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‘Tem 150 pessoas enterradas aqui, e conhecia quase todas. Só eu sobrei’: o inferno da guerra esquecida no Sudão

today22 de março de 2024 13

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Um alto funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU) descreveu o conflito como uma “guerra oculta” que mergulhou o país em um “dos piores pesadelos humanitários da história recente”, enquanto outros alertam que pode desencadear a maior crise de fome no mundo.

Há também receios de que em Darfur, no oeste do país, possa estar começando a acontecer uma repetição daquilo que os EUA chamaram de genocídio há 20 anos.

AVISO: este artigo contém relatos de violência física e sexual.



Do nada, uma enorme explosão sacode a estrada em Omdurman. As pessoas berram e correm em todas as direções, gritando: “Voltem, voltem, vai ter outra”. Uma fumaça espessa cobre tudo.

Momentos antes, a rua arrasada estava repleta de pedestres que compravam arroz, pão e legumes nos mercados, que só recentemente começaram a reabrir.

Em meados de fevereiro, o Exército sudanês retomou a cidade — uma das três ao longo do Rio Nilo que compõem a região metropolitana da capital do Sudão, Cartum.

Os civis já começaram a regressar, mas morteiros, como o lançado no meio desta rua principal, ainda caem diariamente.

Para os meios de comunicação internacionais, tem sido difícil obter acesso para cobrir a guerra civil que eclodiu em abril do ano passado — mas a BBC conseguiu chegar à linha da frente. Encontramos o outrora movimentado centro de Omdurman transformado em um terreno baldio escassamente povoado.

O violento embate pelo poder entre os militares do país e seu antigo aliado, o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), matou pelo menos 14 mil pessoas em todo o país — possivelmente muito mais.

Há quase um ano, o Exército e as RSF lutam por Cartum e pelas cidades vizinhas.

As RSF assumiram o controle de áreas ao sul da capital, assim como de grandes partes de Darfur, que vive há anos em turbulência devido à violência entre suas várias comunidades africanas e árabes.

Mulheres que fugiram de Darfur para o Chade, país vizinho, contaram à BBC terem sido estupradas — às vezes, diversas vezes — por milicianos. Os homens nos acampamentos disseram que tinham escapado de execuções e raptos nas ruas.

Incorporada à linha de frente de combate junto ao Exército em Omdurman, a equipe da BBC teve seus movimentos cuidadosamente controlados — havia uma espécie de guarda-costas com a gente, e não tínhamos autorização para filmar atividades militares.

O Exército teme que informações sobre suas atividades sejam vazadas.

Quando nosso cinegrafista começa a filmar as consequências da explosão do morteiro, homens armados em trajes civis o cercam — um deles aponta uma arma para a cabeça dele.

Acabou que eles eram integrantes do serviço de inteligência militar, mas é um sinal de quão alta a tensão está.

Apesar da recente conquista do Exército em Omdurman, ainda ouvimos trocas de tiros na região de vez em quando.

Parte da linha de frente está agora ao longo do Nilo, que separa Cartum, no lado leste, de Omdurman, que fica a oeste do rio.

Os militares dizem para a gente que atiradores das RSF estão posicionados em blocos de apartamentos do outro lado do rio, em relação ao Exército sudanês, posicionado no prédio do Parlamento, seriamente danificado.

O antigo mercado de Omdurman, outrora movimentado com visitantes e moradores locais , está em ruínas — e suas lojas foram saqueadas. A maioria dos veículos nas estradas são militares.

Mais de três milhões de pessoas fugiram do estado de Cartum nos últimos 11 meses, mas alguns moradores de Omdurman se recusaram a sair. A maioria que encontramos são idosos.

A menos de um quilômetro da linha da frente, Mukhtar al-Badri Mohieddin caminha com um cajado perto de uma mesquita com a torre danificada.

A área aberta do lado oposto está coberta por sepulturas improvisadas — montes de terra marcados com pedaços de tijolos quebrados, tábuas e placas de concreto.

“Há 150 pessoas aqui. Conhecia muitas delas, Mohamed, Abdullah… Jalal”, diz ele, fazendo uma longa pausa diante de um nome, Youssef al-Habr, um conhecido professor de literatura árabe.

“Só eu sobrei”, acrescenta.

Os militares sudaneses têm sido criticados pelo uso intensivo de bombardeios aéreos, incluindo em áreas civis onde os combatentes das RSF se escondem — embora afirmem que tomam as “precauções necessárias” para proteger os civis.

As pessoas aqui responsabilizam ambos os lados pela destruição dentro e ao redor da capital.

Mas muitas acusam as RSF de saques e ataques durante o período em que controlavam a área.

“Eles retiraram pertences das casas, roubaram carros, aparelhos de TV, espancaram pessoas idosas, até mesmo mulheres”, conta o morador Muhammad Abdel Muttalib.

“As pessoas morreram de fome, tirei algumas de suas casas para que os corpos não apodrecessem lá dentro”, acrescenta.

Ele diz que é “de conhecimento geral” que mulheres foram estupradas em suas casas — e apalpadas durante verificações de segurança.

Afaf Muhammad Salem, com quase 60 anos, vivia com os irmãos em Cartum quando a guerra começou.

Ela diz que se mudou para Omdurman, do outro lado do rio, depois de terem sido atacados por combatentes das RSF, que, segundo ela, saquearam sua casa e atiraram na perna do seu irmão.

“Eles estavam espancando mulheres e idosos, e ameaçavam meninas inocentes”, relata.

Em uma referência velada à violência sexual, que é um tema considerado tabu no Sudão, ela acrescenta:

“Insultar a honra causa mais danos do que levar dinheiro”.

As vítimas de estupro podem enfrentar uma vida inteira de estigma e marginalização por parte das suas próprias famílias e comunidades. Muitas gente em Omdurman não qui discutir o assunto.

Mas a mais de 1.000 quilômetros a oeste, nos extensos campos de refugiados ao longo da fronteira com o Chade, o volume de relatos de violência sexual que estão surgindo, está forçando um novo e sombrio nível de abertura.

Amina, cujo nome alteramos para proteger sua identidade, foi até uma clínica temporária administrada pela organização Médicos Sem Fronteiras, em busca de um aborto. Ela nos cumprimenta sem olhar para cima.

A jovem de 19 anos, que fugiu de Darfur, no Sudão, só descobriu que estava grávida um dia antes. Ela espera desesperadamente que sua família nunca descubra.

“Não sou casada e era virgem”, diz Amina, hesitante.

Em novembro, milicianos pegaram ela, com a tia e os primos, enquanto fugiam da sua cidade natal, Ardamata, para a cidade vizinha de Geneina.

“Os outros escaparam, mas eles ficaram comigo por um dia inteiro. Eram dois, e um deles me estuprou várias vezes antes de eu conseguir escapar”, diz ela.

O domínio crescente das RSF em Darfur, apoiado pelas milícias árabes aliadas, trouxe consigo um aumento de ataques de origem étnica contra a população negra africana, especialmente o grupo étnico Masalit.

A história de Amina é apenas um dos muitos relatos de ataques contra civis ocorridos por volta de 4 de novembro, quando as RSF e seus aliados tomaram uma base militar sudanesa em Ardamata.

De acordo com um relatório recente da ONU, ao qual a BBC teve acesso, acredita-se que mais de 10 mil pessoas tenham sido mortas na região desde abril.

A ONU documentou cerca de 120 vítimas de violência sexual relacionada com o conflito em todo o país, o que considera ser “uma vasta sub-representação da realidade”.

O relatório afirma que homens uniformizados das RSF e homens armados afiliados ao grupo foram denunciados como responsáveis por mais de 80% dos ataques. Separadamente, também houve alguns relatos de agressões sexuais por parte dos militares sudaneses.

Do lado de fora do mesmo acampamento, que fica na cidade de Adré, na fronteira, cerca de 30 mulheres e meninas se reúnem em uma cabana ao meio-dia.

Balões rosa e azuis estão pendurados no teto, junto a cartazes feitos à mão. “O estupro não é destino; é uma prática que pode ser interrompida”, lê-se.

As lágrimas escorrem livremente enquanto as mulheres falam das suas experiências de violência física e sexual.

Maryamu (nome fictício) contou que foi estuprada em novembro dentro de sua casa, em Geneina, por homens armados que usavam uma espécie de turbante na cabeça, típicos dos combatentes árabes na região.

Depois disso, ela teve dificuldade para andar, contou ela soluçando, enquanto descrevia o processo de fuga:

“As pessoas estavam correndo, mas a gente não podia, porque minha avó não consegue correr. Eu também estava sangrando.”

Zahra Khamis, uma assistente social que também é refugiada, dirige o grupo.

Tanto Amina quanto Maryamu são de comunidades negras africanas — que, segundo Khamis, estão sendo alvo de ataques em Darfur, especialmente o grupo étnico Masalit.

Durante a guerra em Darfur, há 20 anos, uma milícia árabe chamada Janjaweed — na qual as RSF têm suas raízes — foi mobilizada pelo antigo presidente Omar al-Bashir para esmagar uma rebelião de grupos étnicos não-árabes.

A ONU afirma que 300 mil pessoas foram mortas, e o estupro foi amplamente utilizado como forma de aterrorizar as comunidades negras africanas e forçá-las a fugir. Alguns líderes da Janjaweed e Bashir foram indiciados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) sob a acusação de genocídio e crimes contra a humanidade. Eles negaram as acusações — e ninguém foi condenado.

Khamis acredita que o estupro está sendo usado neste conflito “como arma de vingança”.

“Eles estão fazendo isso com as mulheres porque o estupro causa impacto na sociedade e na família”, acrescenta.

Em um raro vislumbre sobre as atitudes que levam à violência contra as mulheres, um membro das RSF que se descreve como um “comandante de campo” publicou um vídeo nas redes sociais em novembro.

“Se estuprarmos sua filha ou sua garota, é olho por olho. Este é o nosso país, e este é o nosso direito, e nós fazemos valer”, diz ele no vídeo, que agora foi excluído.

Em resposta às perguntas da BBC sobre os casos de estupro e outros ataques, as RSF dizem que a inteligência militar sudanesa estava “recrutando pessoas para usarem roupas das RSF e cometerem crimes contra civis, para que se possa dizer que as RSF estão cometendo crimes, abuso sexual e limpeza étnica”.

“Talvez um ou dois incidentes tenham sido cometidos por combatentes das RSF, e eles foram responsabilizados”, declarou Omran Abdullah Hassan, da assessoria do líder das RSF, à BBC.

No ano passado, as RSF disseram que iriam abrir um processo para investigar supostas violações de direitos humanos cometidas por suas forças, mas a ONU afirma que não foram fornecidos detalhes.

‘Se você é Masalit, eles te matam’

Em outro abrigo no mesmo acampamento, as mãos de Ahmat tremem enquanto ele assiste a um vídeo no celular, que foi verificado pela BBC, mostrando cinco homens desarmados enfileirados em uma rua de Ardamata, em novembro.

“Vou acabar com eles”, grita uma voz em árabe sudanês, antes de os homens serem alvejados por disparos de um rifle de assalto à queima-roupa.

“Este é o Amir, e este é o Abbas…”, diz Ahmat, com uma lágrima escorrendo pelo rosto.

Esta é a primeira vez que o homem de 30 anos, cujo nome mudamos, vê o vídeo do momento em que foi baleado. O mesmo foi filmado, aparentemente por um dos homens armados, no dia 5 de novembro — um dia depois de as RSF terem tomado a base militar — e publicado online.

Ahmat conta que seu primo Amir e seu amigo Abbas morreram na hora, mas ele e os outros dois sobreviveram.

Uma grande cicatriz nas costas marca o orifício de saída da bala que atravessou seu ombro. Ele diz que era professor antes da guerra — e que todos os cinco eram civis.

“Deitamos como se estivéssemos mortos”, recorda.

“Me lembro de ter rezado. Achava que era o fim.”

Ahmat conta que foi sequestrado perto de sua casa por membros das RSF e seus aliados. O vídeo mostra homens vestidos no estilo típico dessas forças.

Dois outros homens relaram de forma detalhada à BBC terem sido raptados e feridos por homens armados que acreditam estarem ligados às RSF durante o mesmo período em Ardamata.

Um deles, Yussouf Abdallah, de 55 anos, nos disse que conseguiu escapar depois de ser mantido por homens armados. Ele relatou que viu eles matarem uma mulher e o filho recém-nascido.

“Eles perguntaram se somos da comunidade Masalit e, se você for, eles matam você automaticamente”, acrescentou.

O Sudão entrou num novo período de instabilidade em 2019, quando protestos de rua e um golpe militar puseram fim ao governo de quase três décadas de Bashir.

Foi estabelecido então um governo civil-militar conjunto, que foi derrubado por outro golpe do Exército e das RSF em outubro de 2021.

Mas os dois aliados discordaram sobre a proposta de mudança para um regime civil — e sobre como as RSF deveriam ser integradas às Forças Armadas convencionais.

Em abril do ano passado, as RSF reposicionaram seus membros por todo o país. O Exército sudanês viu a movimentação como uma ameaça, e a violência começou, com nenhum dos lados querendo abdicar dos lucrativos dividendos do poder.

Quase um ano depois, as agências humanitárias alertam para uma situação humanitária que está ficando fora de controle — e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) afirma que algumas comunidades estão à beira da fome.

Manasek, de três anos, é uma entre centenas de milhares de crianças que já sofrem de desnutrição grave. Ela não tem forças para andar, e mal consegue manter a cabeça erguida.

A mãe, Ikram, nina a filha em um hospital da Unicef em Porto Sudão, uma cidade no Mar Vermelho onde milhares de pessoas que fugiram dos combates em Cartum procuraram refúgio — e para onde a maioria das instituições governamentais e organizações humanitárias também se mudaram.

Ela não sabe se Manasek tem uma doença subjacente — e não pode pagar por exames médicos para descobrir.

“Perdemos as nossas vidas, perdemos os nossos empregos”, diz ela, explicando que o marido foi para o norte do Sudão em busca de trabalho agrícola, e como os preços dos alimentos dispararam, ficaram inacessíveis. Ela abaixa a cabeça, enxugando as lágrimas, incapaz de dizer mais nada.

Visitamos uma escola em Porto Sudão. As salas de aula onde os alunos outrora estudavam, estão agora lotadas de famílias desesperadas.

Um córrego de esgoto passa pela lateral do pátio, onde crianças brincam descalças perto de pilhas de lixo. Nos disseram que cinco pessoas morreram de cólera aqui.

Zubaida Ammar Muhammad, mãe de oito filhos, tosse ao nos contar que tem leucemia — e sente dores desde abril, quando seus remédios acabaram. Ela não foi capaz de conseguir mais quando a guerra eclodiu, e a família fugiu da região de Cartum.

O marido dela se voluntariou para lutar com os militares sudaneses, e ela não tem notícias dele há dois meses. A mãe dela, a avó e os três filhos que ficam com elas não podem fazer praticamente nada, a não ser ver a sua saúde se deteriorar.

Em Porto Sudão, também encontramos um grupo de cristãos coptas que fugiram da capital, para escapar das ameaças e ataques das RSF, e dos bombardeios aéreos militares.

“A força aérea de Cartum nos destruiu”, diz Sarah Elias, que faz parte do grupo.

Ela conta que um ataque aéreo matou seu marido, e outro atingiu a casa de um vizinho, matando nove pessoas, enquanto os militares tinham como alvo combatentes das RSF escondidos em áreas residenciais e igrejas.

Os EUA afirmam que ambos os lados cometeram crimes de guerra, e que as RSF e suas milícias aliadas também cometeram crimes contra a humanidade e limpeza étnica.

Ambos os lados negam as acusações.

Em onze meses de guerra, há poucos sinais de que haja qualquer vontade de ambos os lados de pôr fim ao conflito.

A maioria das pessoas que podiam, fugiram do país. E, à medida que o conflito, a fome e as doenças avançam, muita gente aqui se pergunta o que vai restar para alguém declarar vitória.




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Por: G1

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