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A proeza da engenharia da Noruega que conecta o sul do país através de fiordes, geleiras e outras maravilhas naturais

today14 de fevereiro de 2023 9

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Venho explorando a Noruega há mais de uma década e já retornei pelo menos uma dúzia de vezes desde minha primeira viagem para o país. Já estive no ponto continental mais ao norte da Noruega (Knivskjelodden) e no seu extremo sul (Lindesnes Fyr, onde meus óculos de sol voaram da minha cabeça, levados para o mar durante um vendaval).

Já vi morsas e baleias. Caminhei pelas geleiras no arquipélago de Svalbard e fiquei ao lado da única palmeira do país, na cidade litorânea de Kristiansand. Presenciei a aurora boreal no inverno e participei de uma festa durante o sol da meia-noite no verão.

Mas, por razões que desafiam a compreensão, eu nunca havia viajado pela ferrovia Oslo-Bergen. E, quanto mais penso sobre isso, mais estranho me parece. Afinal, ela é frequentemente relacionada entre as viagens de trem mais bonitas do mundo.



Agora, finalmente, eu iria fazer a viagem.

Fiz minha pesquisa antes de viajar. Eu sabia, por exemplo, que, em um dia curto de novembro, somente um dos cinco horários de partida – 8h25 da manhã – permitiria que eu fizesse todo o trajeto de 496 km, com duração de seis horas e meia, durante o dia. E sabia também que deveria reservar um assento na janela do lado esquerdo do trem (ou direito, se você estiver saindo de Bergen), para ter a melhor visão do passeio.

Quando o trem deixou a plataforma da estação em Oslo, senti rapidamente que, mesmo sem perceber, eu ansiava por aquele momento há muito tempo.

A ferrovia Oslo-Bergen atravessa alguns dos cenários mais fascinantes da Noruega — Foto: GETTY IMAGES

No começo, não havia nada que sugerisse as emoções que estavam à minha espera. Mas, à medida que o trem se afastava do centro da capital, surgiam pequenos vislumbres: os barcos de recreação de Oslofjord; as elegantes casas de madeira nas encostas das montanhas; e as placas que indicavam a península de Bygdøy, onde os museus contam histórias épicas de exploração e do passado dos vikings.

Depois de deixar para trás as cidades de Asker e Sandvika, o trem ganhou velocidade, cruzou o fiorde e passou rapidamente pela florescente cidade-dormitório de Drammen, com seus morros ocupados por belas casas trazidas pela expansão urbana.

Não muito longe, a oeste de Drammen, a linha tomou o rumo norte. Esta linha ferroviária foi tão bem projetada que mudamos de direção quase sem perceber. Em um minuto, estávamos viajando para o oeste e, no minuto seguinte, estávamos nos dirigindo para o norte.

Foi o próprio cenário quem se encarregou de anunciar a mudança de direção. Subitamente, os morros ficaram mais altos e os prados alpinos intocados e encostas cobertas de pinheiros rodeavam vales profundos, marcados por pequenas vilas e casas rurais isoladas à beira de precipícios.

Gradualmente, surgiam as mudanças. O trem reduzia a velocidade, sugerindo sutis aumentos de altitude.

Os trilhos cruzam o inóspito planalto de Hardangervidda, a mais de 1 mil metros acima do nível do mar — Foto: GETTY IMAGES

Entramos em um vale à beira de um belo fiorde. Saímos dele através de uma passagem bem acima do nível do vale. Olhando de volta para onde começamos, tudo parecia estar terrivelmente mais abaixo.

Em seguida, sem prévio aviso, saímos de um túnel para as altas neves de Hardangervidda, um enorme planalto montanhoso.

“Adoro olhar para o rosto das pessoas quando elas fazem esta viagem pela primeira vez”, conta Jørgen Johansen, que atende o público para as autoridades ferroviárias da Noruega há mais de três décadas. “Nunca me canso da vista, mas o olhar de admiração no rosto das pessoas é o que mais aprecio.”

Com o trem agora se movimentando sobre o maior planalto da Europa – Hardangervidda tem cerca de 6,5 mil km² e altitude média de mais de 1 mil metros sobre o nível do mar –, a viagem fica um pouco diferente. Pela primeira vez, comprovamos que este é o tronco ferroviário mais alto do norte da Europa e também uma maravilha da engenharia.

Hardangervidda é uma das formações geológicas mais antigas do norte do continente europeu. O planalto, seus vales e contornos foram moldados milênios atrás pelas geleiras, que levavam os resíduos gelados em direção ao mar.

O trajeto que o peso do gelo levou milhares de anos para percorrer na inexorável marcha do tempo, os construtores de estradas e ferrovias da Noruega conseguiram em questão de décadas.

A viagem de trem de 496 km leva seis horas e a ferrovia é reconhecida como uma maravilha da engenharia — Foto: GETTY IMAGES

Quando a linha de Bergen – Bergensbanen, como às vezes é chamada – foi estudada pela primeira vez em 1872, a Noruega era um posto avançado empobrecido de uma Europa mais próspera. A descoberta do petróleo, que transformaria o país, só ocorreria cerca de um século depois.

Naquela época, havia muitas discussões sobre qual seria a origem do dinheiro e o projeto foi iniciado várias vezes. A exportação de arenques e sardinhas mantinha o orçamento nacional norueguês equilibrado, mas não havia excedentes suficientes para projetos de infraestrutura daquela escala.

Ainda assim, os trabalhos na linha começaram em 1875 e, em 1909, ela estava concluída, com suas 39 estações (algumas delas somente para trens locais – o serviço intermunicipal tem 21 paradas) conectadas por uma linha tortuosa através de um dos cenários mais desafiadores que você pode imaginar.

Hardangervidda é notoriamente inóspita. Os caprichos das súbitas mudanças de tempo ali são apenas um dos desafios, entre muitos outros enfrentados pelos construtores da ferrovia.

Para encontrar o caminho mais direto possível e fazer a linha férrea funcionar, foram construídos 180 túneis – um a cada 2,75 km de trilhos.

“A ferrovia Oslo-Bergen conta uma história muito norueguesa”, segundo me disse mais tarde, em Bergen, a historiadora do transporte norueguês Lisbeth Nielsen.

“Existe sempre algo no caminho quando você se movimenta pela Noruega”, ela conta. “Se deixarmos que as montanhas ou os fiordes nos impeçam, nunca chegaremos a lugar nenhum. Por isso, eles construíram túneis, rodovias e ferrovias que parecem impossíveis para as outras pessoas. É parte do que nos faz noruegueses.”

A estação de Finse é a mais alta da linha, a 1.222 metros acima do nível do mar — Foto: GETTY IMAGES

A estação de esqui de Geilo, a 794 km de altitude, fica no meio da viagem. Quando chegamos àquele ponto, o mundo que estamos atravessando não tem nenhuma semelhança com o que havia antes dele. O cenário está coberto de neve profunda e os esquiadores nórdicos saem do trem esquiando pela plataforma e sobre as montanhas.

Em Ustaoset (990 m de altitude) e seu lago gelado rodeado de cabanas, as galhadas de uma rena pareciam perfurar o céu azul. O maior grupo de renas selvagens da Noruega, com 10 mil indivíduos, ainda vagueia em liberdade por Hardangervidda.

Chegamos a Finse – a estação mais alta da linha, 1.222 metros acima do nível do mar – e um grupo de excursionistas em roupas pesadas de inverno embarca no trem, com gelo ainda grudado nas suas barbas e botas.

“Esta é a minha parte favorita da viagem”, afirma Johansen. “Tudo é emoção e, aqui em Hardangervidda, os vagões ficam quase em silêncio.”

Ele tinha razão. Ninguém abria a boca e, quando o locutor quebrou o silêncio para anunciar que estávamos nos aproximando da estação de Myrdal, eu não fui o único a me surpreender com o súbito som da voz humana.

A chegada a Bergen: ‘um final propício para uma viagem fantástica’ — Foto: GETTY IMAGES

Em Myrdal (867 m de altitude), um trem esperava em um ramal que é uma das linhas férreas mais íngremes do mundo.

De Myrdal até Flåm, descendo pelas margens do Aurlandsfjord (um braço interno do Sognefjord), os trilhos se contorcem e mergulham através de 20 túneis. A linha desce 866 metros em apenas 20 km, caindo em inclinação de 1:18. Parece que não existe nenhum lugar que um trem norueguês não possa atravessar.

Se a subida até Hardangervidda havia parecido gradual, a descida até a cidade de Voss pareceu rápida demais.

A neve diminuiu. A terra ficou verde. E os rios, lagos e fiordes agora eram claros e azuis. Havíamos chegado a mais uma Noruega, onde a ferrovia abraçava um fiorde atrás do outro.

Como havia ocorrido desde que saímos de Oslo horas atrás, a ferrovia conquistou a desafiadora topografia e se rendeu a ela. As curvas ao lado dos fiordes foram o momento mais prazeroso de toda a viagem.

Por fim, chegamos a Bergen. O trem serpenteou entre os sete morros e sete fiordes daquela cidade graciosa. Construções de madeira pintadas de branco penduravam-se nas encostas acima do centro da cidade e folhas de outono davam um toque dourado por todo o caminho, até a imponente estação de trem com seus murais.

Foi um final propício para uma viagem fantástica. E, na empolgação da chegada, senti-me como se estivesse na Noruega pela primeira vez.




Todos os créditos desta notícia pertecem a G1 Mundo.

Por: G1

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