G1 Mundo

O rádio como instrumento de propaganda na Alemanha nazista

today19 de agosto de 2023 9

Fundo
share close

Os nazistas reconheceram desde cedo o enorme potencial que o rádio tinha para influenciar a população. E eles logo começaram a agir para que as ondas do rádio – e a propaganda do novo regime – chegassem aos quase 70 milhões de alemães.

Poucas semanas depois de Hitler chegar ao poder, o ministro da propaganda, Joseph Goebbels, forçou gigantes da tecnologia alemã como a Telefunken, Loewe e Blaupunkt a colocar no mercado um receptor economicamente acessível – não importando o preço de produção, o que foi especialmente difícil para empresas menores.

Nascia o Volksempfänger, ou “Receptor do Povo”. O primeiro modelo foi lançado em agosto de 1933, poucos meses após a chegada de Hitler ao poder. O primeiro modelo trazia a designação VE 301 – sigla da expressão Volksempfänger mais um número que fazia referência a 30 de janeiro, data da tomada do governo pelos nazistas.



Seu preço era de 76 Reichmarks (quase 400 euros atuais), ou o equivalente a duas semanas da média salarial da época, o que o tornava acessível para a maioria dos lares da Alemanha.

Em 1938, um modelo ainda mais barato, o DKE 1938, sigla para “Pequeno Receptor Alemão”, foi lançado por apenas 35 Reichmarks, quase o equivalente a uma semana de salário. Esse modelo logo ganhou o apelido de “Focinho de Goebbels”.

DKE 38, construído de 1938 a 1944 — Foto: Wikicommons

Negócio lucrativo para o regime

O Receptor do Povo VE 301 foi oficialmente apresentado ao público na Grande Exposição de Rádio Alemã de Berlim em 18 de agosto de 1933. As primeiras 100 mil unidades foram vendidas durante o evento.

No início de 1932, havia apenas quatro milhões de ouvintes de rádio na Alemanha. Em meados de 1939, o número havia mais do que triplicado. Isso também foi um bônus para o regime: já que o Estado cobrava dos proprietários de rádio um imposto mensal – um sistema que ainda vigora em um formato parecido na Alemanha com a TV. Mais domicílios com rádios significavam mais arrecadação.

Até o pico no número de ouvintes em 1943, cerca de 16 milhões de proprietários pagavam dois Reichsmark mensais. E a maior parte desse valor era canalizado para o Ministério da Propaganda de Goebbels, cujo orçamento era quase todo bancado pela taxa.

Braço direito de Hitler, Goebbels era ministro da Propaganda do nazismo

Braço direito de Hitler, Goebbels era ministro da Propaganda do nazismo

Como toda ditadura, o regime nazista mantinha um controle firme sobre a programação das estações de rádio, interferindo nos mínimos detalhes,

Inicialmente, as estações eram independentes na Alemanha, mas na década de 1920 diversas redes regionais foram reunidas sob o guarda-chuva da Reichs-Rundfunk-Gesellschaft (RRG), ou Corporação de Radiodifusão do Reich. Quando os nazistas tomaram o poder, os diretores da RGG foram substituídos por quadros do partido nazista e o poder das redes regionais foi enfraquecido. A rede acabou sendo completamente estatizada. Em 1934, todas as rádios do país estavam alinhadas com o novo regime.

Em março de 1933, Goebbels já havia deixado claro qual deveria ser a linha adotada pelo novo estado totalitário. “Não fazemos segredo disso: o rádio é nosso e de mais ninguém. E vamos colocar o rádio a serviço da nossa ideologia, e nenhuma outra terá voz aqui.”

Existem apenas duas opções de programação no mundo ideal de Goebbels: o Deutschlandsender e o Bezirkssender. As transmissões começam com a saudação “Heil Hitler”. O próprio ditador, é claro, era ouvido com muita frequência. “Toda a Alemanha ouve o Führer com o Receptor do Povo”, diz um cartaz de propaganda da época. Todos os principais discursos de Hitler são transmitidos na íntegra.

Entretenimento contra más notícias

O rádio de propaganda tornou-se particularmente importante com o início da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939. A música marcial substituiu a música dançante e as rádios passaram a inundar o público com relatos constantes – cada vez mais manipulados – da situação do front. Mas também havia muito entretenimento para distrair a população sobre as perdas de soldados, o bombardeio de cidades alemãs e a situação cada vez mais difícil da população civil. Concertos de estrelas do entretenimento para os membros da Wehrmacht ficam particularmente populares.

Após a batalha perdida de Stalingrado no início de 1943, ficava cada vez mais claro que a Alemanha nazista seria derrotada. O rádio foi mais uma vez arregimentado para tentar manter a moral da população. Em um discurso no Berlin Sportpalast em 18 de fevereiro de 1943, que foi transmitido para todo o país, Goebbels perguntou retoricamente ao público: “Vocês querem uma guerra total? Vocês querem, se necessário, mais total e radical do que podemos imaginar?” – recebendo um sim estrondoso e aplausos entusiasmados.

Penalidades pesadas para ouvintes de rádios estrangeiras

Mas a verdade era difícil de ser suprimida. Conforme ficava claro que a situação estava se deteriorando, os alemães passaram a acreditar cada vez menos na rádio nazista. Em vez disso, muitos passaram a ouvir secretamente “estações inimigas” estrangeiras, como o serviço em língua alemã da BBC – algo estritamente proibido sob pena de punições severas, como a pena de morte.

Os receptores de rádio baratos promovidos pelo regime como o VE 301 ou o DKE 1938 tinham pouca capacidade de recepção. Eram projetados para receber apenas transmissões da estação mais próxima, na teoria barrando ondas de rádios estrangeiras. Mas era possível contornar a limitação com antenas extras improvisadas, especialmente após a BBC potencializar o alcance de suas torres de retransmissão durante o conflito.

Thilo Wobst, que costumava ouvir “estações proibidas” durante a guerra, relatou ao Portal das Testemunhas Contemporâneas do Museu de História da República Federal da Alemanha a tensão envolvida nessa atividade. “Ouvíamos os programas, mas não dizíamos nada para ninguém. Minha mãe dizia: ‘Ou a caixa vai ser jogada fora ou você se cala’.”

O rádio já havia desempenhado um papel crucial como ferramenta de propaganda no início da Segunda Guerra Mundial. Em 1º de setembro de 1939, o público alemão ouviu sobre um suposto ataque polonês à estação de rádio de Gleiwitz, na Alta Silésia, então território alemão. Mas era tudo mentira, uma fake news do regime. Ainda assim, no mesmo dia, o ditador Adolf Hitler usou o falso episódio para afirmar à população que a Polônia havia atacado a Alemanha e que o regime precisava reagir.

A guerra começou então com uma mentira espalhada pelo rádio. As inverdades seriam espalhadas lá até o fim. Em 1º de maio de 1945, a rádio do regime informou que Hitler, em seu posto de comando na Chancelaria do Reich, havia morrido em combate, lutando pela Alemanha até o último suspiro contra o bolchevismo. Na verdade, o ditador cometeu suicídio nas profundezas de um bunker.

Alguns dias depois, a guerra finalmente acabou – e com ela a máquina de propaganda nazista. O novo governo militar americano inicialmente proibiu as transmissões de rádio alemãs. Nos anos seguintes, os aliados ocidentais EUA, Reino Unido e França estabeleceram novas estruturas de transmissão na Alemanha Ocidental. Desta vez, as estações são estabelecidas com uma estrutura administrativa independente e descentralizada, para que elas nunca mais fossem colocadas a serviço de qualquer governo.

Nos territórios sob controle soviético, porém, o novo governo da Alemanha Oriental manteve uma estrutura centralizada similar à da era nazista, com forte controle do regime. Foi apenas nos anos 1990, após a reunificação das duas Alemanhas, que o leste também passou a contar com uma rede de rádios independente similar ao dos estados do oeste.




Todos os créditos desta notícia pertecem a G1 Mundo.

Por: G1

Esta notícia é de propriedade do autor (citado na fonte), publicada em caráter informativo. O artigo 46, inciso I, visando a propagação da informação, faculta a reprodução na imprensa diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diários ou periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de onde foram transcritos.

Avalie

Post anterior

a-colombiana-de-18-anos-que-fazia-trancas-em-vilarejo-e-hoje-e-modelo-exclusiva-da-louis-vuitton

G1 Mundo

A colombiana de 18 anos que fazia tranças em vilarejo e hoje é modelo exclusiva da Louis Vuitton

Fora isso, seus 1,75m de altura também já chamavam a atenção em desfiles e concursos de beleza em sua escola e no bairro. Mas ninguém imaginava que, com apenas 18 anos, Valentina estaria desfilando para a marca de luxo mais vendida do mundo. A Louis Vuitton é bastante conhecida, mas distante para a grande maioria dos tumaqueños. A única loja dessa marca na Colômbia fica em Bogotá, a mais de […]

today19 de agosto de 2023 9

Publicar comentários (0)

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.


0%