

Claro que não havia ainda um Brasil como o conhecemos hoje, nem um senso consolidado de pátria; então, naquele momento, o desejo foi apenas o de libertar Minas Gerais.

O grupo era formado por intelectuais, fazendeiros, padres e militares e acabou sendo traído por um deles, o coronel Joaquim Silvério dos Reis. As motivações dele são discutidas até hoje, mas o desfecho é conhecido.

Entre todos, Tiradentes era o mais popular. Circulava entre diferentes camadas sociais e tinha facilidade de comunicação. Acabou sendo apontado como líder; ainda que essa posição não fosse, necessariamente, a realidade.

Como resultado, ele foi condenado e enforcado em praça pública. Teve o corpo esquartejado e exposto pelo caminho entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, como forma de intimidação. Sua cabeça foi fincada num poste na entrada de Vila Rica, e sua casa, destruída e salgada, para que nada mais nascesse naquele lugar. Era para ser o fim; o apagamento completo de um homem que ousou se levantar contra o sistema.

Mas a história, às vezes, gosta de contrariar. Quase cem anos depois, com a Proclamação da República, o Brasil precisava construir sua identidade nacional. Necessitava de algo que fizesse sentido a todos, na luta por uma pátria. Naquele momento, Tiradentes ressurgiu; não como réu, mas como herói.

Foi então elevado à condição de patrono cívico da nação, também das polícias civil e militar e da odontologia, e passou a ocupar um lugar que, provavelmente, ele jamais tenha imaginado.

Penso que é aqui que passado e presente se encontram. Então, volto à questão: por que usamos “h” para herói se essa letra nem soa?

Entendo que heróis são assim mesmo; pessoas com habilidades especiais, escolhidas pelo tempo e pelas circunstâncias que se levantam contra sistemas. Talvez, em um primeiro momento, elas nem soem. Talvez, sejam apelidadas de malucas ou excêntricas. Mas ainda assim se erguem e lutam. Sustentam sua posição com coragem, integridade e custo pessoal. E mesmo que acusadas, silenciadas, e “tiradas de circulação” estão vivas em nosso coração e nos impulsionam a sermos pessoas melhores. Sempre.

Verônica Bareicha ama palavras e letrinhas desde sempre. Há vinte e tantos anos atua como revisora, redatora e ghostwriter. É pós-graduanda em Jornalismo Digital pela FAAP; pós-graduada em Mercado Editorial pela PUC-Rio e graduada em Letras, pelo Unasp-EC. Deseja neste espaço compartilhar o amor e dicas da língua portuguesa de forma leve, bem-humorada e divertida.

* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News. Comunicar erro Comunicar erro

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