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Como pobreza e drogas têm transformado bibliotecas nos EUA

today21 de fevereiro de 2023 13

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Presentes em bibliotecas públicas ao redor dos Estados Unidos, tanto em grandes metrópoles quanto em cidades pequenas, esses frequentadores assíduos têm uma característica em comum: estão em situação de rua.

Em um momento em que a população sem-teto no país é calculada em quase 600 mil pessoas, e é comum ver calçadas tomadas por barracas em várias cidades, as bibliotecas públicas americanas vêm assumindo um papel cada vez mais relevante no combate aos efeitos da crise da falta de moradia.

Como já desempenham informalmente a função de abrigo durante o dia para uma parcela da população que não tem para onde ir, muitas vêm decidindo participar de maneira mais ampla nas estratégias de suas comunidades para enfrentar a crise habitacional.



Um dos objetivos é servir de ponte entre esses usuários e instituições que prestam serviços de moradia, saúde e educação.

Bibliotecas ao redor do país passaram a oferecer programas específicos para esse público, desde a contratação de assistentes sociais até o fornecimento de roupas e produtos de higiene.

Em várias delas, funcionários recebem treinamento para lidar com crises de saúde mental, dependência de drogas ou até mesmo overdoses, problemas que afetam parte dessa população.

Para os bibliotecários, que antes tinham como foco recomendar obras e autores, a profissão agora traz novas exigências.

“Muita gente pensa em bibliotecas como basicamente depósito de livros”, diz à BBC News Brasil a presidente da American Library Association (Associação Americana de Bibliotecas), Lessa Kanani’opua Pelayo-Lozada.

“Mas, nos últimos 20 anos ou mais, nós vimos as bibliotecas evoluírem e se tornarem espaços comunitários”, afirma.

“E também vimos uma mudança no tipo de habilidades que nossos funcionários precisam para poder fazer seu trabalho”, acrescenta.

Segundo Pelayo-Lozada, o trabalho dos bibliotecários não se restringe mais à curadoria da coleção de livros, mas inclui também o desenvolvimento de habilidades interpessoais e treinamento para lidar com clientes que estejam enfrentando problemas de saúde mental, entre outros aspectos.

“Todas essas coisas são mais recentes. E se devem, em parte, ao fato de as bibliotecas serem espaços tão inclusivos e abertos, garantindo que todos tenham um ambiente seguro para onde possam ir quando precisarem”, ressalta.

Pelayo-Lozada salienta que as bibliotecas não coletam dados sobre a situação de moradia dos frequentadores e, portanto, é difícil estimar o percentual de usuários que não têm onde morar ou se houve aumento nessa parcela do público.

“Mas os usuários de nossas bibliotecas refletem as comunidades em que vivemos, bem como tendências sociais mais amplas. E sabemos que houve aumento na falta de moradia, especialmente nos últimos dois anos, entre a pandemia e a recessão iminente”, observa.

“E sabemos também que esse público em particular costuma recorrer às bibliotecas, porque estamos aqui para todos, e nossos serviços estão disponíveis para aqueles que precisam, estejam ou não em situação de rua”, complementa.

Em algumas cidades, como San Diego, na Califórnia, a imprensa local calcula que moradores de rua formam a maioria dos frequentadores da biblioteca central.

O aumento dessa fatia do público é fruto de uma queda no volume geral de visitantes em anos recentes, aliada a um aumento no número pessoas sem-teto em várias partes do país.

Um estudo publicado no ano passado por pesquisadores da Universidade Estadual de San Diego e da Universidade da Califórnia em San Diego afirma que “em todo o país, as bibliotecas são cada vez mais reconhecidas como espaços públicos com potencial para ajudar usuários em situação de rua ou instabilidade habitacional”.

Os autores entrevistaram 14 funcionários da biblioteca central de San Diego e 49 frequentadores em situação de rua, dos quais 51% eram homens, 43% tinham idade acima de 50 anos e 33% diziam ter algum tipo de deficiência física ou mental. O resultado é um retrato detalhado dessa parcela do público e de suas interações com os bibliotecários.

Muitas pessoas em situação de rua não querem ir para abrigos, que costumam estar lotados e ter regras rígidas, como toque de recolher.

E mesmo os que dormem em abrigos precisam de um local para passar o dia e sofrem com “o estigma ou a exclusão de outros espaços públicos”, diz o estudo.

“Durante o dia, somos todos sem-teto, independentemente de termos ou não um lugar para dormir à noite”, resumiu um dos entrevistados que, assim como o restante, teve sua identidade preservada.

“Se você está em um abrigo, tem seis dias ou três dias, e depois (precisa ir para) outro abrigo”, observou outro.

Nas bibliotecas, onde tradicionalmente todos são bem-vindos e não há barreiras que são comuns em outros locais, como exigência de pagamento ou apresentação de carteira de identidade, essa parcela do público encontra um lugar acolhedor e que proporciona estabilidade, nem que seja apenas durante algumas horas. Muitos já estão de manhã cedo na porta, esperando o prédio abrir.

“Eu posso simplesmente me isolar. Pegar um livro ou até mesmo um jornal e desligar todo o resto. Você entende? Estou seguro e não preciso me preocupar em ser roubado”, relatou um entrevistado.

De acordo com Pelayo-Lozada, além de desfrutar de facilidades básicas, como banheiros e cadeiras, esses frequentadores usam as bibliotecas para diversas atividades, desde procurar empregos e enviar currículos até se conectar por email e redes sociais com a família e amigos.

“Não estão apenas em busca de recursos, também buscam alimentar seu lado humano, encontrar maneiras de serem criativos”, destaca. “Vejo pessoas participando de programas em que podem criar arte e sentir que são parte de uma comunidade.”

Desafios para os funcionários

Segundo o estudo em San Diego, as bibliotecas representam “uma oportunidade única” de atender uma parcela da população muitas vezes oculta e vulnerável, e que geralmente “carece de recursos adequados para os múltiplos riscos que enfrentam”, como insegurança alimentar, dependência de drogas e transtornos mentais.

Mas esse novo papel das bibliotecas representa um desafio para os funcionários, que nem sempre são capacitados para ajudar esse público. Enquanto alguns dos bibliotecários entrevistados no estudo disseram que esta “não é sua função ou propósito”, outros manifestaram a vontade de ter mais treinamento e “informações para encaminhar esses usuários aos serviços apropriados”.

A epidemia de opioides que afeta os Estados Unidos de maneira geral, com mais de 100 mil mortos por overdose a cada ano, também impacta diretamente a população de rua. Conforme o estudo, há um aumento recente em casos de overdoses e até tentativas de suicídio em bibliotecas do país.

“Os funcionários podem nem sempre estar preparados para lidar com a miríade de desafios sociais que seus usuários enfrentam, como overdose de opioides e crises de saúde mental que ocorrem no local”, dizem os autores.

Nos últimos anos, várias bibliotecas no país passaram a treinar seus funcionários para administrar Narcan, um medicamento capaz de reverter overdoses.

Algumas também passaram a contratar agentes de segurança pública treinados para identificar, intervir e prevenir crises de saúde mental, outro problema que muitas vezes afeta pessoas em situação de rua.

É importante que os funcionários não apenas estejam capacitados para auxiliar esses frequentadores em aspectos práticos, como navegar a burocracia envolvida no acesso à moradia ou outros serviços, mas também desenvolvam empatia.

“Algo que tentamos enfatizar com os funcionários é que não podemos julgar alguém por sua aparência. Então, não sabemos se (determinados usuários) estão em situação de rua ou algo assim até que venham falar conosco”, destaca Pelayo-Lozada.

“Uma das coisas importantes que devemos fazer regularmente é desenvolver relacionamentos com nossos clientes, independentemente de seu histórico. Para que, quando precisarem de algo, sintam-se à vontade para vir até nós”, afirma.

De acordo com o estudo em San Diego, é comum que usuários em situação de rua pensem que não se qualificam para os serviços disponíveis ou não saibam onde obter ajuda. Para muitos, as bibliotecas são um primeiro ponto de contato, a partir de onde podem ser encaminhados a serviços de moradia, saúde, tratamento para dependência de drogas e outros.

Cada biblioteca tem um modelo diferente, de acordo com a comunidade onde atua e os recursos disponíveis.

Em 2012, a biblioteca pública de Tucson, no Arizona, foi a primeira do país a contratar um enfermeiro especializado em saúde pública, responsável por serviços que vão desde primeiros socorros até ajudar usuários a se inscrever para planos de saúde.

Em várias cidades, como Las Vegas ou Salt Lake City e outras, as bibliotecas oferecem roupas e kits de higiene. Em muitas, como Chicago ou Denver, funcionários costumam ajudar quem precisa a preencher formulários para acessar serviços de moradia, fazer currículo para procurar emprego ou simplesmente aprender a usar computadores e outras tecnologias.

“Nos últimos anos, houve um aumento no número de bibliotecas com assistentes sociais na equipe, para ajudar pessoas que podem estar em situação de rua ou enfrentando outros problemas”, afirma Pelayo-Lozada.

“Frequentemente também fazemos parcerias com outras entidades públicas e sem fins lucrativos para conectar as pessoas a informações e recursos de que precisem.”

As bibliotecas públicas de Washington distribuem kits de higiene a quem precisa, com produtos como xampu, sabonete, escova e pasta de dente, absorventes íntimos, máscaras, gorros, meias e luvas — Foto: Alessandra Corrêa/BBC

A capital americana é uma das cidades que vêm ampliando os serviços oferecidos em suas bibliotecas aos usuários em situação de rua.

Em 2014, o sistema de bibliotecas públicas de Washington foi um dos primeiros do país a contratar uma assistente social em tempo integral, após iniciativa semelhante alguns anos antes em San Francisco, na Califórnia.

Essa assistente social, Jean Badalamenti, atua como gerente de saúde e serviços humanos do sistema que inclui 26 bibliotecas públicas ao redor da cidade e é parte do governo municipal.

Calcula-se que cerca de 4,4 mil pessoas em Washington não tenham onde morar, segundo os dados mais recentes, do ano passado.

Em entrevista à BBC News Brasil na biblioteca central da cidade, que leva o nome do líder de direitos civis Martin Luther King Jr., Badalamenti conta que sua missão ao assumir o cargo era descobrir maneiras de usar os recursos e especialistas já disponíveis na comunidade para ajudar os clientes sem-teto.

“Quando cheguei, há nove anos, o número de pessoas em situação de rua na cidade vinha crescendo. Ao mesmo tempo, a biblioteca havia contratado cerca de cem novos funcionários, muitos dos quais estavam pela primeira vez trabalhando em uma biblioteca pública urbana”, lembra.

Uma das iniciativas foi familiarizar os funcionários sobre os recursos disponíveis na comunidade, como banco de alimentos, locais para tomar banho, doação de roupas e outros serviços, para que pudessem orientar melhor os usuários em situação de rua.

A equipe também recebeu treinamento para entender de maneira mais profunda a crise habitacional na cidade.

Entre as várias medidas adotadas para demonstrar às pessoas em situação de rua são que são bem-vindas nas bibliotecas da cidade está a distribuição de kits com produtos como xampu, sabonete, escova e pasta de dente, absorventes íntimos, máscaras, gorros, meias e luvas, entre outros.

Qualquer visitante pode pedir um kit, e os funcionários também tomam a iniciativa de oferecer a usuários que demonstram precisar desses produtos. Um funcionário lembrou recentemente da alegria de um homem que usava sacos plásticos para aquecer os pés ao ser abordado e receber meias novas.

Outro programa bem-sucedido em Washington é o chamado Coffee and Conversation (Café e Conversa), aberto a todos, no qual funcionários conduzem uma conversa informal sobre assuntos variados, com direito a um cafezinho.

“O objetivo era achar maneiras de reunir pessoas com e sem moradia para conversar, e a biblioteca é o lugar perfeito para isso”, diz Badalamenti.

Um dos principais programas trazidos por Badalamenti, e que também já foi adotado por outras cidades, envolve contratar e treinar pessoas que no passado viveram como moradores de rua, para que possam ajudar os usuários atualmente nessa situação.

A iniciativa é conjunta com o departamento municipal de Saúde Comportamental, e faz parte de um esforço maior da cidade para combater a falta de moradia.

“São pessoas que já viveram a experiência de estar em situação de rua, (muitas vezes) lidaram com problemas de saúde mental, dependência de drogas, encarceramento”, afirma Badalamenti. “Eles interagem diretamente com os frequentadores que podem estar precisando de algum tipo de ajuda, são muito conhecidos na comunidade (de serviços aos sem-teto).”

Além da empatia de quem já passou pela mesma situação, esses funcionários têm a experiência de já terem decifrado a burocracia muitas vezes difícil para acessar os diferentes serviços disponíveis para essa parcela do público.

Chamados de “pares”, eles ajudam os usuários a se conectar com serviços de saúde mental, abrigos, receber tratamento, obter documentos e várias outras tarefas.

Segundo Badalamenti, muitos dos usuários ajudados pelos “pares” acabam conseguindo se mudar para habitação permanente.

“Conseguimos conectar muitas pessoas com serviços de moradia, e vimos pessoas mudarem da rua para abrigos, de lá para moradias transitórias, e então para habitação permanente”, salienta.

‘São pessoas como você e eu’

Um dos desafios das bibliotecas é atender às necessidades da parcela mais vulnerável dos clientes de maneira respeitosa e sem alienar os outros frequentadores.

“Temos de equilibrar as necessidades de todos os membros da comunidade, o que é complexo e delicado. Para garantir que todos se sintam seguros e tenham seu espaço”, ressalta Pelayo-Lozada.

“Assim como em outros espaços públicos, usuários e funcionários podem encontrar pessoas se comportando de maneira inapropriada ou ilegal”, afirma.

“Oferecer treinamento para que nossos funcionários sejam capazes de lidar com essas situações é cada vez mais importante”, acrescenta.

O fato de alguém estar em situação de rua não significa que vá causar problemas, e os funcionários se esforçam para não estigmatizar essas pessoas.

O foco não é no histórico dos usuários, e sim em comportamentos, vindos de qualquer pessoa, que possam perturbar os outros, como uso de drogas nas dependências, agressividade ou até mesmo ronco alto ao cochilar.

Há relatos na imprensa americana de casos de conflito. Em Anaheim, na Califórnia, um morador de rua foi preso no ano passado após derrubar um funcionário da biblioteca central com um soco, em um incidente documentado em vídeo.

Nos últimos meses, bibliotecas nas cidades de Boulder e Englewood, no Colorado, tiveram de ser fechadas temporariamente para passar por um processo de “limpeza especializada” depois que testes revelaram contaminação por metanfetamina em algumas áreas, como os banheiros.

Em anos recentes, diversas cidades, entre elas Chicago, San Francisco e Seattle, registraram reclamações de moradores por causa de acampamentos de sem-teto nas áreas externas de algumas bibliotecas, como estacionamentos.

Mas funcionários ouvidos no estudo em San Diego ressaltam que muitos dos usuários em situação de rua “valorizam tanto a biblioteca que são quase um par extra de olhos e ouvidos” e que “se surgir um problema, eles ajudam, porque não querem que a biblioteca tenha problemas” e querem “preservar o ambiente seguro” do qual desfrutam.

“De nossa perspectiva, temos todos os tipos diferentes de clientes”, salienta Badalamenti. “Para mim, o mais importante é (ressaltar) que as pessoas em situação de rua são pessoas como você e eu.

A assistente social diz que, nas bibliotecas em Washington, reclamações por parte de outros usuários incomodados com a presença de moradores de rua são raras.

“Talvez, de tempos em tempos, alguém reclame”, afirma. “E minha resposta é: ‘Se você está preocupado com as pessoas em situação de rua na biblioteca pública, eu sugiro que entre em contato com seu vereador e converse com sobre moradias mais acessíveis na cidade’.”




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Por: G1

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