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Quem foi Priscilla Henry, a ex-escravizada que fez fortuna com prostituição e comprou fazenda onde nasceu nos EUA

today15 de abril de 2024 13

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Mas essa mulher negra do século 19 teve uma vida digna de um filme de Hollywood.

Henry nasceu e viveu boa parte da sua vida escravizada. Mas quando conseguiu sua liberdade, começou a acumular uma das maiores fortunas do seu tempo, o que lhe permitiu comprar a fazenda em que nasceu.

Tudo isso, porque ela comandou um negócio controverso que, até então, era dominado por brancos: a prostituição.



A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) consultou documentos e especialistas para saber mais sobre a vida de Henry, considerada por alguns não só uma promotora da integração racial, mas também uma pioneira das mulheres empresárias e defensora da liberdade sexual.

BBC // Não existe retrato conhecido de Priscilla Henry que tenha sido pintado durante sua vida, mas a artista norte-americana Cassandra Fay imaginou como ela teria sido — Foto: BBC // Cassandra Fey

Priscilla Henry nasceu em 1819, em uma fazenda na cidade de Florence, no Estado do Alabama (sul dos Estados Unidos), segundo a professora Ashley B. Cundiff, da Universidade de Wisconsin (EUA), na sua tese de doutorado dedicada à cultura dos bordéis no país norte-americano.

Ela era a mais velha de seis irmãos e permaneceu trabalhando nos campos pertencentes ao latifundiário James Jackson Jr. pelo menos até 1865.

Jackson se negou a libertar a ela e às demais pessoas que mantinha sob seu poder – mesmo com a escravidão abolida formalmente no governo de Abraham Lincoln, dois anos antes.

Assim que conseguiu sua liberdade, Henry se dirigiu a Mound City, como era conhecida na época a cidade de St. Louis, no Estado americano do Missouri. A cidade ficava a cerca de 615 km ao norte do seu Estado natal. Lá, ela começou a trabalhar como empregada doméstica.

“Henry foi a St. Louis porque, naquela época, as lavadeiras ganhavam mais dinheiro na cidade do que em outros lugares do país”, afirmou à rádio pública de St. Louis (a STLPR) o jornalista americano Julius Hunter, autor do livro Priscilla and Babe: From Slavery’s Shackles to Millionaire Bordello Madams in Victorian Saint Louis (“Priscilla e Babe: dos grilhões da escravidão para madames milionárias dos bordéis na St. Louis vitoriana”, em tradução livre).

O jornalista passou seis anos pesquisando nas bibliotecas, nos registros públicos e das igrejas, além dos arquivos dos jornais locais para sua pesquisa sobre Henry e outra madame da época, chamada Sarah “Babe” Connor.

Prostituição no século 19

Mas Henry passou pouco tempo lavando roupa e limpando os quartos e outras acomodações dos hotéis.

Como em outras cidades nas margens dos rios Mississippi e Missouri, a prostituição era uma indústria florescente em St. Louis.

“No século 19, St. Louis chegou a ter 5 mil prostitutas, para uma população de apenas 350 mil habitantes”, explicou Hunter.

Depois da Guerra Civil Americana, a cidade atraiu veteranos desencantados, ex-escravizados, aventureiros e caçadores de tesouros, o que explica o auge do negócio do sexo.

Esta atividade chegou a ser tão lucrativa que, em 1870, as autoridades locais legalizaram temporariamente o trabalho sexual e começaram a cobrar impostos dos bordéis e das prostitutas registradas.

A incursão de Henry no setor não foi intencional, mas consequência de uma tragédia. O hotel onde ela trabalhava pegou fogo e, por isso, ela acabou em uma pensão onde moravam mulheres que vendiam serviços sexuais.

Seu encontro com o ex-soldado confederado Thomas Howard, que também foi seu amante, abriu para ela as portas do sexo por dinheiro.

Mas sua relação comercial e amorosa terminou mal. Howard chegou a administrar os bens de Henry, mas cometeu fraude e foi até acusado de matá-la.

Uma sobrinha de Henry afirmou que o ex-soldado envenenou Henry com a ajuda de sua cozinheira pessoal, Florence Williams, segundo informa a professora Cundiff em suas pesquisas.

Os registros do censo local revelam que a mulher começou a dirigir um bordel que empregava cinco mulheres negras de 19 a 30 anos. O local “se tornou o ponto de encontro de marinheiros e aventureiros, brancos e negros”, descreveu o jornal St. Louis Post Dispatch em novembro de 1895, no obituário publicado pela morte de Henry.

“Na cidade, havia uma madame, Eliza Haycraft, que era a rainha dos bordéis e que, com sua morte, em 1871, deixou um vazio que Henry e suas apoiadoras aproveitaram, pois consideraram que era tempo de que as mulheres de cor entrassem naquele campo”, explica Hunter. “No momento da sua morte, Haycraft deixou US$ 30 milhões em dinheiro e propriedades.”

A postura liberal de St. Louis sobre a prostituição contrastava com seus costumes conservadores com referência às relações inter raciais.

Depois da Guerra Civil, as autoridades estaduais aprovaram leis que endureceram as penas de prisão para as pessoas que mantivessem relações sexuais ou pretendessem se casar com pessoas que tivessem cor de pele diferente.

Para evitar problemas com as autoridades, a empresária tinha recintos segregados. Em alguns deles, ela atendia pessoas brancas e, em outros, pessoas de cor.

Mas os homens brancos podiam visitar os dois estabelecimentos, enquanto os negros não tinham a mesma possibilidade.

“Ela estruturou seu negócio de forma a poder atender o público masculino branco, mas respeitando as leis contra a mestiçagem”, afirma Cundiff.

“Ela entendeu que essas leis procuravam impedir que os homens negros interagissem com mulheres brancas, mas eram mais permissivas quanto a homens brancos com mulheres negras.”

“[Henry] manteve longa relação com a polícia para manter essa precária divisão de casas por cor e, por isso, seu negócio conseguiu proteção”, afirmou a especialista na sua pesquisa.

Esta capacidade de contornar as regulamentações permitiu a Henry fazer florescer seu negócio. E, com o passar do tempo, ela comprou diversas casas na cidade, que transformou em bordéis ou alugou para que outras colegas fizessem funcionar prostíbulos.

O fato de Henry ser analfabeta também não a impediu de acumular grande fortuna, estimada em US$ 100 mil no momento da sua morte, em 1895. Este montante corresponde, em valores atuais, a cerca de US$ 3,7 milhões (cerca de R$ 18,5 milhões).

“A maioria dos seus negócios era feita na base do aperto de mão e, como o trabalho sexual era proibido na maior parte da sua vida empresarial, era uma vantagem para ela garantir que nada estivesse escrito “, explicou à BBC News Mundo a professora Mali Collins, do Centro de Estudos Afro-Americanos da Universidade Americana de Washington, nos Estados Unidos.

“Henry também conhecia a demanda do seu mercado: St. Louis está localizada na parte baixa do rio Mississippi e era visitada por ribeirinhos e empresários para trocar mercadorias.”

“Por ser uma cidade muito visitada e com seu próprio e próspero “Distrito Vermelho”, no qual muitos bordéis eram de propriedade de Henry, a empresária monopolizou a indústria das acompanhantes”, acrescenta Collins.

Nos últimos anos de vida, Priscilla Henry voltou ao Alabama, seu Estado natal – mas não como servente e sim como ama e senhora.

A mulher teve um gesto mais do que incomum ao comprar a fazenda onde ela e seus irmãos nasceram e foram forçados a trabalhar como escravos durante boa parte da vida.

“Este deveria ter sido um momento de reviravolta nas notícias locais e nacionais, em relação às crescentes mudanças nos negócios que os homens e as mulheres negras americanas estavam protagonizando antes da virada do século”, destaca Collins.

Mas os meios de comunicação da época não se concentraram nisso, nem na astúcia empresarial demonstrada por Henry ao longo da vida.

“A malvada e notória idosa Priscilla Henry morreu”, foi o título de um jornal local ao informar a notícia e acusá-la de incentivar “as paixões depravadas”.

Com o passar do tempo, a lembrança de Henry foi se desvanecendo – o que parecia impossível no momento da sua morte. Afinal, a notícia foi divulgada até por jornais de Nova York.

Nas ruas de St. Louis, centenas de pessoas se perfilaram para acompanhar o caixão, segundo a Associação da Imprensa Histórica de St. Louis, em um livro intitulado Groundbreakers, Rule-Breakers & Rebels: 50 Unstoppable St. Louis Women (“Pioneiras, desrespeitadoras de regras e rebeldes: 50 mulheres imparáveis de St. Louis”, em tradução livre).

A professora Collins acredita que Henry ter caído no esquecimento é uma injustiça, já que ela contribuiu não só para a luta contra a discriminação racial, mas também para a libertação das mulheres.

“Terminar sua vida com US$ 3,7 milhões acumulados é algo extraordinário, considerando suas circunstâncias de vida, mas este não foi o maior sucesso de Henry.”

“Ela teve como clientes muitos empresários e conheceu personagens importantes e influentes, que ela incentivou a trabalhar contra as regulamentações relativas ao trabalho sexual, que limitavam suas crenças sobre a autonomia do corpo e a iniciativa empresarial das mulheres”, explicou Collins.

Além disso, a professora afirma que a vida de Henry serviu para eliminar certos preconceitos.

“Como proprietárias de negócios brilhante e criativa, ela derrubou estereótipos culturais relativos às mulheres negras, contribuindo para legitimar o trabalho sexual como uma indústria real”, acrescentou Collins.

Por fim, Hunter lamenta que a história desta mulher tenha sido ignorada por tanto tempo, mesmo tendo feito parte do passado da cidade.




Todos os créditos desta notícia pertecem a G1 Mundo.

Por: G1

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