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O menino de 9 anos que cruzou sozinho 4 países para se unir aos pais nos EUA

today16 de julho de 2023 7

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O protagonista de “Solito”, o livro de memórias do escritor e poeta Javier Zamora, é um menino de 9 anos que faz uma viagem impossível e terrível. Uma viagem que ninguém deveria fazer.

Nessa idade, Zamora deixou sua cidade natal em El Salvador com o objetivo de chegar aos Estados Unidos para se juntar aos pais, que partiram antes dele: o pai fugindo da guerra civil, a mãe, alguns anos depois, para encontrar o marido e em busca de novas oportunidades.

Seu avô o acompanhou até a Guatemala, mas Javier, conhecido como “Chepito”, teve que continuar sozinho e atravessar o México e o deserto de Sonora, junto com outros migrantes que seguiam a mesma rota. Muitos ficaram pelo caminho. Eles foram presos, morreram ou simplesmente desapareceram.



A travessia deveria durar duas semanas, mas, por causa de uma traição, durou nove. “Solito” fala sobre o que aconteceu nesses 49 dias e as relações que nasceram nessa jornada.

É um texto onde detalhes devastadores se entrelaçam com passagens de uma beleza de tirar o fôlego. Um livro que a crítica qualificou como importante, necessário, inesquecível.

Leia os principais trechos da entrevista da BBC News Mundo com Javier Zamora:

“Pela primeira vez me senti alone, lonely, sozinho, solito, solito de verdade”… Comecemos por essa frase que dá título ao livro e que reflete uma solidão muito desoladora. O que você sentiu ao descrever aquela criança que você foi?

Lembro que quando escrevi aquela frase, saiu assim da primeira vez, não fiz nenhuma alteração nela. Acho que marcou um momento e de alguma forma resume o que senti enquanto trabalhava no livro, que é como um reconhecimento do que aconteceu comigo, do que sofri, algo que demorei muito para aceitar.

Vim para os Estados Unidos com 9 anos e só comecei a escrever essas memórias aos 29. Demorei 20 anos para ousar lembrar e deixar para trás aquele escudo masculino, de um homem latino, tão machista que acredita que se você não pensar em algo que aconteceu vai, simplesmente, fazer com que aquilo desapareça.

Mas aconteceu. E escrever me libertou, ajudou a me curar.

Em El Salvador, Javier era um aluno exemplar e ganhou um concurso nacional de caligrafia — Foto: RAMDOM HOUSE

Claro, não escolhi o título e, quando meu agente me propôs, não gostei nem um pouco.

Talvez porque eu estivesse no meio de uma terapia e ainda não estivesse pronto para enfrentar aquela desolação. Que era muito grande.

Na verdade, se eu pensar no título, acho que não tive uma, mas três solidões.

A primeira foi crescer sem meus pais. Sem meu pai, que vai embora primeiro quando eu tenho 1 ano, e sem minha mãe, que o acompanha quando estou prestes a fazer 5 anos.

A segunda ocorre quando meu avô, que me acompanhou à Guatemala, volta para El Salvador, e me sinto muito só porque é a primeira vez na vida que não tenho algum conhecido perto de mim.

E a terceira é quando, depois de sobreviver com todos aqueles migrantes – principalmente Chino, Patricia e Carla, que se tornaram minha família – chegamos aos Estados Unidos e nos separamos. Eles vão embora, eu fico sem eles.

Aliás, é muito paradoxal que o livro termine quando você conhece seus pais, e que uma alegria enorme seja acompanhada de uma perda que tanto te dói.

Sim. Essa é provavelmente a solidão que mais me custou. É aquela que escondi, aquela que esqueci por 20 anos até começar a escrever “Solito”.

É aquela de ter perdido aqueles que literalmente me carregaram quando eu não conseguia mais andar, aqueles que salvaram minha vida.

E, ao mesmo tempo que existe tamanha desolação, a ternura abunda no livro. Você estava ciente disso ao escrever?

Sim, foi algo que fiz conscientemente.

Me ajudou muito que em 2017, dois anos antes de começar a escrever “Solito”, eu tivesse publicado meu primeiro livro nos Estados Unidos, Unaccompanied (Desacompanhado, em tradução livre), que é uma coletânea de poemas.

Eu tinha 27 anos, e quando reli no meio da terapia que estava fazendo, percebi como eram tristes todos os poemas, que falavam do meu pai durante a guerra civil em El Salvador, da minha vida nos Estados Unidos sem documentos, e sobre cruzar a fronteira.

E quando reconheci a raiva e o ressentimento que aqueles versos tinham de mim mesmo, dos meus pais, dos Estados Unidos, entendi que estava me enganando, que era muito mais que aquele trauma.

Então, quando tomei a decisão de escrever minhas memórias em prosa, fiz questão de ser mais carinhoso comigo mesmo e com os migrantes com quem viajei.

É também a minha forma de criticar o que os jornalistas escreveram na época, quando se deu a crise na fronteira e parecia terem descoberto que havia crianças migrantes.

Sendo um deles, doía-me o que lia, aqueles relatos que nos reduziram a uma estatística ou ao perfil de alguém que sofre, que é um coitado que deve ser ajudado.

Eu sabia que aquilo não era tudo, que não passávamos 24 horas sofrendo. Há também momentos de ternura, momentos engraçados, de pura alegria, ao comer, por exemplo, ao provar os tacos, e em muitas outras coisas que espero que tenham sido captadas no livro.

De fato, um dos momentos mais emocionantes do livro acontece quando a polícia de imigração os detém e os obriga a deitar no chão com as extremidades estendidas, e você imagina que é o Superman e que está voando. É uma imagem que parte o coração. É real ou uma licença literária?

Estou convencido de que isso aconteceu.

Acho que é a técnica que meu cérebro usou para dissociar, então eu não queria estar deitado no chão com soldados apontando para nós. Preferi voar ou brincar com a lagartixa que apareceu naquele momento, que chamei de Paula.

Javier Zamora mora em Tucson, no Arizona, com a mulher dele. “Solito” é seu segundo livro — Foto: RANDOM HOUSE

Fazendo isso, transcendendo a cena, eu saio.

E eu sei o que aconteceu, que é verdade, porque ainda hoje quando estou numa situação que não quero estar, por exemplo numa conversa que não gosto com a minha mulher, eu digo “ah, olha, olha o pássaro, olha como ele voa”.

É algo que nunca vai embora, que aprendi quando criança através de um trauma, e que continua comigo.

Eu entendo que a primeira cena que você escreveu é a do barco, que sai da Guatemala para chegar ao México. E que, embora contenha a doçura de como seus companheiros cuidam de você, descreve uma situação brutal com detalhes raramente mencionados na imprensa, que só fala de naufrágios ou daqueles que conseguem atravessar e ficam detidos ou encurralados…

Comecei a escrever o livro como uma obra de memórias tradicional, como um homem de 29 anos, um poeta, que se lembra das piores nove semanas de sua vida.

Mas até eu, como escritor, fiquei entediado com o que escrevia.

Foi nesses dias que minha terapeuta sugeriu que eu fizesse o exercício de pensar no que aconteceria se eu me conectasse com aquela criança com quem por 20 anos eu não queria conversar ou me colocar na pele dela, no lugar dela.

Estamos falando de 2019 e nos jornais ainda havia muito pouco entendimento sobre o que é emigrar para os Estados Unidos. Eles só falavam sobre as caravanas de andarilhos ou a Besta, geralmente em caminhões ou trens de carga.

Mas essa não era minha história ou minha rota. E ninguém escreveu sobre esses barcos, que ainda são usados ​.

Foi algo que me enojava. E, quando comecei a escrever, veio-me esse capítulo, que escrevi quase compulsivamente, sem parar.

Foi uma experiência dura, mas escrevê-la no presente me ajudou a lembrar de muitas coisas, como o cheiro do mar misturado com gasolina e suor. Ou das tonturas e vômitos dos que foram comigo e como o vento nos devolvia o que eles vomitavam e ficávamos todos encharcados. Ou mesmo do homem que gritava porque tinha medo do mar e não sabia nadar e que me dava muito, muito medo, porque eu também não sabia nadar.

Você tinha medo de morrer ou mais medo de não chegar ao seu destino, de não conhecer seus pais?

Não sei se naquela idade eu compreendia cognitivamente o conceito de morte, embora, como todos os seres humanos, certamente tinha essa intuição.

Mas ver adultos tão cheios de medo me causou um grande horror, um terror que não se esquece, que te marca.

Pode-se dizer que, paralelamente à travessia, o livro é como uma viagem inaugural em que você nomeia muitas coisas que aprende ou acontece com você pela primeira vez, desde amarrar os cadarços, até descobrir novos países, comidas que você não experimentou antes, sua atração por Carla…

Sim, coisas lindas aconteceram comigo naquela viagem, mas, olhando para trás, percebi que não tive infância, que a perdi na viagem. E isso é triste.

Há uma cena particular que marca isso, que é quando experimento meu primeiro cigarro e os homens que me acompanham me mandam procurar gasolina em pó. Como uma piada. Porque eu era ingênuo e não sabia que não existia.

Para eles, aquela fumaça foi o que bastou para fazer esse menino de 9 anos se sentir mais homem ou mais poderoso. Sim, funciona. Mas aquele momento também marca o fim de uma etapa da infância, do que eu fui e do que teria sido se tudo o que aconteceu depois não tivesse acontecido.

É algo muito complexo, porque, ao mesmo tempo, o que aconteceu é o que me moldou e o que me fez ser a pessoa que sou.

Talvez por isso, por sentir que não tive infância, o melhor elogio que alguém pode me fazer quando nos conhecemos é dizer que pareço uma criança.

Como em qualquer história de migração, o coiote é um personagem importante em seu livro. Mas você diz que, para as pessoas da sua cidade, ele era uma figura familiar, como um “bom coiote”, o que soa bastante contraintuitivo.

Sim, esse é um ponto que muitas pessoas podem não entender, mas naquela época, nos anos 1990, muitas dessas pessoas, que chamávamos de coiotes, pensavam que estavam realmente ajudando outras pessoas, como eu ou como outras que estavam fugindo de uma guerra ou um pós-guerra, para se juntar a suas famílias nos Estados Unidos.

E, na cabeça das pessoas, aqueles coiotes estavam fazendo algo bom.

E, apesar de muito do que aconteceu comigo ter sido culpa de um coiote, sou da mesma opinião. De que sim, eles estavam fazendo algo bom.

Funciona um pouco como uma economia. O trabalho estava lá e alguém teria que fazer aquele trabalho.

Mas hoje o mercado ficou tão rico, tão bom, que virou um monopólio dominado pelos cartéis, que compram e alugam os coiotes. Não há coiotes que não pertençam a um.

A infraestrutura de imigração mudou exponencialmente para pior. É por isso que cada vez mais migrantes estão morrendo.

Nem salvadorenho, nem americano, você prefere ser descrito como migrante, certo?

Sim, sim, já usei essa palavra e pedi para que usem também, mas agora, em muitas das minhas palestras e entrevistas, estou tentando usar o termo sobrevivente, porque acredito que a palavra migrante foi tão distorcida que, pelo menos nos Estados Unidos, tornou-se muito negativa.

Vamos terminar falando de amor. Os relacionamentos que nascem em sua jornada são repletos disso. Depois de ter escrito tanto sobre a dor, não lhe apetece escrever sobre o amor?

Ah, sim, é verdade que talvez meus poemas não tenham tanto amor, mas vejo minha prosa, este livro, como uma grande carta de amor para nós quatro. A carta que eu sempre espero que leiam, ou ouçam dela e voltamos a nos encontrar.

E o que estou escrevendo hoje, que é tipo a segunda parte, minha vida nos Estados Unidos, acho que vai ser ainda mais difícil de ler, mas também é uma carta de amor, dessa vez para meus pais, que me tiveram aos 18 anos, e que também sofreram muito.

Para eles, o que aconteceu foi muito difícil. Meu pai diz que nunca vai esquecer o cheiro que eu tinha quando nos reencontramos. Ele chorou muito com isso.

Ele leu o livro, mas minha mãe não passou do primeiro capítulo.

E você sabe o impacto que teve sobre outros migrantes?

Veja, curiosamente, nos três anos que estive em turnê com meu livro de poemas, nunca falei com nenhum migrante sobre meu trabalho.

Mas com “Solito” é diferente. Tem sido maravilhoso que a leitura chegue às crianças ou que os adultos se aproximem de mim e digam “Eu também fui uma criança migrante”.

Chega a ser assustador que muitos me contem que cruzaram no mesmo mês e ano que eu, que estávamos no deserto de Sonora ao mesmo tempo. Por muito tempo, senti que estava sozinho naquele trauma, que tinha sofrido mais do que ninguém. E isso é muito tóxico, porque você deixa de se importar com quem está ao seu lado.

Mas não é verdade. Nós não estamos sozinhos. Somos muitos.

Agora mesmo, enquanto falamos, certamente há uma criança da Venezuela, de Cuba, da Nicarágua ou de El Salvador que está atravessando. Espero que eles também saibam que não estão sozinhos, que nunca estiveram.




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Por: G1

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