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Aluno espancado em ‘banheiro da morte’ diz que ‘grupo do terror’ atuava em escola e vai deixar unidade

today23 de abril de 2024 7

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“Me senti com medo e desprotegido naquela escola”, desabafou o menino, que vai mudar de unidade e se mostrou assustado com o que viveu e com a morte de Carlos Teixeira na última terça-feira (16). O colega foi pisado nas costas no dia 9 de abril e, com dificuldades para respirar, foi internado na Santa Casa de Santos, onde sofreu três paradas cardiorrespiratórias e não resistiu.

Segundo o adolescente, que terá a identidade preservada, as agressões aconteciam no chamado “banheiro da morte”, onde não haviam câmeras de monitoramento.

“Tinha até um grupinho de alguns moleques, que era chamado ‘grupo do terror’. Já ouvi muitas coisas sobre esse banheiro, e era conhecido assim mesmo, como ‘banheiro da morte”, lembrou.



Vídeo mostra adolescente sendo agredido em escola no litoral de SP

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A mãe Tatiane Boeno, de 43 anos, afirmou que o filho será transferido de escola em breve. “As famílias estão com medo de mandar [as crianças] para lá. Estou decidida. O meu filho não estudará mais lá”.

A mulher acrescentou que, apesar de algumas famílias saberem sobre os riscos envolvendo as agressões no “banheiro da morte”, o caso envolvendo Carlos Teixeira mudou a percepção dos parentes sobre a segurança no local.

“O meu filho, por exemplo, foi agredido lá, mas consegui resolver a tempo [ela alegou ter conversado com os agressores na saída da escola], mas essa mãe [de Carlos Teixeira] infelizmente não teve a mesma sorte”, finalizou Tatiane.

Menino de 14 anos agredido

Tatiane Boeno afirmou que o filho foi espancado duas vezes em um único dia dentro da escola onde estava Carlos. As agressões, segundo ela, aconteceram em um dos banheiros e em uma ‘sala de cinema’ da unidade.

De acordo com ela, o menino ficou com hematomas e arranhões pelo corpo. “O sentimento é de revolta e medo”, desabafou Tatiane.

“Esse banheiro é perigosíssimo. Todas as brigas são resolvidas lá, pois não tem câmera. Eles [os agressores] esperam o aluno que querem fazer bullying entrar e, então, atacam em bando. São sempre os mesmos”.

Tatiane descobriu sobre as agressões no mesmo dia em que aconteceram, pois o filho tentou sair da escola sem ser visto. “Ficou com medo porque o ameaçaram de represália na saída”, lembrou. “Mas foi ‘pego’ e levado para a diretoria”, contou ela.

Segundo a mãe, o filho a contou ter sido espancado na escola. Tatiane disse ter acionado a diretoria, que afirmou não ter registrado agressões ao adolescente naquele dia.

Por fim, ela contou ter ‘resolvido’ o problema comparecendo à escola na hora da saída e conversando diretamente com os agressores do filho. “Pediram desculpas e disseram que não fariam mais. Desde então, converso todos os dias com ele para ver se o agrediram novamente”.

Secretaria de Educação de SP

Em nota, a Seduc-SP afirmou que repudia todo e qualquer ato de violência e descriminação, dentro ou fora da escola. A pasta acrescentou que também não houve registro de reclamação por parte de responsáveis pelo estudante no mesmo período.

“Reforçamos que sempre que um caso de violência ou bullying é identificado nas unidades de ensino da rede estadual, a equipe gestora aciona os responsáveis e a rede protetiva que inclui Ronda Escolar e Conselho Tutelar, quando necessário, além do Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar (Conviva-SP)”, complementou a Seduc-SP.

Carlos Teixeira, de 13 anos, foi agredido por estudantes em Praia Grande (SP) — Foto: Arquivo Pessoal

O adolescente morreu na terça-feira (16), na Santa Casa de Santos. O pai dele, Julisses Fleming, afirmou que o filho era saudável e acredita que a morte aconteceu em decorrência da agressão sofrida. Segundo apurado pelo g1, o caso foi registrado na Polícia Civil e a causa da morte ainda está sendo investigada.

Julisses afirmou que os médicos disseram que a suspeita era de que a causa da morte seria uma infecção no pulmão. Em nota, a Santa Casa de Santos confirmou a transferência da UPA Central, mas disse não ter autorização para dar mais informações sobre o caso.

O g1 teve acesso à declaração de óbito de Carlos Teixeira, que apontou a causa da morte. A equipe de reportagem apurou também que o documento servirá como ‘base’ para o atestado de óbito – que pode apontar a morte em decorrência de agressões – e que leva de 30 a 90 dias para ficar pronto (confira, mais adiante, a explicação de um médico sobre broncopneumonia bilateral).

O estudante sofria bullying com frequência e já tinha sido agredido em outras oportunidades. Um vídeo obtido pela equipe de reportagem mostra um dos episódios em que o garoto foi vítima dentro da unidade escolar (assista acima).

Menino morto após ser agredido em escola chorou em casa relatando caso ao pai — Foto: Reprodução

Minutos antes de Carlos morrer, no entanto, o homem contou ao g1 que precisou acalmá-lo. O adolescente passou a dizer repetidamente que tinha medo de partir. “Me sinto acabado e destruído”, afirmou o pai.

Declaração de óbito de adolescente em Praia Grande (SP) traz como causa da morte uma broncopneumonia bilateral — Foto: Reprodução

Ao g1, o médico clínico Carlos Machado explicou o que é uma broncopneumonia bilateral. Segundo ele, trata-se de uma infecção ‘mais ampla’ do que uma pneumonia, que normalmente é causada por vírus e pode se agravar por uma bactéria nos dois pulmões.

Antes da declaração de óbito, a pedido do g1, Carlos Machado e o também médico clínico Marcelo Bechara analisaram o caso com base nas próprias experiências profissionais e nas informações passadas pela equipe de reportagem.

Ambos afirmaram que o excesso de peso nas costas pode ter levado a um trauma — lesões causadas por um evento traumático externo ao corpo e que acontece de forma inesperada.

De acordo com Carlos Machado, o trauma pode ter sido uma fratura ou esmagamento da vértebra na coluna cervical, torácica e até na costela.

“Se ele estiver com uma dessas lesões, […] podia estar furando o pulmão, o que dificulta a respiração e, respirando menos, faz com que tenha secreção acumulada, que é uma infecção pulmonar”, afirmou o profissional.

Marcelo Bechara acrescentou que, pelo mesmo motivo, ocorre uma parada cardiorrespiratória. “O excesso de peso nas costas podem ter levado a um trauma que pode levar a um pneumotórax […], [quando] o pulmão não consegue ventilar e uma hora chega a parada cardíaca mesmo”, disse ele.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) afirmou que o caso foi registrado como morte suspeita e é investigado pelo 1º Distrito Policial (DP) de Praia Grande. Conforme apurado pelo g1, o corpo de Carlos passará por necropsia — procedimento médico que examina a causa da morte.

Seduc-SP, sobre Carlos Teixeira

A Secretaria de Educação do Governo de São Paulo informou que o vídeo da agressão foi gravado no dia 19 de março. “A Pasta repudia toda e qualquer forma de agressão e de incitação à violência dentro ou fora das escolas. Na época, ao tomar ciência do caso apresentado, a gestão escolar acionou Conselho Tutelar e os responsáveis do aluno. Também registrou o ocorrido no aplicativo do Conviva”.

A Seduc ainda afirmou que lamenta profundamente o falecimento do estudante. “A Diretoria de Ensino de São Vicente instaurou uma apuração preliminar interna do caso e colabora com as autoridades nas investigações”.

A Prefeitura de Praia Grande disse que lamenta profundamente a ocorrência com um aluno da Escola Estadual Júlio Pardo Couto, no Bairro Nova Mirim. A Administração municipal se solidariza com os familiares e amigos do jovem.

A Prefeitura solicitou junto a secretaria de Estado uma apuração completa dos fatos, já que a unidade de ensino é estadual. A administração municipal explicou ainda que também já está analisando todos os procedimentos adotados no atendimento efetuado no pronto-socorro da Cidade.

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Por: G1

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