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Carolina, a rainha consorte da Inglaterra barrada da própria coroação pelo rei

today5 de maio de 2023 3

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Ela usava um sobretudo prateado, um lenço roxo e uma tiara bandeau de diamantes com penas.

Era o dia da coroação do rei George IV e, por direito, dela como sua rainha consorte.

“Soldados em todos os lugares apresentaram armas com a maior prontidão e respeito”, relatou um jornal, “e mil vozes mantiveram um grito constante de ‘A Rainha! A Rainha para sempre!'”



Mas, quando ela tentou entrar, as portas foram fechadas.

O espetáculo foi doloroso e escandaloso, mas não inesperado. O marido havia barrado a entrada dela, e não por causa de uma desavença doméstica passageira.

A relação foi um desastre desde o primeiro momento em que se conheceram, desencadeando uma guerra que dividiu o reino.

Quando George, então príncipe de Gales, escolheu a prima dele como esposa em 1794, ele o fez porque estava afundado em dívidas e o casamento era a única saída.

Ele era extravagante em seus gostos por bebidas, drogas, jogos de azar e mulheres. E a generosa quantia que recebia para cobrir suas despesas não era suficiente para satisfazê-lo.

Mas ele também era inteligente, amante da arte, da arquitetura inovadora e do design eclético, vestia-se com requinte incomparável e estava sempre perfumado.

Naturalmente encantador e socialmente hábil, ele sabia ser cortês e deixar os convidados à vontade.

Mas nenhuma dessas qualidades brilhou no dia em que conheceu sua futura esposa.

Uma imagem romântica, irreal, foi passada ao público na época. — Foto: Getty Images via BBC

A princesa Carolina, filha da irmã do pai dele, o rei George III, e neta de Frederico, o Grande, havia chegado da província alemã de Brunswick.

Quando ela foi apresentada ao noivo, foi ódio à primeira vista.

Ele a achou tão desagradável que imediatamente após cumprimentá-la, ele se virou e saiu.

Perplexa, ela exclamou: “Meu Deus! O príncipe é sempre assim?”. E acrescentou: “Ele é muito gordo e de forma alguma tão bonito quanto o retrato dele”.

Três dias depois, o príncipe de Gales apareceu tão bêbado em seu casamento que os amigos dele tiveram que segurá-lo durante a cerimônia.

Mais tarde, a própria Carolina contou que “ele passou a maior parte da noite nupcial diante da lareira, onde desmaiou e eu o deixei”.

George, por sua vez, diria ao conde de Malmesbury que só tiveram relações sexuais três vezes. Ele ainda jurou que nunca mais a tocaria porque a aparência e a higiene da esposa o enojavam.

A situação de Carolina era deplorável.

Além da rejeição brutal do marido em um reino que lhe era estranho, ela logo descobriu que havia se casado com um homem que já havia se casado secretamente com outra mulher 10 anos antes.

Carolina era filha da irmã do rei George III e neta de Frederico, o Grande. — Foto: Getty Images via BBC

Maria Fitzherbert era uma bela viúva que inicialmente tentou rejeitar o príncipe, mas ele a convenceu, chegando a ameaçar suicídio se ela não o aceitasse.

A união clandestina violava a lei. Fitzherbert era católica, então o casamento impediu que George herdasse a coroa.

O que o salvou de tal destino foi a Lei dos Casamentos Reais, que o proibia de se casar sem o consentimento do rei antes dos 25 anos, por isso o matrimônio foi considerado nulo.

Fitzherbert, apesar de ser a companheira dele por anos, poderia ser convenientemente afastada.

Na verdade, antes de Carolina aparecer em cena, ela havia sido temporariamente afastada dos afetos do príncipe por uma nova amante, a sedutora Frances Villiers, condessa de Jersey, 10 anos mais velha e mãe de 10 filhos.

A nova princesa de Gales também descobriu isso rapidamente, pois seu marido a impôs como dama de companhia.

Segundo o duque de Wellington, foi ela quem sugeriu que George se casasse com a princesa de Brunswick, escolhendo deliberadamente uma dama com “modos pouco delicados, um caráter indiferente e uma aparência não muito atraente, na esperança de que a aversão por sua esposa garantisse a constância de sua amante”.

Caricatura da época comentando os casos conjugais do príncipe e sua esposa Caroline de Brunswick. — Foto: Getty Images via BBC

Da relação profundamente infeliz do casal real nasceu uma filha: a princesa Charlotte Augusta de Gales, futura herdeira do trono britânico.

Três dias após o parto da princesa, George ditou um testamento que se tornou público declarando Fitzherbert sua única esposa verdadeira e herdeira de seus bens.

Assombrada pela onipresença de Lady Jersey e rodeada por seres hostis que usavam sua fala e ações para ridicularizá-la, Caroline ficou aliviada ao aceitar uma separação não oficial sob a qual, embora morasse no mesmo lugar, ela só veria o príncipe em raras ocasiões formais.

Mas isso não bastava: a repulsa que George sentia por ela crescia incompreensivelmente.

“Prefiro ver sapos e cobras rastejando na minha comida do que sentar na mesma mesa que ela”, disse ele em uma ocasião. Em outra, ele a descreveu como “a desgraça mais vil com a qual este mundo já foi amaldiçoado”.

Logo depois, eles abandonaram toda pretensão de uma vida juntos.

Os termos da separação foram acertados numa troca de cartas em abril de 1896, onde George escreveu: “O resto das nossas vidas transcorrerrá numa tranquilidade ininterrupta”.

Embora não tenha sido um divórcio, o casamento acabou.

A princesa de Gales mudou-se para Montague House, onde criou uma corte alternativa frequentada por personagens interessantes que logo se destacariam em seus respectivos campos.

Um deles foi o jovem autor Walter Scott, o futuro primeiro-ministro George Canning e o posterior pintor de retratos reais Thomas Lawrence.

Retrato de George como príncipe regente pintado por Thomas Lawrence em 1822. — Foto: Getty Images via BBC

Mas aquela “tranquilidade ininterrupta” que George prometeu não aconteceu.

Começaram a circular rumores sobre o alegado comportamento imoral e imodesto da princesa e dizia-se que Carolina tinha dado à luz um filho ilegítimo, o que viria a confirmar o adultério, crime punível com a morte.

Em 1806, com o apoio do príncipe, foi instituída a chamada “Investigação Delicada”, na qual eram convocadas testemunhas para dar detalhes, fundados e infundados, de sua vida privada.

A infeliz questão poderia ter sido resolvida simplesmente falando com os pais do menino em questão.

Willy Austin era um bebê que Carolina havia acolhido para ajudar uma família de baixa renda, algo que a princesa costumava fazer.

Mas a investigação afetou a reputação de Carolina, pelo menos aos olhos do rei, que até então estava do seu lado, e seu acesso à filha foi restrito.

E quando o rei foi declarado incapaz de governar por motivos de saúde mental e seu filho, George, tornou-se príncipe regente em 1811, além de impedi-lo de ver Charlotte, ele avisou que quem visitasse sua esposa não seria recebido em sua corte.

Carolina teve apoio popular, inclusive de figuras como a escritora Jane Austen, que escreveu “Pobre mulher. “Vou apoiá-la enquanto puder, porque ela é mulher e porque odeio o marido dela”.

Mas esse movimento a deixou isolada. Em 1814 aceitou a proposta do ministro das Relações Exteriores de deixar o país.

Depois de vagar pela Europa, aproveitando cada momento – “de uma maneira vergonhosa” segundo alguns aristocratas – fixou-se na Itália, em uma vila no lago de Como, atendida por seu mordomo, um belo italiano chamado Bartolomeo Pergami, que suspeitavam ser amante dela.

Em 1817, a princesa Charlotte morreu ao dar à luz. Eles não tiveram a delicadeza de notificar George IV e, quando ele descobriu, caiu em depressão.

Na Inglaterra, o príncipe regente queria o divórcio, mas isso só seria possível se o adultério de Caroline fosse comprovado. O primeiro-ministro britânico enviou espiões à Itália, em busca de possíveis testemunhas para depor contra ela.

Antes que isso acontecesse, o rei George III morreu no dia 29 de janeiro de 1820.

Carolina tornou-se a rainha do Reino Unido e de Hanover.

Depois de uma longa espera, George havia finalmente chegado ao momento de sua coroação. E de forma alguma ele queria dividir a glória com a esposa dele.

Seus esforços para excluí-la da monarquia ganharam mais ímpeto.

Em fevereiro, ele a excluiu da liturgia, ordenando aos clérigos do reino que não a mencionassem nas orações dominicais da família real.

Aquele desrespeito à rainha incomodou o público, em um momento quente.

Após o Massacre de Peterloo, ocorreu uma manifestação pacífica a favor do direito ao voto que foi violentamente reprimida pelas autoridades. Isso fez a popularidade do governo e do monarca cair perigosamente.

O governo havia introduzido uma legislação para abafar qualquer pedido de reforma, mas as ideias inspiradas pela Revolução Francesa não haviam desaparecido e a batalha real logo se tornaria uma saída para a repressão.

Multidões se reúnem para mostrar seu apoio a Caroline em sua residência em Londres (Artista; Matthew Dubourg, 1821). — Foto: Getty Images via BBC

A rainha havia retornado a Londres para se sentar em seu trono, aplaudida por grandes multidões.

Furioso, George introduziu uma “petição de penalidades e sanções” na Câmara dos Lordes, acusando-a de infidelidade com Pergami e exigindo “privar sua majestade Carolina Amelia Elizabeth do título, prerrogativas, direitos, privilégios e isenções de rainha consorte deste reino, e dissolver o casamento entre sua majestade e a dita (rainha)”.

Querendo evitar o caminho legal, pois no tribunal suas muitas indiscrições viriam à tona, ele se voltou para o Parlamento, onde os testemunhos daqueles que os espiões encontraram na Europa seriam ouvidos e a princesa teria permissão para comparecer, mas não falar.

Mas ela contava com o apoio das classes média e trabalhadora, e dos silenciados radicais, que perceberam que apoiar a rainha era se opor ao rei e ao governo.

Ela então se tornou uma figura popular entre os manifestantes antigovernamentais e antimonarquistas.

Por três semanas, o julgamento peculiar cativou a nação, com multidões aparecendo diariamente para mostrar seu apoio a Carolina. Foram mais de 800 petições e um milhão de assinaturas a favor da rainha.

“Despertou um profundo sentimento popular”, escreveu o ensaísta William Hazlitt. “Ele se enraizou no coração da nação, tomou posse de cada casa ou cabana do reino… Os negócios foram deixados de lado, seus prazeres foram esquecidos, até mesmo suas refeições foram negligenciadas. Não se pensava em nada além do destino da rainha”.

A moção inicialmente foi aprovada na Câmara dos Lordes, mas acabou abandonada quando o governo percebeu que condenar a rainha era condenar a si mesmo.

O rei teve que inevitavelmente aceitar que a prima que ele havia escolhido como esposa para saldar dívidas era rainha, mas ele iria impedir por todos os meios que ela fosse coroada.

Assim como a personalidade dele, a ocasião assumiu dimensões extravagantes. Somente a roupa do rei custou US$ 3,5 milhões (cerca de R$ 17 milhões) na cotação atual, com o custo total da coroação chegando a US$ 33 milhões (R$ 166 milhões).

Isso incluiu a contratação dos melhores boxeadores para impedir a entrada de Carolina na cerimônia.

Além disso, eles instruíram os porteiros a não permitir o acesso de ninguém sem um convite válido.

Eles obedeceram mesmo quando a rainha chegou a uma das entradas oficiais. Mas ela perseverou.

“Fomos eletrizados por um golpe estrondoso na porta da sala de estar, e uma voz do lado de fora gritou: ‘É a rainha, abra!'” Elizabeth Robertson, uma convidada do Westminster Hall, lembrou mais tarde.

“Cem pajens vermelhos correram até a porta, que o porteiro abriu um pouco, e de onde eu estava sentado eu a vi de relance, com as baionetas cruzadas da sentinela sob o queixo.”

“Ela estava furiosa e gritando ‘Deixe-me entrar, sou sua rainha, sou a rainha do Reino Unido’.”

“O Lord Great Chamberlain estava com o rei, mas viu seu tenente que, com uma voz que fez o salão ressoar, gritou: ‘Cumpra seu dever, feche a porta’, e imediatamente os pajens a fecharam!”

Depois de repetidas recusas, ela finalmente desistiu.

Essa seria a última humilhação pública que ela sofreria nas mãos do marido.

Na noite seguinte, ela adoeceu e caiu na cama, convencida de que havia sido envenenada.

Ela morreu após 19 dias de agonia, no dia 7 de agosto de 1821.

O atestado de óbito registrava uma obstrução intestinal. Especialistas diriam mais tarde que talvez a causa fosse o câncer.

Para evitar que a morta fosse tão problemática quanto viva, foi feita uma tentativa de remover o corpo dela o mais discretamente possível para o transporte a Brunswick.

Mas aqueles que a amavam não permitiriam: eles bloquearam com barricadas a rota planejada e alinharam as ruas para garantir que o cortejo fúnebre passasse pelo centro de Londres.

No entanto, eles não conseguiram realizar o último desejo dela: que sua lápide dissesse “Aqui jaz Carolina de Brunswick, a rainha ferida do Reino Unido”.




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Por: G1

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