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Peças esculpidas por indígenas em 1559 voltam ao Brasil e remetem ao início da colonização

today25 de abril de 2024 5

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O arquiteto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) Victor Hugo Mori contou ao g1 que a maioria das peças é de 1559, segundo ele, um período desconhecido até para quem estuda os jesuítas.

“É um achado para a gente […] É uma viagem de volta para um passado desconhecido, porque o passado depois de 1567 nós conhecemos, temos objetos, igrejas, várias coisas assim”, disse ele.

Os indígenas realizavam as esculturas em relevo, sob orientação dos padres da Companhia de Jesus – ordem religiosa fundada em 1534, mesclando os conhecimentos com os dos colonizadores. As peças compunham não somente os altares, mas a mesa de comunhão da então Igreja Matriz.



Victor Hugo e Percival Tirapeli, professor doutor e pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp), tiveram acesso às talhas [como são chamadas as peças] em outubro de 2023 (entenda abaixo).

Em uma viagem ao tempo, o arquiteto explicou que a então Vila de São Vicente ganhou a Igreja de Jesus em 1559, depois que a primeira, fundada em 1532 por Martim Afonso de Sousa, foi destruída por um maremoto.

Com o passar do tempo, a Igreja de Jesus também ficou em ruínas e deu lugar à construção da atual Igreja Matriz, datada de 1757.

Como as igrejas do período colonial não descartavam peças devocionais após elas quebrarem ou se tornarem inutilizadas, elas passavam por cerimônias “fúnebres” nas quais eram enterradas sob o piso ou colocadas nas paredes.

“O padre construtor dessa [nova igreja], Thomé Rodrigues, não reaproveitou as talhas da antiga e as emparedou na parede do batistério”, explicou o arquiteto.

Já no século XX, por acidente, um padre da igreja abriu o nicho [um buraco na parede] e redescobriu as talhas. “Ele encontrou uma ‘cápsula do tempo’ que vinha do século XVI. E ele achou as peças muito lindas”.

Verga de pedra do portal da igreja de 1559, com data e o nome Igreja de Jesus, que ainda existe e está no Museu do Ipiranga (SP) — Foto: Victor Hugo Mori/Iphan

Em 1920, a igreja contratou o arquiteto Georg Przyrembel para uma reforma do interior e, como pagamento, entregou as peças históricas a ele. A família do polonês, que teve atuação marcante em território brasileiro, as guardou e, anos atrás, as levou para Boston (Estados Unidos) durante uma mudança.

No ano passado, elas retornaram para o Brasil e pararam nas mãos de Percival, que esteve em contato com os familiares do arquiteto por 20 anos. Tanto ele quanto Victor Hugo ficaram “maravilhados” com a descoberta.

Segundo o arquiteto, os indígenas imprimiam traços da própria cultura na madeira por não conhecerem os elementos na simbologia cristã. Enquanto os jesuítas riscavam o desenho básico da peça com carvão, os povos originários entalhavam os detalhes com goivas, serras e outros instrumentos que os jesuítas trouxeram para o país.

“Eles nunca viram águia, então a águia tem a cabeça de papagaio. Nunca viram um carneiro, então desenham como se fosse um quati. O fruto proibido, com a serpente, eles nunca viram uma maçã, então desenharam um fruto de caju”, relatou.

Carátides esculpidas por indígenas no século XVI, em São Vicente (SP) — Foto: Victor Hugo Mori/Iphan

Com base nas descobertas, os pesquisadores trabalharam no livro “As Talhas Jesuíticas da Matriz de São Vicente – 1559 por cerca de quatro meses com a ajuda de outros pesquisadores, incluindo teólogos. A obra de 200 páginas foi lançada no outeiro de Santa Catarina, no último sábado, local que é considerado o marco inicial santista.

“[As talhas] estão em processo de doação pela família Przirembel, mas as duas cariátides (colunas com figura feminina) com rostos de curuminha (indiazinhas) já foram doadas e estão em exposição no museu em São Paulo”, detalhou.

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Por: G1

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