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Mulheres ganham espaço no mundo do pôquer, mas afirmam que ainda é grande o preconceito

today23 de julho de 2023 5

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A assistente de relacionamento e chefe de cozinha Mariana Spoltore de Souza, de 34 anos, começou a jogar pôquer em 2017 por influência da irmã. Na primeira vez dela em uma mesa, permaneceu por 13 horas seguidas.

“Me apaixonei porque sempre gostei muito de baralho. Desde criança já jogava com família e amigos buraco, tranca, truco, [mas] pôquer eu não conhecia, aprendi nesse dia”, revelou.

Ela contou que no início foi algo sofrido porque poucas mulheres frequentavam os clubes, mas que a situação melhorou. “Aqui na Baixada Santista [ainda] tem pouquíssimas mulheres que jogam. Algumas só jogam quando é ladies [torneio feminino de pôquer]”.



A moradora de Santos afirmou que na capital paulista é um ‘mundo totalmente diferente’ da realidade no litoral. “Acho que a gente consegue dizer que o público lá é 65% masculino e 35% feminino. Lá em qualquer horário vai ter mulher jogando. Em Santos não”.

Mariana entrou no mundo do pôquer após um convite da irmã, que era jogadora, e passou 13 horas seguidas jogando no primeiro dia — Foto: Alexsander Ferraz/A Tribuna Jornal

Para Mariana, o preconceito vivido pelas mulheres que frequentam os clubes de pôquer tem diminuído. “Hoje, a gente deve ter uma média de 15 jogadoras. Antigamente, quando comecei, não chegavam a cinco”.

“O preconceito era bem maior. Hoje, os homens estão acostumados com a gente nas mesas e o respeito vem melhorando, mas já sofri preconceito, bullying, risadinha na mesa, ouvi piadinhas de homens dizendo que jamais levariam a esposa para pôquer”, relembrou.

A atividade, segundo Mariana, ainda não é a principal fonte de renda dela, mas empata e, às vezes, até ultrapassa os lucros da confeitaria que administra com a irmã. Ela diz, no entanto, que ainda ganha mais no emprego em que é registrada como assistente de relacionamento.

“É muito relativo porque a gente tem a porcentagem de sorte no jogo né? No ano passado tive quatro meses onde o pôquer me deu mais dinheiro e foi minha principal fonte, entre agosto e novembro. Ganhei muito dinheiro entre torneios presenciais e on-line”, revelou.

A assistente contou que não perde mais dinheiro nos torneios presenciais desde agosto do ano passado, quando foi convidada para jogar com investidores que pagam para que ela jogue.

“Se perco, são eles que arcam com as despesas e, quando ganho, temos um acordo que é 50% meu e 50% fica para o investidor. Então, jogo sem investir meu dinheiro”.

Mariana disse que joga pôquer diariamente on-line e até duas vezes por semana de forma presencial. “Acredito que cada vez mais as mulheres estão fazendo parte desse ambiente. Acho isso muito bacana, superlegal. Considero o pôquer algo que trabalha muito a mente, a gente fala que é um esporte da mente, assim como o xadrez“.

“É um esporte e intimida muito as mulheres por ser um ambiente muito masculino, principalmente aqui no litoral, mas em São Paulo isso já não acontece”.

De acompanhante a agente de pôquer

A história da guarujaense e microempresária Danielle da Silva Araújo, de 40 anos, no pôquer começou quando ela passou a acompanhar os jogos do marido nos clubes. “Ficava o aguardando sentada no sofá com meu notebook esperando horas e horas para acabar o torneio e a gente poder ir para casa”.

Em menos de um ano, Danielle se interessou pelo jogo, viu que não era algo difícil e começou a participar dos torneios freeroll [em que não se paga dinheiro para entrar]. Depois disso, o pôquer tornou-se frequente na vida dela, que há três anos passou a viver do esporte.

“No início da pandemia surgiu a oportunidade de trabalhar como agente de pôquer. Comecei nessa área e, hoje, é minha renda principal. Jamais passou pela minha cabeça que um dia eu ia viver de pôquer sem jogar pôquer”, explicou Danielle.

Ela explicou que, como agente de pôquer, realiza a captação de jogadores on-line que procuram um clube e agente de confiança para fazer a intermediação das compras de fichas, mas, que o salário depende da quantidade de jogadores e apostas realizadas por eles, sendo assim, comissionada.

Nascida em Guarujá (SP), Danielle se interessou pelo pôquer após acompanhar o marido nos clubes de jogos — Foto: Dhiego Lins

Eu ganho mediante o que os jogadores jogam e a quantidade de jogadores que tenho na minha agência. Não tenho salário fixo, não dá para ficar fazendo conta, contando com salário porque varia todo mês, mas já existiu alguns picos maravilhosos, em que cheguei a ganhar R$ 10 mil em um mês”, afirmou.

Danielle, porém, fez questão de ressaltar que foi uma exceção. De acordo com ela, inclusive, não foi positivo para o jogador, pois ele apostou tão alto que quebrou financeiramente.

Para ela, antigamente a presença das mulheres em uma mesa de pôquer era ‘coisa excepcional’. “Você ia nos clubes e só dava homem, e você naquele meio. Você se sentia mal. Eu nem tanto, porque sempre fui com meu esposo, mas era muito mais difícil encontrar mulher em uma mesa de pôquer. Hoje não, existem cada vez mais mulheres nesse mundo”.

Danielle afirmou que nunca sofreu preconceito ou foi alvo de comentário machista até porque sempre esteve acompanhada do marido, mas presenciou outras mulheres passarem por isso. “Foi bem desagradável. Acredito que a tendência é cada vez mais mulheres ingressarem e o preconceito diminuir cada vez mais”.

O advogado Adolpho Paiva explicou que a atividade do pôquer no Brasil não é regulamentada por uma lei específica, mas a legalidade é interpretada com base em várias leis e decisões judiciais, como a Lei de Contravenções Penais (nº 3.688/1941), que proíbe a exploração de jogos de azar em todo território nacional.

“Em termos de doutrina, a maioria dos juristas concorda que o pôquer é um jogo de habilidade e, portanto, não é um jogo de azar. No entanto, a falta de uma lei específica que regulamente o pôquer significa que a legalidade do jogo é muitas vezes determinada caso a caso”, disse Paiva.

Ele ressaltou que a exploração de jogos de pôquer para fins lucrativos pode ser considerada ilegal. Além disso, a legalidade do pôquer on-line não é resolvida pela legislação brasileira atual.

“A Lei de Contravenções Penais proíbe a exploração de jogos de azar, mas não proíbe jogos de habilidade — o caso do pôquer, que não é proibido. O mesmo raciocínio se aplica para o pôquer on-line, desde que a plataforma não inclua elementos que subtraíam a capacidade do jogador de influenciar o resultado do jogo através de suas ações”, explicou.

Torneio de pôquer — Foto: Arquivo/Divulgação

Já o advogado Thyago Garcia explicou que o pôquer é reconhecido como um esporte da mente, sendo a Confederação Brasileira de Texas Hold’em (CBTH), entidade responsável por organizar e promover a prática no país.

“A CBTH é reconhecida pelo Ministério do Esporte e realiza anualmente o campeonato brasileiro que reúne os principais jogadores do país”.

Garcia disse que, atualmente, o Ministério do Esporte está trabalhando para criar um grupo de estudo para regulamentar o pôquer como um esporte no Brasil. “Este, que tem mais de 4 milhões de praticantes no país, terá toda sua legislação analisada para ser reconhecido como esporte”.

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Por: G1

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