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O menino que teve ‘infância perfeita’ sem saber que o pai era um dos criminosos mais procurados do planeta

today26 de março de 2024 10

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Se você é fã, provavelmente se lembra da música Woke Up This Morning que toca na abertura.

Nick Reynolds faz parte do Alabama 3, a banda que escreveu esta música.

E, de certa forma, não é aí que termina a relação dele com a Família Soprano.



Ele cresceu à sombra de um dos crimes mais notórios do século 20.

“Minhas primeiras lembranças são realmente como cenas de um filme editadas aleatoriamente. E, como meu pai tinha uma câmera Super 8, e eu já vi imagens daquela época, e elas com certeza se misturam às minhas lembranças.”

“Me lembro de ter passado muito tempo na banco de trás de um carro, que era conduzido pela vastidão dos EUA.”

“E que em Tucson, no Arizona, meu pai comprou uma roupa de cowboy para mim.”

Mas o destino final da viagem era o México.

Memórias da Cidade do México e de Acapulco

Do México, ele se lembra, “mais do que tudo, de como era ensolarado, e das grandes avenidas e das palmeiras”.

Sua família era muito rica, e sua vida, luxuosa. “Meu pai estava entre os 2% mais ricos do México.”

“Eu frequentava uma escola criada para filhos de diplomatas americanos, e alugamos um apartamento do presidente do Banco do México (em um bairro elegante da Cidade do México).”

“Lembro que a banheira era de mármore preto, e era enorme, como uma piscina — eu podia brincar de batalha naval com meus brinquedos.”

“Era uma cobertura, então a vista das janelas era maravilhosa, você podia ver, inclusive, o vulcão Popocatépetl.”

Alguns meses depois, eles se mudaram para Acapulco, um lugar que Nick achou incrível.

“O hotel tinha um fosso ao redor em que se podia nadar. Também havia uma piscina lá dentro, em que se podia nadar debaixo d’água por um túnel que se conectava com uma lagoa que ficava no meio do mar.”

“Às vezes, saíamos num barco com fundo de vidro, e eu via meu pai com seu equipamento de mergulho embaixo d’água. Ele gostava muito de esportes: natação, mergulho, ciclismo.”

A vida dele era divertida, privilegiada e idílica.

“Era muito glamorosa. Meu pai era um grande homem de negócios que vendia acessórios para cigarros Dunhill.”

“Minha mãe sempre estava muito elegante; ela tinha as melhores roupas, e uma enorme coleção de perucas, então cada vez que eles saíam, ela parecia diferente.”

“Lembro que muitas vezes eles me deixavam com a empregada e iam para Las Vegas. Eram fascinados por Frank Sinatra.”

“Eles eram muito amorosos comigo, e pareciam totalmente apaixonados um pelo outro.”

Para Nick, era tudo normal. “Em nenhum momento, senti que estava sob alguma ameaça. Me sentia muito seguro e muito amado. Aqueles, muito possivelmente, foram os melhores anos, e mais felizes, da minha vida.”

Nada indicava que algo estava errado.

“Meu pai era muito seguro de si mesmo, e minha mãe acreditava 100% nele. Se não fosse assim, talvez eu tivesse notado que algo não estava muito certo, porque crianças são muito boas nesse tipo de coisa.”

E será que ele nunca se perguntou por que estava no México?

“Obviamente, o trabalho do meu pai era um dos motivos. Só comecei a me perguntar quem era realmente meu pai, porque tínhamos que nos mudar com frequência, e eu tinha que aprender diferentes nomes.”

Isso mesmo. No México, seu nome não era Nick. Na verdade, ele estima que teve cerca de cinco nomes entre 1963 e 1968.

“Me davam um passaporte novo, não me explicavam nada, apenas me diziam: ‘Agora esse é o seu nome, e mamãe e papai se chamam assim’.”

Nick era muito pequeno para questionar o que estava acontecendo.

“Parecia um jogo. Achava que meu pai era um espião ou algo assim… para mim, ele se parecia muito com James Bond. E era divertido termos um segredo.”

Mas a chegada de um visitante da Inglaterra mudou tudo.

A princípio, todos acolheram bem o “tio Jack” e sua família, mas logo o pai de Nick ficou preocupado que sua presença pudesse prejudicar sua imagem.

“Para aqueles que o conheciam no México, ele era praticamente um aristocrata, uma espécie de cavalheiro britânico. Mas o tio Jack era como um daqueles malandros simpáticos donos de uma banca no mercado.”

“Acho que meu pai teve um mau pressentimento, então decidiu que tínhamos que deixar o México.”

E assim, do nada, eles foram para o Canadá.

“Foi muito abrupto. Meu pai me disse: ‘Escolha seus brinquedos favoritos. Só podemos levar o que cabe no carro. Vamos embora agora’.”

“Foi desolador, mas ele me vendeu como mais uma grande aventura. Íamos ficar com alguém que tinha ido visitar meu pai no México, e tinha três filhas, e eu gostava muito dele, meu tio Chad.”

A família ficou em Montreal, depois foi para Vancouver, passou um tempo no sul da França e finalmente voltou para a Inglaterra — inicialmente, eles ficaram em Londres, e na sequência foram para Torquay, cidade que costumava ser chamada de Riviera Inglesa.

“Estávamos à beira-mar, e isso me lembrava um pouco do México, por isso gostei.”

O que ele não gostou foi da escola, porque “era dirigida por freiras, e a violência física parecia estar na ordem do dia”. Quando ele contou aos pais, eles disseram que não ficariam lá por muito tempo.

Fazia sentido. Afinal, seus pais eram espiões. Por que outro motivo eles mudariam seus nomes e passaportes? E sua mãe, de aparência?

“Meu pai estava praticamente escondido à vista de todos, pouco antes do meu mundo desmoronar por completo.”

No dia 9 de novembro de 1968, por volta das 7h30 da manhã, a campainha tocou.

“Inocentemente, abri, e imediatamente uma enxurrada de policiais entrou, eles subiram correndo para o quarto da minha mãe e do meu pai.”

“Ouvi um barulho lá fora, fui para o meu quarto olhar pela janela, e vi muita gente com câmeras.”

“Eu não estava assustado nem nada, porque pensei que meu pai estava sendo resgatado.”

“Só soube que não era bem isso quando meu pai veio até o meu quarto e me disse que havia se comportado mal, que sentia muito e que precisaria se ausentar por um tempo.”

“Eu perguntei a ele: ‘Até quando? E ele disse:’ Ainda não sei’.”

“Mesmo assim, não achei que fosse grave até ver minha mãe absolutamente arrasada, e pensei: ‘Isso não faz sentido!'”

“Eu não conseguia entender: se os policiais eram os mocinhos, e vieram buscar meu pai, isso significava que ele não era um mocinho? Isso me confundiu, porque eu só conseguia imaginá-lo como um herói.”

O pai de Nick, o espião super-herói da infância dele, estava na lista dos homens mais procurados do mundo da Interpol.

Era Bruce Reynolds, o cérebro por trás de um dos maiores e mais ousados ​​roubos da sua época — o famoso assalto ao trem pagador.

Em 8 de agosto de 1963, Bruce e um grupo de cúmplices armados (incluindo “tio Jack”), atacaram um trem dos correios que ia de Glasgow, na Escócia, a Londres, na Inglaterra, e roubaram £ 2,5 milhões, o que equivaleria a mais de US$ 50 milhões (R$ 250 milhões) hoje.

Bruce Reynolds morreu nesta quinta-feira aos 81 anos — Foto: Matthew Fearn/PA/AP

Foi um assalto lendário e também violento. O maquinista, Jack Mills, foi brutalmente espancado por um dos homens, e morreu dois anos depois.

Portanto, a riqueza da infância de Nick, daqueles dias despreocupados sob o Sol, não eram provenientes da venda de tabaco.

Alguns dos autores do assalto ao trem pagador com cópias do livro que escreveram em 1979. Da esquerda para a direita: Buster Edwards, Tom Wisbey, Jim White, Bruce Reynolds, Roger Cordrey, Charlie Wilson e Jim Hussey — Foto: Getty Images/Via BBC

O pai de Nick era um criminoso e, como ele descobriria mais tarde, o famoso assalto não era o único em que ele estava envolvido.

Antes do assalto ao trem pagador, houve outro também bastante notório em um aeroporto de Londres.

“(Eles) eram muito ousados. Faziam o tipo de roubo que, até então, só se via no cinema.”

Nick conta que seu pai adorava planejar os assaltos.

“Ele via os roubos como um diretor de cinema, roteirista e ator. Era uma unidade de produção completa.”

“E ele me disse que depois sentiu um grande anticlímax. Tinha acabado de realizar o maior roubo da história da Inglaterra até então e, em vez de se sentir eufórico, se sentiu mal porque pensou: ‘E agora?'”

A resposta, no caso de Bruce Reynolds, foi a prisão. Ele foi condenado a 25 anos, dos quais cumpriria dez.

Mas o que aconteceu com Nick? Como ele reagiu depois de abrir a porta e ver seu mundo desabar?

“Me lembro vividamente daquele momento porque foi quando a festa acabou: aquelas férias de seis anos e a unidade familiar desapareceram para sempre.”

“Minha mãe ficou completamente perdida sem meu pai. Pouco depois, desenvolveu vários problemas de saúde mental e, ao longo dos anos, foi internada mais de cinco vezes.”

“Para ela, foi o fim do mundo.”

“As crianças são bastante adaptáveis.”

“Eu tinha muita fé de que não seria assim para sempre, e que as coisas iriam melhorar.”

Embora tenha havido algo que o impressionou muito.

“Quando fui visitá-lo pela primeira vez na prisão, meu pai estava em uma caixa de vidro – como Hannibal Lecter. Eu nem sequer podia tocá-lo. Isso foi mais assustador. Pensei: ‘Meu Deus, quem é meu pai, para terem prendido ele assim!'”

A vida de Nick mudou drasticamente, até porque seus pais decidiram mandá-lo para um colégio interno, um lugar em que ele desesperadamente não queria estar.

Mas havia uma constante: seu relacionamento com o pai.

“Eu tinha passado mais tempo com meu pai naquela época do que a maioria das outras crianças. Tínhamos um vínculo muito, muito próximo.”

Da prisão, “ele me escrevia cartas muito longas. Era uma forma de me ensinar sobre tudo que interessava a ele, para que quando eu fosse à prisão tivéssemos muito o que conversar”.

Nick também escrevia para ele, e ia visitá-lo a cada duas semanas

Claro, ele manteve em segredo quem era seu pai por muito tempo.

“Se me perguntavam, eu dizia que era policial.”

Mas em algum momento de sua vida, ele percebeu que, sem querer, estava fazendo tudo o que seu pai queria, mas não podia fazer.

“Ele queria ser músico, mas não tinha aptidão musical (Nick ainda faz parte do Alabama 3). Ele queria estar na Marinha, mas sua visão não era boa (Nick ingressou na Marinha Real britânica quando terminou a escola).”

Seu pai adorava arte e costumava enviar um cartão postal com cada carta. Na frente, a imagem de alguma obra de arte; e no verso, descrições detalhadas sobre o artista e o estilo.

Aos poucos, Nick também ficou fascinado. Tanto que, hoje em dia, ele é o principal praticante no mundo de uma forma de arte quase esquecida: as máscaras mortuárias.

“Uma máscara mortuária é feita moldando as feições de uma pessoa morta. É quase como se o seu último suspiro tivesse sido congelado no tempo, é o último retrato.”

Em 2023, o museu National Portrait Gallery, em Londres, abriu uma nova ala — e parte dela é dedicada às máscaras mortuárias. Entre elas, estão obras de Nick.

O papel do pai no assalto ao trem pagador influenciou dramaticamente sua vida.

Será que, às vezes, ele deseja que nada disso tivesse acontecido? E que pudesse ter levado uma vida normal?

“As coisas não podem ser revertidas. Você é o que é. Passei minha vida inteira tentando jogar com as cartas que recebi, e não faz sentido reclamar.”

“Às vezes, acho um pouco irritante que aos 61 anos eu ainda seja ‘filho de alguém’. É uma grande sombra, e um peso que há muitos anos tento tirar dos ombros. Mas não é fácil de tirar, e tenho convivido com isso.”

“De qualquer forma, você tem que aproveitar ao máximo as coisas da vida e, se puder, ver o lado engraçado de tudo.”

Veja abaixo um vídeo de 2013 sobre a morte de um dos homens condenados pelo assalto ao trem pagador, Ronald Biggs.

Morre o britânico Ronald Biggs, aos 84 anos

Morre o britânico Ronald Biggs, aos 84 anos




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Por: G1

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