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Os 9 coliseus milenares mais bem preservados do mundo além de Roma

today19 de março de 2023 10

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Seu projeto é simples, mas revolucionário. E sua execução é tão extraordinária que eles continuam servindo de modelo para a construção de estádios até hoje.

E as arenas eram muito mais do que um campo de extermínio embebido em sangue. Seu significado simbólico, religioso e político ia muito além de um mero cenário de entretenimento.

Vespasiano foi o primeiro imperador romano que não contava com a legitimidade de ser descendente de Augusto. Por isso, ele precisava de uma obra que consolidasse o seu governo e a estabilidade da sucessão.



Assim surgiu o Anfiteatro Flávio, mais conhecido como o Coliseu de Roma. Não foi o primeiro, mas sua capacidade para 80 mil espectadores fez com que se tornasse o maior e mais imponente anfiteatro de pedra da Roma Antiga.

O Coliseu tornou-se imediatamente um símbolo do que era ser cidadão romano. Era onde o governante demonstrava o seu poder ao povo e o povo romano podia sentir seu próprio poder e a glória do império.

O Coliseu de Roma também refletia a sociedade romana. Seus assentos eram dispostos hierarquicamente. Os ricos e poderosos ficavam nos assentos dianteiros inferiores e as massas, separadas por classes, nos degraus superiores.

A ordem imposta na arena, o controle do organizador dos jogos e a ritualização de um processo caótico e sangrento simbolizavam a ordem imposta à sociedade pelo sistema imperial.

Imagem do Coliseu de Roma em sua construção original. Abaixo, representações de combates entre gladiadores (os ‘munera’), de gladiadores com animais (veações) e entre embarcações marítimas (as naumaquias) — Foto: Getty Images via BBC

Fora de Roma, as elites provincianas, na península italiana e fora dela, ficaram ansiosas para demonstrar seu alinhamento e lealdade com o mundo romano. Para isso, elas construíram outros anfiteatros e organizaram jogos.

E, quando estavam localizadas em contexto urbano, as arenas quase sempre ficavam na periferia da cidade.

Como em muitos aspectos dos jogos e anfiteatros, este era um ato simbólico. O anfiteatro ficava na fronteira em vários sentidos, demarcando o limite entre a vida e a morte, o perigo e a segurança, a ordem e o caos.

Como escreveu o historiador Thomas Wiedemann no seu livro “Emperors and gladiators” (“Imperadores e gladiadores”, em tradução livre), o anfiteatro “era visivelmente o lugar onde a civilização e a barbárie se encontravam”.

Os anfiteatros se estenderam por todo o território do império romano. Existem ainda hoje mais de 200 deles espalhados pelos antigos domínios de Roma. Alguns deixaram apenas um pequeno rastro, mas outros preservam sua gloriosa presença, alguns ainda servindo de cenários para o divino e o profano.

Estes são os nove coliseus mais bem preservados fora de Roma.

Inaugurado no ano 100 d.C., o anfiteatro de Nimes, na França, ainda hoje é palco de eventos esportivos e concertos — Foto: Krzysztof Golik/Janke via BBC

Com 133 metros de comprimento, 101 metros de largura e uma fachada com 21 metros de altura, o anfiteatro de Nimes, no sul da França, ainda conserva seus 34 degraus de assentos. Neles, mais de 23 mil gauleses e romanos presenciavam os combates entre gladiadores ou animais.

Até hoje, a arena é usada para eventos similares. Seu palco elíptico recebe touradas desde 1863, mas também concertos e eventos esportivos.

Na Idade Média, o anfiteatro foi transformado em fortaleza e foram construídas residências particulares no seu interior. As casas foram demolidas em 1809, mas a estrutura sobreviveu.

O Anfiteatro de Nimes foi inaugurado no ano 100 d.C., pouco depois do término da construção do Coliseu de Roma. Cerca de 90% dele estão preservados, incluindo quase todos os assentos e as 60 fileiras de arcos externos originais.

O anfiteatro de El Jem também é chamado de Coliseu de Thysdrus e, às vezes, de Ksar de Kahina, em homenagem à princesa berbere Kahina.

No século 7º, a princesa uniu as tribos berberes para impedir o avanço dos invasores muçulmanos. Ela se refugiou no anfiteatro com seus seguidores por quatro anos, até que foi derrotada.

O Coliseu de Thysdrus é o maior anfiteatro da África e o quarto do mundo, perdendo apenas para os coliseus italianos de Roma, Cápua e Pozzuoli. Ele fica na Tunísia – em El Jem, a antiga cidade de Thysdrus, que fazia parte da província romana na África.

O Coliseu de Thysdrus é considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Cerca de 70% da sua estrutura estão preservados. Algumas das suas pedras foram usadas para construir a cidade de El Jem, mas ainda existe parte dos relevos e esculturas da fachada, além dos fossos dos leões e do sistema de canalização e cisternas usado para recolher a água da chuva.

Ele foi inaugurado em cerca de 238 d.C. E, ao contrário de diversos outros anfiteatros, ele não foi construído a partir do subterrâneo, mas acima do solo, com arenito amarelo.

A arena tinha capacidade para 35 mil espectadores. Atualmente, 27 mil a 30 mil pessoas podem ouvir no verão, em vez das feras e dos gladiadores, melodias harmoniosas no Festival Internacional de Música Sinfônica de El Jem, todos os anos.

Voltamos ao sul da França, desta vez à cidade que encantou o pintor holandês Vincent van Gogh. Lá ele morou e pintou diversas das suas obras mais famosas.

Arles foi fundada pelos gregos no século 6º a.C. Os romanos a conquistaram em 123 a.C. e fizeram dela uma cidade importante e, naturalmente, digna de abrigar um anfiteatro.

Com capacidade para 20 mil pessoas, não é uma das arenas maiores, mas cerca de 90% da sua estrutura estão preservadas, incluindo a maioria dos assentos e grande parte da fachada.

Como ocorreu com a Arena de Nimes, a queda do Império Romano do Ocidente no século 5º fez com que o anfiteatro de Arles se transformasse em refúgio da população, abrigando uma fortaleza com quatro torres.

No seu interior, foram construídas mais de 200 casas. O coliseu passou a ser virtualmente uma cidade murada, com todas as construções necessárias, incluindo uma praça pública e duas capelas.

Mas, a partir de 1825, por iniciativa do escritor Prosper Mérimée, a arena passou a ser monumento histórico nacional. As casas foram lentamente desapropriadas e demolidas, até recuperar a aparência original do anfiteatro.

Como vários outros edifícios romanos da cidade, o anfiteatro é considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. E continua em uso até hoje, para touradas e eventos culturais.

Se a questão é permanecer em uso até hoje, precisamos ir diretamente até Verona, na Itália. O anfiteatro da cidade, na Piazza Bra, é certamente um dos mais concorridos, graças à popularidade dos eventos ali promovidos.

Com sua impressionante acústica, a arena recebe o Festival de Verona. Os espectadores comparecem para ouvir óperas que começam ao entardecer, sentados nos antigos assentos de pedra e segurando velas quando cai a noite.

E não apenas ópera é apresentada nesta arena da região italiana do Vêneto, construída no ano 30 d.C. Artistas internacionais como Paul McCartney, Elton John e Adele já se apresentaram ali. E o coliseu de Verona também foi escolhido, em várias ocasiões, para receber a chegada da competição de ciclismo Volta à Itália.

O anfiteatro conserva 100% dos assentos e a estrutura interna. Mas um terremoto no século 12 danificou os arcos da fachada original. Apenas quatro deles foram mantidos – os demais foram demolidos e seu material foi reutilizado em outros lugares.

O anfiteatro de Pula, na Croácia, também conhecido como Pula Arena, é o único anfiteatro preservado que conta com quatro torres e as três ordens arquitetônicas clássicas perfeitamente preservadas na sua altura.

Ele foi alterado diversas vezes ao longo da história, mas a estrutura que se vê atualmente foi inaugurada no ano 81 d.C.

Sua fachada é espetacular. A parte mais alta atinge mais de 100 metros, com três níveis de arcos.

Sua arquibancada principal acomodava 23 mil espectadores. Ela era separada da arena por portões de ferro.

A Pula Arena correu o risco de ser demolida em 1583. Naquele ano, o Senado veneziano quis transportá-la e reconstruí-la em Veneza, mas a ideia foi descartada.

Em 1932, a estrutura foi adaptada para receber mais de 7 mil pessoas. Atualmente, ela recebe óperas, festivais de cinema, concertos e até partidas de hóquei.

6. Anfiteatro Romano de Pompeia

O anfiteatro de Pompeia, na Itália, é o mais antigo coliseu romano ainda existente. Ele foi construído no ano 70 a.C. e podia receber até 20 mil espectadores, que eram separados da arena por um parapeito decorado com afrescos retratando gladiadores.

No ano 59 d.C., o Senado romano decidiu fechar a arena, depois de violentos distúrbios durante um combate de gladiadores, envolvendo moradores de Pompeia e da cidade de Nucéria.

A medida foi cancelada no ano 62 d.C, depois que um forte terremoto atingiu a cidade. E, 17 anos depois, o anfiteatro foi sepultado, com todo o restante da cidade, durante a erupção do monte Vesúvio.

Atualmente, os visitantes do sítio arqueológico de Pompeia podem caminhar dentro e em volta do anfiteatro.

Apesar da quantidade de espectadores que a arena podia receber, sua fachada tem apenas um andar, já que grande parte da estrutura foi escavada profundamente na terra.

Estamos de volta à Tunísia. Não surpreende, já que o norte da África era uma região importante para o império romano.

O Anfiteatro de Oudna tinha capacidade para mais de 16 mil espectadores. Metade dele foi escavada em uma colina. A outra metade foi erguida sobre o solo.

Os arcos de pedra que restaram da sua fachada são suficientes para mostrar que se tratava de uma construção impressionante.

8. Anfiteatro de Leptis Magna

Continuamos no norte da África – agora, em uma importante cidade da época do império romano: Leptis Magna, na Líbia.

Seu anfiteatro foi escavado em uma depressão natural, ou em uma antiga pedreira, no terraço rochoso a sudeste da cidade, perto do mar. Cerca de 16 mil pessoas podiam acomodar-se nos seus degraus, que, como os corredores, estão muito bem conservados.

Sabemos pelas inscrições que a elite preferia sentar-se nas fileiras de assentos inferiores, na parte sudeste do anfiteatro. Ali, elas podiam desfrutar da brisa e admirar esculturas como o altar de Nêmesis, a deusa da perdição, que era uma das divindades preferidas nos anfiteatros romanos.

A construção foi dedicada ao imperador Nero. E, graças a essa inscrição, pode-se definir a data de término da obra perto do ano 56 d.C.

9. Anfiteatro de Avenches

Finalizamos com Aventicum, hoje Avenches, a cidade que foi capital da Suíça romana. Seu anfiteatro foi inaugurado no ano 165 d.C., com capacidade para 16 mil espectadores.

Ao longo do tempo, ele foi rodeado por construções medievais e chegou a receber uma torre de defesa no século 11.

A arena deixou de receber espetáculos no século 4º e passou a servir de pedreira. Grandes partes da sua fachada foram retiradas para a construção de outros edifícios. O tempo foi cobrindo muitas das suas fileiras de assentos, que não foram escavadas.

Mas o que restou está muito bem conservado e foi colocado em uso. Nas noites de verão, o anfiteatro recebe um público apaixonado em diversos eventos musicais, como o festival Rock Oz’Arènes, com sua programação eclética e a participação de estrelas internacionais.

E, durante o dia, os visitantes podem visitar o centro da arena – o local onde, quase dois milênios atrás, ocorriam as batalhas de gladiadores.




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Por: G1

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