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Eleições na Argentina: entenda os desafios econômicos que o novo presidente precisará enfrentar

today22 de outubro de 2023 12

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A leitura de especialistas ouvidos pelo g1 é a de que o novo chefe de Estado do país — seja quem for — terá uma série de desafios a enfrentar pela frente. Em uma pequena lista de principais aspectos da crise econômica que o país enfrenta estão:

  • uma inflação exorbitante, que já passa dos 130%;
  • a forte desvalorização cambial do peso argentino;
  • a contínua emissão de dinheiro por parte do Banco Central local para sustentar o rombo nas contas públicas;
  • uma dívida externa bilionária, junto a uma falta de reservas internacionais;
  • os altos níveis da taxa de pobreza na população argentina.

E não é só. Parte do desafio do novo presidente também será formar um capital político relevante para lidar com a falta de consenso nacional sobre o quadro inflacionário e de juros no país, e para conseguir implementar as reformas estruturais necessárias.



Antes de aprofundar a questão econômica da Argentina, veja abaixo quem são os principais candidatos à presidência

  • O economista ultraliberal e de extrema direita Javier Milei

Da chapa “A Liberdade Avança”, o economista se autodeclara “anarcocapitalista”. Suas promessas incluem a dolarização da economia (substituir o peso argentino pelo dólar norte-americano) e a extinção do Banco Central local, por exemplo.

  • O atual ministro da economia argentino, Sérgio Massa

Advogado e político, o argentino é membro da “União pela Pátria” e candidato escolhido para representar o governo peronista, a principal força política da Argentina por décadas. Suas promessas giram em torno do combate à inflação e no potencial de negócios internacionais que o país detém, a partir do petróleo, do gás e do lítio.

  • A candidata de centro-direita, Patrícia Bullrich

Ex-ministra da segurança, trabalho e segurança social da Argentina, Bullrich é uma das líderes da coalizão “Juntos Pela Mudança”. Suas propostas incluem estabelecer um novo regime cambial, cortar gastos para combater a inflação e reduzir os impostos sobre as exportações agrícolas.

Os desafios econômicos do novo presidente

Com uma inflação exorbitante, altos níveis de pobreza, a falta de reservas e uma forte desvalorização cambial — que leva o país a ter mais de dez cotações vigentes —, o novo chefe de Estado terá uma lista grande de lições de casa.

Para analistas ouvidos pela reportagem, uma postura mais prática, voltada para a eficiência, e que fuja de posicionamentos muito radicais seria desejável para promover as mudanças que o país precisa.

“Depois de eleito, [o novo presidente] precisa necessariamente virar um ser pragmático. Quando você se senta na cadeira da presidência, é muito difícil levar para lados extremados”, diz o economista da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP-FGV), Paulo Gala.

Além disso, os especialistas reforçam que o novo presidente precisará enfrentar um Estado ineficiente e ter planos econômicos muito claros. É o caso de uma implementação de reformas fiscal e monetária no país.

Segundo especialistas, parte importante do que explica a atual situação na Argentina é o acúmulo de déficits fiscais. Há mais de 10 anos, os gastos do governo são maiores do que quanto ele consegue arrecadar.

Além dos gastos essenciais, que não podem ser cortados porque garantem o funcionamento do Estado, o governo ainda concedeu uma série de auxílios sociais e subsídios que diminuem, ano a ano, a arrecadação pública.

Sem dinheiro para financiar suas despesas recorrentes, o governo passou a emitir dívida por meio de títulos públicos. Nem assim os recursos foram suficientes.

O Estado que gasta muito não consegue fechar suas contas e, então, passa a imprimir dinheiro. Isso aumenta a inflação e gera uma série de problemas micro e macroeconômicos.

— Alexandre Pires, professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais de São Paulo (Ibmec-SP)

Além disso, o maior volume de pesos nas ruas também gerou uma forte desvalorização da moeda local e incentivou a criação de uma série de regimes cambiais alternativos. (entenda mais abaixo)

De acordo com o professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Roberto Uebel, esse cenário também agravou um problema já visto há anos na Argentina: a forte dependência do dólar norte-americano.

“Escolhas políticas e econômicas feitas nos últimos 30 anos tornaram a economia do país totalmente dependente do dólar, seja para transações simples, como comprar um jornal na esquina, até grandes transações da matriz argentina, como as exportações”, afirma.

“Isso trouxe a existência de várias linhas cambiais, que também acabam minando o poder de compra da população e ajudam a tornar a inflação algo descontrolado”, completa Uebel.

Em agosto, o Fundo Monetário Internacional (FMI) firmou um acordo com o governo argentino, liberando o desembolso de US$ 7,5 bilhões para o país por meio de um programa assistencial.

Essa foi a sexta revisão do acordo entre as partes — a Argentina já tinha assinado um programa de crédito com o fundo no ano passado, de US$ 44,5 bilhões, tendo se comprometido a aumentar suas reservas internacionais e reduzir seu déficit fiscal. Uma nova revisão do acordo está prevista para depois das eleições presidenciais.

Dentre as consequências do déficit fiscal, ficou evidenciada a necessidade de uma reforma monetária no país.

Na primeira quinzena do mês, o Instituto Nacional de Estatísticas da Argentina informou que a inflação no país subiu 12,7% em setembro. Na janela de 12 meses, o indicador chegou a 138,3%.

Em resposta, o Banco Central da República Argentina (BCRA) elevou novamente a taxa básica de juros do país em 15 pontos percentuais (p.p.) — de 118% para 133% ao ano. E, na leitura dos especialistas, o ciclo de altas de juros está só no começo.

“Qualquer plano de reforma monetária vai implicar em uma taxa de juros mais elevada para tentar estabilizar os preços. Se a meta é controlar a inflação, e essa tem sido a prioridade número um dos argentinos, o movimento de alta de juros será necessário”, diz Gala.

Vale lembrar que Javier Milei, candidato vencedor das eleições primárias na Argentina, tem como uma de suas promessas a dolarização da economia.

A medida substituiria o peso argentino pelo dólar norte-americano — e, com isso, o país não apenas precisaria da Casa da Moeda dos Estados Unidos para a importação da moeda, como deixaria as decisões de política monetária dependentes do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

  • Crise no balanço de pagamentos

Outro ponto é a crise no balanço de pagamentos. O termo em “economês” significa que mais dinheiro sai do que entra na Argentina. Parte da sua origem está também nas dívidas externas que o país contraiu ao longo das décadas, mas principalmente na incapacidade de a Argentina atrair capital estrangeiro.

Como se fosse pouco, a Argentina vive um momento de seca histórica em 2023. A falta de chuvas atingiu a última safra de milho, soja e trigo, além de derrubar a produção do país e matar milhares de cabeças de gado.

As tentativas de manipulação do câmbio foram gerando problemas para o comércio exterior e para a inflação. Tem um impacto interno — com empobrecimento da população, complicação das tomadas de decisão para investimentos e redução da produtividade – e externo, que reverberou na capacidade de exportação.

— Alexandre Pires, professor do Ibmec-SP

Atualmente, há mais de dez cotações de dólar vigentes no país. Isso porque houve um aumento do uso da moeda norte-americana pela população, em meio à perda da credibilidade do peso argentino. Sem reservas suficientes para atender a demanda, o governo impôs um limite de compra por pessoa, criando um comércio paralelo.

Os meios não oficiais de compra e venda de dólar têm cotações próprias, e que fogem da fiscalização. Nesse contexto, surgiu a principal cotação paralela do país, o “dólar blue”, que opera em quase o triplo do valor do câmbio oficial argentino.

“O presidente eleito precisará lidar com a raiz dos problemas econômicos da Argentina […] que é a excessiva dependência do dólar. Não há fórmula mágica e a perspectiva é preocupante. É preciso traçar medidas para recuperar a segurança dos investidores e atrair capital”, diz Uebel.

Já para Gala, da FGV, é preciso lembrar que a situação pela qual o país passa é grave – e sua solução demandará tempo.

“É um horizonte de pelo menos dois anos, não é algo que dê para resolver em questão de meses. A Argentina precisa de uma reforma econômica drástica, e infelizmente essa não parece ser uma perspectiva de curto prazo”, completa.




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Por: G1

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