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A polêmica barca onde Reino Unido abrigará solicitantes de asilo

today18 de julho de 2023 23

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Na semana passada, a “Bibby Stockholm” foi retirada de um dique seco no porto de Falmouth, após uma reforma que permitirá acomodar até 500 homens solteiros, pelo menos nos próximos 18 meses.

A expectativa é de que a embarcação seja rebocada para Portland nos próximos dias.

O correspondente da BBC no oeste da Inglaterra, Dan Johnson, visitou a ilha para descobrir como os moradores enxergam essa nova política governamental, que é considerada controversa.



Charles Richards acredita que Portland é considerado um “lixão” — Foto: BBC

“Eles acham que Portland é um lixo”, diz Charles Richards, de 78 anos.

“Eles a deixam aqui porque acham que não importamos e acham que não vamos fazer barulho. Portland foi tratada com desprezo”, afirma Richards, que sempre viveu na ilha.

Nos sentamos no muro de seu jardim, com vista para o porto onde ele trabalhava carregando mísseis para o Ministério da Defesa.

Parece que todos aqui estão ligados de uma forma ou de outra aos militares ou ao serviço penitenciário.

“Portland sempre foi explorada”, continua ele.

“As empresas de pedra exploraram a terra e cavaram grandes buracos nela. O Ministério da Defesa explorou para fazer fortificações e bases navais. O governo aproveitou para instalar duas prisões. Durante anos eles fizeram o que quiseram conosco.”

Portland é um desses lugares no limite, um final da Inglaterra que se estende ao longo da costa de Dorset pelo fino fio da praia de Chesil.

Percebo uma placa na janela de um vizinho: “Mantenha Portland afastada”.

Leva apenas 10 minutos para dirigir de uma ponta a outra, mas não é insular e há uma sensação de que essa paisagem acidentada e castigada pelo clima carrega mais do que deveria do peso nacional.

Entre as pedreiras que produziram pedras brancas brilhantes para o Palácio de Buckingham e a Catedral de San Pablo está a prisão “The Verne”, onde vivem 580 criminosos sexuais condenados.

Há também outra prisão que abriga mais 500 detentos.

E para completar as duas cadeias existia o navio-prisão “HMP Weare”, uma “medida temporária” tomada para aliviar a superlotação, que ali durou oito anos.

Seus 400 presos fazem com que a proporção da população da ilha atrás das grades esteja em 11%.

Agora outra barca está indo para o mesmo lugar.

É o carro-chefe do mais recente plano do governo para “parar os barcos” com migrantes que buscam chegar ao solo britânico e impedir travessias perigosas de canais.

O conselho da cidade de Dorset receberá mais de 2.220.000 libras (cerca de R$ 13,8 milhões) durante os 18 meses que estão previstos para que a embarcação permaneça no porto.

Esse cálculo é baseado em uma estimativa de 4.500 libras (cerca de R$ 28,3 mil) por leito.

Além disso, 493.000 libras (cerca de R$ 3 milhões) serão disponibilizados para financiar o sustento e as atividades de seus residentes.

Embora a conselheira Laura Beddow diga que o órgão tinha “sérias preocupações” e acredite que Portland é o lugar errado para localizar a barca, ela admite: “Estamos em uma posição em que temos serviços legais que devemos fornecer”.

O Ministério do Interior afirma que o navio aliviará a pressão sobre o sistema de asilo.

No entanto, a chegada da da barca sofreu oposição de uma ampla variedade de vozes, e ainda há esperança de que elas possam apresentar um recurso que impeça o flutuante naquela região.

A embarcação ‘Bibby Stockholm’ receberá 500 homens solteiros — Foto: PA Media/Via BBC

“As pessoas estão preocupadas com esses jovens”, diz Richards.

“O que eles vão fazer? Ficar vagando? Não sabemos o que vão fazer, para onde vão ou com quem vão se misturar. Vão se envolver com o narcotráfico? É algo que não precisamos.”

Ouço as mesmas perguntas no jardim público Victoria Gardens.

“Sim, eles têm que ir a algum lugar”, concorda Kathy Smith.

“Mas para uma embarcação vir aqui… nossa infraestrutura na ilha é muito limitada. Temos uma entrada e uma saída. Estamos tendo problemas para conseguir consultas médicas. Eles terão prioridade?”.

As mesmas preocupações ecoam em faixas estendidas em protestos, amplificadas em grupos do Facebook e veiculadas durante uma reunião pública inflamada.

Representantes de conselhos da cidade, do condado, do Sistema Nacional de Saúde (NHS, por suas siglas em inglês) e a polícia de Dorset se enfrentaram, em meio a residentes furiosos, durante uma reunião em vídeo feita por funcionários do Ministério do Interior.

Uma senhora disse temer pela segurança de mulheres e meninas.

Outro se preocupa com as condições das pessoas a bordo.

Há questões sobre o apoio aos migrantes no que diz respeito à saúde mental e bem-estar espiritual, e também sobre a liberdade que terão para se movimentar.

Isso é realmente mais barato do que usar hotéis? E a segurança? E quem deve ser protegido de quem?

Alguns acreditam que a acomodação dessas pessoas na embarcação prejudicará o turismo na região. Todos, inclusive autoridades locais, estão indignados com a falta de consulta.

Não há muitas respostas ou muitos detalhes.

Durante a reunião, um funcionário do Ministério do Interior descreveu o caso como uma “situação de emergência”, garantiu que todos os requerentes de asilo passaram na avaliação inicial e tiveram seus dados pessoais checados pela polícia e pela imigração.

Ele falou sobre criar “atividades para os que estão a bordo que os ajudem a gastar seu tempo de forma produtiva”.

“Você é um mentiroso e um covarde”, gritou um homem.

A discussão então se voltou para o estado dos serviços públicos de Portland.

“Pode levar quatro semanas para consultar um médico”, reclamou uma mulher.

Não tem dentista e a farmácia está lotada, disse outra na reunião.

Alguns acham que o descaso já está fora de controle: a ilha tem mais faróis do que policiais.

Os funcionários do ministério pareciam atônitos na reunião. Eles prometeram mais informações e melhores serviços, mas depois admitiram que os 500 homens terão que estar registrados para receber atendimentos com médicos da região.

Isso é demais para um homem que grita: “Se formos ao nosso centro de saúde e estiver superlotado com requerentes de asilo, eles vão nos chutar de volta. Eles não podem nem nos dar cuidados médicos adequados agora. É nojento e eles deveriam estar envergonhados.”

Em meio a essas preocupações há indícios de preconceito e vislumbres de racismo.

“Essas pessoas não são refugiadas”, gritou outro homem.

“Eles não vêm de um país devastado pela guerra, são imigrantes econômicos.”

“Devemos ser os primeiros”

Beddow sugeriu que os comentários sobre a política de imigração sejam direcionados ao governo.

Enquanto o líder da reunião lutava para encerrar o debate, outro homem gritou um comentário final: “Onde está seu dever de cuidar de nós? Devemos estar entre os primeiros.”

É uma colisão desconfortável entre a política central e a experiência local.

Isso revela um sentimento poderoso de uma comunidade que se sente esquecida, com emoções despertadas por uma embarcação que foi projetada para tranquilizar a população de que aqueles que pedem asilo não estarão em hotéis luxuosos financiados pelos contribuintes.

Tim Munro, ex-prefeito de Portland, resume: “Nós realmente não queremos que o cenário de pesadelo se torne realidade, de ter muitos jovens procurando coisas para fazer na ilha.”

Eu me pergunto por que sua expectativa é tão negativa.

“Eles não podem trabalhar”, diz ele. “E claramente eles não vão ficar sentados em um barco no porto de Portland o tempo todo, então o que eles vão fazer? Eu não sei, então só posso imaginar as coisas ruins que podem acontecer.”

Munro me lembra que a ilha era o lar de milhares de jovens quando a Marinha administrava o porto: “bebendo e fazendo o que os jovens fazem”, diz ele.

Mas ele cita conexões marítimas de longa data e a polícia militar como contrapesos tranquilizadores.

Entre as ironias que se acumulam na ilha estão as ruínas abandonadas de um antigo bloco de alojamento da Marinha, de frente para o porto.

Um plano para abrigar 750 requerentes de asilo foi rejeitado há 20 anos.

Lembro a Munro dos milhares de visitantes durante as Olimpíadas de 2012, quando Portland sediou as competições de vela.

“Aquelas pessoas faziam compras em Waitrose, vinham de Bath, viajavam de trem, levavam lixo para casa – eram todas pessoas muito civilizadas e agradáveis”, diz ele.

“Esses são os que vieram assistir às Olimpíadas. Não é isso que temos agora. Esperamos que eles sejam pessoas adoráveis ​​e gentis que não tenham um grande impacto na comunidade local. A única preocupação é o desconhecido, isso é tudo”.

O grupo Stand Up To Racism (Enfrente o racismo) está realizando sua própria campanha “Refugiados bem-vindos: não à embarcação prisão”, pedindo aos manifestantes que se concentrem na política, não nas pessoas.

Carralyn Parkes é vereadora do Partido Trabalhista na Câmara Municipal de Portland e atualmente atua como prefeita.

“Nossa oposição nunca se concentrou nos requerentes de asilo”, diz.

“Essas pessoas serão tratadas com gentileza, cortesia e respeito e faremos tudo ao nosso alcance para que se sintam bem-vindas.”

“O que está em causa é o alojamento oferecido, totalmente inadequado para pessoas com necessidades complexas. É bárbaro e desumano.”

A Câmara Municipal tem sido clara na sua oposição, mas também na sua impotência para resistir.

De volta ao gramado de Richards, ele me conta sobre o folheto que chegou à sua casa algumas semanas atrás, lembrando aos residentes que a Marinha ainda usa ocasionalmente o porto como ancoradouro reserva para submarinos nucleares.

O plano de emergência informa a todos em um raio de um quilômetro e meio que comprimidos de iodo serão distribuídos se algo der errado.

“Portland é um lugar estranho”, conclui.

“Muitas coisas estranhas acontecem aqui.”

Ele me diz que “não é um autêntico” local porque, embora tenha nascido aqui, seus pais eram forasteiros ou “kimberlins”.

E agora há mais 500 “kimberlins” – os desconhecidos solicitantes de asilo – que não têm voz e estão destinados a se refugiar no porto de Portland com a tempestade que os cerca.




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Por: G1

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