G1 Mundo

Por que os EUA querem colocar a China na lista de países desenvolvidos?

today5 de abril de 2023 7

Fundo
share close

Os chineses estão bravos. “Este é mais um exemplo da vontade americana de conter economicamente, politicamente e diplomaticamente a China”, afirma o China Daily, jornal oficial do Partido Comunista Chinês. O tom é seguido mesmo pelo South China Morning Post, jornal de Hong Kong mais independente, que diz que “isto será interpretado como uma estratégia americana para sufocar o desenvolvimento chinês”.

A razão da ira é o projeto de lei que pretende tirar da China o estatuto de país em desenvolvimento, aprovado por unanimidade na semana passada pelos deputados americanos. O texto será apreciado agora pelo Senado dos EUA.

De obsessão trumpista a consenso



Se o projeto de lei for aprovado, o secretário de Estado, Anthony Blinken, terá a missão de convencer grandes instituições internacionais, como o Banco Mundial, a ONU (Organização das Nações Unidas) e o FMI (Fundo Monetário Internacional), de que a China não é mais apenas um país em desenvolvimento.

“A República Popular da China é a segunda maior economia do mundo, respondendo por 18,6% da economia global. Os Estados Unidos são considerados um país desenvolvido, portanto a República Popular da China também deveria ser”, explicou o republicano Young Kim, deputado pela Califórnia.

Esta batalha para trazer a China para o clube dos países desenvolvidos não é nova. Foi uma das ideias fixas de Donald Trump ao longo de seu mandato. Em 2019, o ex-presidente americano acusou Pequim de “trapacear” com as regras do comércio internacional e durante a campanha de 2020, em que perdeu a eleição, ele martelou seu objetivo de retirar do rival econômico o status de país em desenvolvimento.

A unanimidade na votação entre deputados mostra que, o que era uma obsessão de Trump, agora é consenso entre democratas e republicanos. Não faltam razões para classificar a China como um país rico, e isso não está apenas relacionado ao seu PIB (Produto Interno Bruto).

“Podemos considerar que um país em desenvolvimento possa ser também a principal potência industrial mundial e o segundo maior exportador de automóveis?”, questiona o especialista em economia chinesa Jean-François Dufour, cofundador do centro de estudos sobre a China Sinopole.

“Aos olhos de Washington, a China também adota comportamentos típicos de países desenvolvidos, como o vasto programa de investimentos no exterior, as Novas Rotas da Seda e os enormes recursos destinados à modernização de seu Exército”, acrescenta Xin Sun, especialista em economia chinesa do King’s College, em Londres.

Pequim quer ser pobre no papel

De seu lado, Pequim lista numerosos argumentos para permanecer entre os países em desenvolvimento. Em primeiro lugar, “de acordo com os critérios de classificação de países do Banco Mundial (Índice de Desenvolvimento Humano), e o utilizado pelas Nações Unidas (PIB per capita), a China está abaixo dos países desenvolvidos”, observa Xin Sun.

De acordo com o Banco Mundial e a ONU, a China está na mesma categoria do México e da Malásia.

A riqueza da China também depende muito de algumas metrópoles, como Pequim e Xangai. “Esquecemos com frequência a China invisível, ou seja, as áreas rurais onde ainda vivem 64% da população. As condições de vida – seja em termos de acesso à saúde, qualidade da infraestrutura ou de aquecimento doméstico- ainda estão no nível dos países em desenvolvimento”, diz Carlotta Rinaudo, uma especialista chinesa do grupo de estudos International Teal for the Study of Security (ITSS) Verona.

Se Washington e Pequim brigam em relação a essa categorização é porque “a principal vantagem deste status de ‘país em desenvolvimento’ é que ele permite que a China se beneficie em tratados internacionais que estão em vigor”, explica Jean-François Dufour. Os empréstimos concedidos pelo Banco Mundial aos países em desenvolvimento têm taxas de juros mais baixas e estes países podem impor tarifas sobre as importações dos chamados países ricos.

Além disso, “os países em desenvolvimento estão sujeitos a menos restrições na luta contra o aquecimento global”, assinala Xin Sun.

Os Estados Unidos querem que isto acabe por “considerar que Pequim está usando as vantagens deste estatuto para ampliar sua influência na cena internacional às custas de Washington”, analisa Carlotta Rinaudo.

Assim, a China pode obter empréstimos preferenciais de organizações internacionais financiadas principalmente pelos Estados Unidos e depois investir em países onde Pequim está procurando competir com Washington. Em outras palavras, os legisladores americanos temem que parte do dinheiro que os EUA fornecem a estruturas como o Banco Mundial acabe nos bolsos da China, que o utiliza contra os interesses americanos.

Pequim diz não precisar de dinheiro de instituições internacionais para investir em países estrangeiros. Para a China, esta campanha americana tem como único objetivo desacelerar seu crescimento e destruir empregos na China.

“As consequências econômicas podem ser reais. De fato, sem este status, Pequim não seria mais capaz de impor tarifas às importações [que elevam o preço dos bens produzidos no exterior] e estas empresas se tornariam menos competitivas, o que poderia forçar alguns a demitir trabalhadores”, avalia Xin Sun.

Este cabo de guerra também tem implicações geopolíticas. “A China tem frequentemente jogado a carta do líder do grupo de países em desenvolvimento contra os chamados países ricos liderados pelos EUA”, observa Xin Sun.

Se Washington conseguir incluir a China no clube dos países desenvolvidos, “será mais difícil para Pequim se apresentar como uma alternativa aos países ricos ‘maus'”. A China atravessará o espelho e se tornará oficialmente uma potência que pode dominar outros e que não poderá mais se passar por um ‘país irmão’ compartilhando os mesmos problemas”, diz Jean-François Dufour.

A batalha sobre o futuro do status da China deve durar muito tempo. Se o projeto de lei americano for aprovado, ainda será necessário convencer as instituições internacionais, “o que pode levar anos”, diz Xin Sun.

Enquanto isso, a Índia deve acompanhar de perto essas discussões. Se a China não for mais considerada um país em desenvolvimento, haverá um lugar a ocupar à frente deste bloco de países, uma posição interessante para o principal rival asiático da China.




Todos os créditos desta notícia pertecem a G1 Mundo.

Por: G1

Esta notícia é de propriedade do autor (citado na fonte), publicada em caráter informativo. O artigo 46, inciso I, visando a propagação da informação, faculta a reprodução na imprensa diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diários ou periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de onde foram transcritos.

Avalie

Post anterior

sirio-que-chegou-como-refugiado-e-eleito-prefeito-na-alemanha

G1 Mundo

Sírio que chegou como refugiado é eleito prefeito na Alemanha

O sírio Ryyan Alshebl, de 29 anos, que chegou à Alemanha como refugiado em 2015, foi eleito prefeito da pequena cidade de Ostelsheim, no sul da Alemanha, no domingo passado (02/04). A vitória dele não é nenhuma obviedade num ambiente rural e conservador, observou o novo prefeito. "Hoje fizemos história", declarou Alshebl, acrescentando que Ostelsheim, com apenas 2.500 habitantes, enviou uma mensagem de tolerância e cosmopolitismo para toda a Alemanha. […]

today5 de abril de 2023 10

Publicar comentários (0)

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.


0%