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O barco pesqueiro de 1970 que reabriu a via marítima de Gaza — e levou alimentos entregues pela equipe de ONG morta por Israel

today7 de abril de 2024 4

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A equipe acabava de entregar parte das 200 toneladas de alimentos que haviam sido enviadas a Gaza por mar, na carona de um barco pesqueiro dos anos 1970 que atualmente faz resgates a migrantes que naufragam no mar Mediterrâneo.

No início deste ano, a Open Arms, que já resgatou milhares de pessoas no Mediterrâneo e teve a embarcação apreendida por meses pelo governo italiano, contrário aos resgates, decidiu recalcular sua rota temporariamente.

José Andrés, que já vinha enviado alimentos através de caminhões que enfrentam quilômetros de fila na fronteira entre o Egito e o sul de Gaza, queria aproveitar uma brecha aberta pelo governo de Israel: em dezembro de 2023, pressionada pela comunidade internacional, Israel reabriu o corredor marítimo a Gaza e passou a permitir, pela primeira vez em 20 anos, que barcos atracassem na costa do território palestino, banhado pelo mar Mediterrâneo.



“Ninguém tinha usado ainda esse corredor. O José Andrés queria aproveitá-lo de alguma maneira, então me ligou e colocamos a mão na massa”, disse Camps ao g1.

José Andrés, que nos Estados Unidos é uma espécie de chef-celebridade — além de participar de diversos programas de televisão, foi condecorado pelo ex-presidente Barack Obama com uma medalha do governo por serviços humanitários — foi atrás de contatos na região do Mediterrâneo.

Conseguiu autorização do governo do Chipre para enviar os alimentos ao país e, de lá, transportá-los até Gaza de barco.

Foi aí que entrou em ação a embarcação da Open Arms, um barco pesqueiro de 1974 que Camps comprou e restaurou para resgatar migrantes em 2015, quando a Europa recebia o maior fluxo migratório mundial desde a Segunda Guerra.

Com sua equipe, o fundador da ONG navegou 215 milhas náuticas, ou cerca de 400 quilômetros, rebocando as caixas com ajuda humanitária, que foram colocadas sobre uma estrutura flutuante e presa ao barco da Open Arms.

A navegação, relatou Camps, foi complexa, principalmente por conta das condições do mar e do clima, que nesta época do ano não são favoráveis na região. Mas a verdadeira dificuldade aconteceu quando ele chegou em Gaza.

Havia um detalhe: o território, que por 20 anos não pode ter nenhum tráfico de transporte marítimo, não tinha um porto ou um cais onde o barco pesqueiro pudesse atracar.

A via marítima estava oficialmente aberta, mas, tecnicamente funcionava por faltar estrutura para atracar as embarcações.

Para contornar esse problema, os cerca de 300 funcionários da World Central Kitchen na Faixa de Gaza se reuniram e, com escombros de áreas próximas atingidas por bombardeios, construíram uma base flutuante temporária — os Estados Unidos também anunciaram a construção de um porto no local, mas ainda sem data de inauguração prevista.

“Eles construíram a estrutura em cinco dias, sem nenhuma facilidade, sem nenhum material para isso. A praia de Gaza é pouco profunda, então eles tiveram de fazer um cais muito longo para que a gente pudesse se aproximar. Nada foi fácil nessa operação”, relatou Camps. “E, quando chegamos, Israel estava bombardeando o sul, víamos fumaça e tudo tremia. Sabíamos que estávamos em uma zona de guerra.

Integrantes da ONG World Central Kitchen durante a construção de um cais improvisado para que a embarcação com alimentos pudesse atracar na Faixa de Gaza, em fevereiro de 2024. — Foto: Divulgação/ Open Arms

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Alguns dias depois, a guerra chegou diretamente à equipe que participou da operação, quando os sete integrantes da World Central Kitchen morreram no bombardeio de Israel ao comboio.

Os sete — três britânicos, um norte-americano, uma australiana, um polonês e um palestino — integravam uma das dezenas de equipes da World Central Kitchen que receberam a embarcação da Open Arms na costa do sul de Gaza.

De lá, cada grupo partiu para uma região diferente do território com carregamentos de alimentos.

“Fomos para lá porque já nos doía as mortes dos civis em Gaza, e agora também temos o vazio irreparável que a perda dos nossos companheiros de equipe deixa”, disse o fundador da Open Arms após as mortes.

O chef espanhol José Andrés (à esq.) ao lado do fundador da ONG Open Arms, Òscar Camps, antes de a embarcação deixar o porto de Chipre, em março de 2024. — Foto: Divulgação/ Open Arms

Dois dias antes do ataque, o barco da Open Arms deixou novamente o porto de Chipre com uma segunda leva de alimentos, desta vez o dobro da primeira. São 400 toneladas de comida — o suficiente, segundo a ONG, para preparar um milhão de refeições. A previsão é o que a embarcação atraque na semana que vem no porto improvisado.

Desta vez, no entanto, o destino dos alimentos é incerto — após o ataque israelense, a World Central Kitchen e a maioria das outras ONGs que distribuem ajuda humanitária na Faixa de Gaza decidiram suspender suas operações no território palestino.




Todos os créditos desta notícia pertecem a G1 Mundo.

Por: G1

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