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Com mais de 100 afegãos no aeroporto, Prefeitura de Guarulhos diz que espera governo federal analisar pedido para ser ‘cidade de fronteira’; entenda

today30 de agosto de 2023 20

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Até esta quarta (30), 113 afegãos estavam no aeroporto à espera de acolhimento, informou o Executivo. O Coletivo Frente Afegã fala em 83 pessoas.

“Não houve retorno do governo federal sobre o pedido para ser cidade fronteira. Apesar do contato diário, já que o ente federativo é constantemente atualizado sobre a situação do aeroporto, ainda não obtivemos respostas sobre uma possível resolução do problema”, disse a prefeitura, em nota, nesta quarta.



Novo grupo de refugiados afegãos está acampado no aeroporto de Guarulhos

Novo grupo de refugiados afegãos está acampado no aeroporto de Guarulhos

Outros órgãos, como Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Ministério da Justiça e Segurança Pública, Casa Civil e a Organização das Nações Unidas também receberam, segundo a prefeitura.

A expectativa do Executivo é a de que, sendo reconhecida como cidade fronteira, Guarulhos passe a ter acesso a verbas e a recursos que são característicos de políticas públicas de lugares que recebem e acolhem refugiados, como cidades que fazem fronteira com países que estão em guerra.

Não há países ao lado de Guarulhos, mas a chegada dos refugiados em grande quantidade coloca a cidade em uma situação similar.

“A intenção é reforçar a solicitação de reconhecimento da cidade como fronteira do Brasil e maior apoio financeiro para alimentação daqueles que permanecem no aeroporto aguardando acolhimento”, disse prefeitura.

Afegãos acampados em no Aeroporto de Guarulhos — Foto: Reprodução/TV Globo

Sem abrigos, os afegãos passaram a ficar acampados pelos corredores do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Em fevereiro deste ano, o número de famílias nos saguões chegou a zerar. Contudo, mais imigrantes chegaram nos meses seguintes.

“Apesar desta questão não ser de responsabilidade do município, a Prefeitura de Guarulhos informa que segue acompanhando a situação dos afegãos acampados. Inicialmente não dá para se prever o fluxo de refugiados que ainda podem desembarcar em Guarulhos ao longo deste ano”, afirmou a prefeitura, em nota.

“Para acomodar as pessoas que chegam em grande número depende de muitos recursos que extrapolam a capacidade do município, sendo necessário aportes do Estado e do Governo Federal. Na atual conjuntura dificilmente esse número de pessoas no aeroporto será zerado sem a intervenção governamental”, ressaltou a prefeitura.

Em nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou ao g1 que o acolhimento dos afegãos está sendo realizado na medida em que novas vagas, oferecidas por instituições públicas e privadas, surgem.

“O fluxo de afegãos no Aeroporto Internacional de Guarulhos, que é regular, tem se intensificado nos últimos dias e não é possível antecipar data ou o número de desembarques por dia. Por essa razão, pode acontecer atraso no que se refere ao atendimento imediato”, diz o ministério.

“O governo federal está finalizando um plano de ação de médio prazo que viabilizará os acolhimentos”, complementou.

Dinheiro arrecadado por um ano

Afegãos recém-chegados ao Brasil com visto humanitário dormem no Aeroporto de Guarulhos — Foto: Reprodução/TV Globo

“Este novo grupo tem menos poder aquisitivo. Estavam com o visto humanitário desde o ano passado, mas não conseguiram arrecadar dinheiro para virem antes. A maioria estava já fora do Afeganistão, em países como Paquistão e Irã. Mas o desespero por lá aumentou com essas novas ações do Talibã”, diz Aline, que acompanha a chegada dos grupos.

Aline conta que a maioria conseguiu visto humanitário para o Brasil depois de entrar clandestinamente no Irã.

“Lá, eles recebem visto temporário de 180 dias, que é o período que ficam tentando vistos para o Brasil ou outros países. Quando conseguem, vivem a ‘via sacra’ para conseguirem grana para irem a esses países que os aceitam. É puxado demais. E mesmo acampados, ouvi de muitos: aqui está melhor do que lá”, ressalta a voluntária.

“Sem uma medida efetiva não cessará. Precisamos de um local provisório com estrutura, que foi prometido na reunião do dia 30 de junho entre os três poderes, municipal, estadual e federal”, ressaltou a voluntária da ONG Aline Sobral.

Mais de 10 mil vistos humanitários

Afegãos no Aeroporto de Guarulhos — Foto: Reprodução/TV Globo

A política de acolhida humanitária permanece em vigor. Até 14 de junho de 2023, o governo brasileiro autorizou a concessão de 11.576 vistos de acolhida humanitária em favor de afegãos.

Do total de autorizados, 9.003 vistos foram efetivamente entregues aos requerentes, segundo informou o Ministério de Relações Exteriores ao g1.

No ano passado, o Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) atendeu 1.035 pessoas afegãs. A maioria era composta por homens entre 18 e 59 anos (490) e mulheres na mesma faixa etária (248). Dessas 738 pessoas, 50,4% possuem formação universitária e 6,5% são pós-graduadas.

Afegãos acampados no Aeroporto de Guarulhos em 14 de agosto — Foto: Arquivo Pessoal

Afegãos no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos — Foto: Fábio Tito/g1

O Brasil passou a ser um dos principais destinos para os cidadãos do Afeganistão após o governo brasileiro publicar uma portaria em setembro de 2021 estabelecendo a concessão de visto temporário.

Os dados apontam que o país recebeu 2.842 imigrantes. Destes, 1846 são homens e 993 mulheres. Outros três imigrantes não houve a constatação de gênero. Além disso, a grande maioria que entrou no Brasil tem entre 25 e 40 anos. Há também 712 crianças de 0 a 15 anos.

Veja o perfil dos imigrantes:

Entrada de afegãos no Brasil de janeiro a setembro de 2022

Faixa etária Masculino Feminino Ignorado
0 até 15 anos 377 335 1
15 até 25 anos 361 177
25 até 40 anos 906 340 1
40 até 65 anos 184 115
Acima de 65 anos 18 26
Ignorado 1
Total: 1846 993 3

Ainda conforme o relatório, dos 2,8 mil que entraram no país, 149 já saíram do Brasil e a maioria desse grupo tem entre 25 e 40 anos.

A ida massiva de imigrantes para o país da América do Sul ficou mais nítida depois que o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, passou a ser uma espécie de acampamento para famílias afegãs que, em vez de terem acolhimento imediato, precisam esperar dias por vagas em abrigos (leia relatos abaixo).

Saída de afegãos do Brasil de janeiro a setembro de 2022

Faixa etária Masculino Feminino
0 até15 anos 11 11
15 até 25 anos 15 7
25 até 40 anos 52 13
40 até 65 anos 25 10
Acima de 65 anos 2 3
Total: 105 44

A alta procura de afegãos nas embaixadas brasileiras em Teerã, no Irã, e Islamabad, no Paquistão, fez com que o Ministério das Relações Exteriores suspendesse temporariamente novos agendamentos nesses locais em 2022.

Na Embaixada do Brasil em Teerã, no Irã, por exemplo, foram agendados cerca de 7 mil pedidos para a concessão de visto entre novembro de 2021 e junho de 2022.

Mulheres afegãs passam por um combatente do Talibã em Cabul, Afeganistão. As vidas de afegãs estão sendo destruídas pela repressão do Talibã a seus direitos básicos, informou a Anistia Internacional em um novo relatório publicado nesta quarta-feira, 27 de julho de 2022. — Foto: AP – Hussein Malla

A luta das afegãs por liberdade — Foto: AFP/Wakil Kohsar

Crianças afegãs dormem no chão enquanto famílias esperam acolhimento no Brasil — Foto: Arquivo Pessoal/Swany Zenobini

O saguão do terminal virou uma espécie de acampamento para os grupos, que colocam no local bagagens, roupas e colchões doados por voluntários.

“Quando vi a situação no aeroporto, a gente perdeu um pouco da esperança de conseguir algo. Não era para encontrar o povo sem assistência. Mas eu tenho ainda esperança no Brasil de poder trabalhar na minha área no jornalismo. Infelizmente, minha mãe e o meu pai estão no Afeganistão. Por isso, não posso me identificar. Porque, se localizam a minha família, podem oprimir”, disse um ex-apresentador afegão que decidiu morar em São Paulo com a mulher e as duas filhas.

Afegãos que fugiram do regime Talibã e chegaram no Brasil — Foto: Fábio Tito/g1

Outro afegão, de 30 anos, relatou ao g1 que era diretor de uma empresa comercial e decidiu vir para o Brasil no começo de setembro depois de ficar oito meses no Irã. Ele também preferiu ter a identidade preservada.

“Os iranianos discriminam diretamente o povo do Afeganistão. Pesquisei na internet que seria uma boa opção vir para o Brasil. O custo [da viagem] saiu US$ 2 mil. Agora, não tenho mais como sair daqui. O dinheiro que a gente investiu foi para vir para cá. Não tenho como ir para outro lugar. Pedimos que o governo brasileiro dê um lugar decente para morar, ensinem português. A gente mesmo vai procurar trabalho. A gente não está em busca de benefícios gratuitos. Precisamos de um lugar decente para viver e aprender o idioma para trabalhar”, relatou, antes de ser informado que seria encaminhado para o Centro de Acolhida.

Afegãos acampados em saguão do aeroporto de Guarulhos — Foto: Arquivo Pessoal/Swany Zenobini

FOTOS: g1 esteve no Aeroporto de Guarulhos no dia 16 de setembro de 2022

Afegãos contam sobre fuga do regime Talibã e vinda ao Brasil — Foto: Fábio Tito/g1

Afegão vai para o Brasil tentar nova vida com a família — Foto: Fábio Tito/g1

Famílias afegãs no Aeroporto de Guarulhos — Foto: Fábio Tito/g1

Famílias afegãs no Aeroporto de Guarulhos — Foto: Fábio Tito/g1




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Por: G1

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