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A seita cristã da antiguidade onde as mulheres podiam ser ‘padres’

today7 de dezembro de 2023 16

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Recentemente, é uma discussão latente e especialistas acreditam que, mesmo que provavelmente não nesse pontificado, seja uma questão de tempo até que elas sejam autorizadas a exercer papéis mais importantes dentro da hierarquia religiosa.

Divulgado no fim de outubro, o documento final da assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos, realizada no Vaticano ao longo do mês passado, mais uma vez trouxe à tona a participação feminina dentro da Igreja.

Dentre todos os parágrafos constantes do texto, o que teve menor consenso foi justamente o que dizia que a instituição deve considerar o diaconato feminino, restaurando “uma prática da Igreja das origens”.



De acordo com as regras do Sínodo, todos os pontos do relatório final precisam de aprovação da maioria dos participantes. Este teve o maior número de votos contrários (69), frente a 277 favoráveis.

Um olhar para as comunidades dos primeiros cristãos permite entender que, nelas, realmente a participação feminina costumava ser maior, sobretudo antes de a religião se aliar ao Estado romano, oficializando-se.

Mas naquele período histórico, quase 2 mil anos atrás, havia uma série de divergências teológicas, litúrgicas e organizacionais entre os diferentes grupos de seguidores de Jesus.

E aí, segundo historiadores e teólogos contemporâneos, duas vertentes do cristianismo primitivo destacam-se por essa variável: nelas, mulheres tinham papéis de igualdade com homens, a despeito da mentalidade patriarcal presente nessas sociedades na época. Chegavam, inclusive a ocupar postos equivalentes ao de sacerdotes.

São eles o marcionismo, estabelecido por Marcião de Sinope (85-160) e o montanismo, fundado por um teólogo que viveu provavelmente da segunda metade do segundo século à primeira do segundo, conhecido simplesmente como Montano.

Religiosa da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora, a freira Ivone Gebara, filósofa, teóloga e feminista, ressalta à BBC News Brasil que, ao olhar para esses movimentos, é preciso entender que inúmeros deles “destoam da tradição do catolicismo e do protestantismo clássico”.

O marcionismo “colocava as mulheres em condição de igualdade com os homens, nomeando-as diaconisas, sacerdotisas e até bispas”, pontua a cientista das religiões Ana Cândida Vieira Henriques, doutora pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em artigo acadêmico publicado em 2017.

No texto, intitulado “Sacerdócio Feminino: A Santa Sé Frente aos Desafios Contemporâneos”, ela acrescenta que essa prerrogativa se dava pela característica “paulinista radical” do marcionismo.

Filho de um líder religioso considerado um bispo da cidade de Sinope, em província romana localizada onde hoje é a Turquia, ele começou sua carreira com assistente na equipe do pai.

Mergulhou nos estudos daqueles ainda incipientes textos cristãos e, aos poucos, começou a achar que a maneira como a religião estava se desenvolvendo não seria compatível aos ensinamentos de Jesus. Viveu em Roma entre os anos de 142 e 143 e, lá, desenvolveu seu sistema teológico e passou a atrair seguidores.

Entre seus pontos principais estava uma ruptura completa com o judaísmo. Ele não entendia o cristianismo como uma certa continuidade, mas como uma outra ideia religiosa.

Para Marcião, o Deus dos judeus não poderia ser o mesmo que o Deus dos cristãos, já que a mensagem contida nos textos hebraicos — hoje constantes do Antigo Testamento das bíblia cristã — apresentam um ser superior raivoso e vingativo, enquanto Jesus anunciava um Deus amoroso e que sempre perdoava.

“Sua tese era que o Deus dos judeus, portanto aquele encontrado na bíblia judaica, não poderia ser o mesmo Deus de Jesus. O Deus dos judeus, para ele, era um deus étnico, sem equilíbrio, que desconhecia o amor. Um deus muito ruim”, contextualiza à BBC News Brasil o historiador André Leonardo Chevitarese, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos autores do livro Judaísmo, Cristianismo e Helenismo — Ensaios Acerca das Interações Culturais no Mediterrâneo Antigo.

“Mas o Deus de Jesus é aquele do amor, o Deus que quer congregar, pacífico, universal”, compara ele.

Marcião foi o primeiro a se preocupar em organizar um cânone dos textos cristãos. Muitos lembram disso como um embrião do que viria a se tornar a bíblia.

Em sua coletânea de escritos, contudo, ele descartou tudo o que lhe parecia contaminado pela tradição judaica.

Assim, incluiu apenas o Evangelho de Lucas, retirando todas as menções que lhe parecessem muito ligadas aos hebreus — ele entendia as referências aos profetas antigos e a Israel como interpolações que tinham sido inseridas a posteriori no texto original.

O religioso incluiu, de modo especial em sua coletânea, as cartas de Paulo. Na verdade, 10 delas, e não as 13 da Bíblia de hoje.

“O marcionismo foi um grupo radicalmente Paulino, surgido por volta do ano 140. De acordo com Marcião, Paulo havia sido o único dentre as grandes lideranças do cristianismo que havia entendido a radicalidade daquilo que era o teor mais fundamental da mensagem de Jesus”, comenta à BBC News Brasil o teólogo e filósofo Pedro Lima Vasconcellos, professor na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica.

Este ponto é muito importante porque lança luz sobre o entendimento que os adeptos dessa vertente passaram a ter sobre a participação feminina.

Na literatura missivista produzida por Paulo de Tarso, autor daqueles que cronologicamente são considerados os textos mais antigos conhecidos a respeito de Jesus, há uma valorização feminina notável.

Na Bíblia, 13 cartas são atribuídas a Paulo, embora hoje muitos pesquisadores defendem que apenas sete seriam legitimamente de sua autoria — as demais teriam sido escritas por cristãos posteriores a ele, pois apresentam entendimentos discrepantes ao que se sabe sobre a teologia Paulina.

Uma dessas epístolas, a dirigida aos Gálatas, Paulo diz claramente que, depois do batismo em Cristo, não deve haver mais divisões, e todos devem ser tratados em igualdade, não importam as condições.

“Não há mais nem judeu nem grego, já não há mais nem escravo nem homem livre, já não há mais o homem e a mulher, pois todos vós sois um só em Jesus Cristo”, afirma.

“Este texto patenteia isso [a igualdade entre homem e mulher] de maneira incisiva”, analisa Vasconcellos.

Já na carta endereçada aos Romanos, o missionário saúda Júnia, uma mulher que seria, segundo o texto, parte do grupo de “apóstolos eminentes”.

“Em Paulo, nós podemos vê-las [as mulheres] não só como ricas matronas que financiavam o movimento, mas como líderes e missionárias proeminentes. As mulhers foram determinantes para a extensão do movimento aos não-israelitas e em geral eram sempre os primeiros gentios a se converterem”, explica a antropóloga Fabíola Rohden, professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em sua dissertação de mestrado “Feminismo no Sagrado”, defendida em 1995 na UFRJ.

Assim, homens e mulheres eram tratados de forma igualitária, sem distinção, pelos seguidores do marcionismo.

“Por isso atribui-se a essas igrejas o reconhecimento desse protagonismo feminino exercido em igualdade de condições com a liderança masculina, que também era exercida”, pontua Vasconcellos.

“Isso deve ter sido resultante desse influxo Paulino poderoso que se deu nas igrejas marcionitas.”

Segundo o teólogo, para Marcião “essa dicotomia entre homem e mulher perdia sua razão diante do que tinha sido a obra de Jesus”.

“Os marcionitas enfatizavam a feminilidade como a esfera da criação, enquanto a masculinidade simbolizava a transcendência”, explica Rohden

Chevitarese ressalta que a participação feminina era um dos pontos considerados heréticos dentro da mensagem marcionita.

“O papel das mulheres, e elas tinham um protagonismo ali dentro, isso tudo vai gerando suspeição”, argumenta ele.

“Era um momento de tentativa de dialogar com o império romano enquanto movimentos de Jesus sem Jesus, as hierarquias e as falocracias eram as normas. Como tratar um cara que apesar de ser competente coloca as mulheres em papéis elevados?”

Para Vasconcellos, “a proclamação marcionita produziu em Roma e na rede de comunidades cristãs da época um verdadeiro terremoto”.

“[Sua importância maior é que ele, Marcião, foi] o primeiro sujeito na história do cristianismo a elaborar uma espécie de cânone bíblico”, pontua à BBC News Brasil o historiador e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Vasconcellos acredita que a própria construção do cânone cristão, ampliado, modificado e consolidado ao longo dos séculos posteriores, ocorreu como uma reação aos ideais de Marcião.

“A bíblia que conhecemos é, em grande parte, devedora do projeto marcionita que rejeitava a aceitação das escrituras judaicas”, diz.

“O tiro saiu pela culatra porque o resultado é que a gente tem a constituição de uma bíblia que incorpora esses escritos, mas dá o nome de Antigo Testamento, em reação ao marcionismo.”

O Novo Testamento também teria sido feito, sob esse entendimento, a partir da versão de Marcião.

“Mas não se restringindo àquele pequeno conjunto de textos que ele sugeriu. Em vez de um evangelho mitigado dos elementos que faziam referência às tradições judaicas, teremos um texto mais encorpado. E mais três. Além das 10 cartas que a gente não sabe exatamente quais ele tinha selecionado, ficamos com 13 paulinas e outras [atribuídas a outros autores]. Junto ao evangelho de Lucas, temos a continuação, Atos dos Apóstolos. E, enfim, ainda seria incluído o Apocalipse, que muito provavelmente Marcião não conhecia, mas se o conhecesse seguramente o rejeitaria.”

“Sua importância foi decisiva no sentido de que isso incitou, pela força do terremoto que ele provocou, uma reação contundente por partes das lideranças de outros segmentos desse conjunto cristão. E isso resultaria na configuração da Bíblia”, afirma Vasconcellos.

Há vestígios de que as comunidades marcionistas tenham mantido suas atividades por pelo menos quatro ou cinco séculos, graças à capilarização da rede de comunidades sobre a qual Marcião exercia influência.

Ilustraçao de manuscrito do século 11 representa o apóstolo João e Marcião de Sinope — Foto: DOMÍNIO PÚBLICO

Mas essa leitura feminista da mensagem cristã não era um privilégio dos marcionistas.

Como pontua Rohden, se Jesus teve uma postura revolucionária frente ao status quo e buscava defender os desfavorecidos, as mulheres, vistas como inferiores naquela sociedade patriarcal, eram alvos dentre os que deveriam ser acolhidos.

“Jesus chama os oprimidos para compor o seu reino, e os oprimidos dos oprimidos são as mulheres”, argumenta ela.

Segundo sua interpretação, na escala dos rompimentos sociais necessários para se tornar um discípulo estava também abster-se de qualquer hierarquização relacionada aos papéis de gênero.

A antropóloga explica que esse fator foi importante nos primeiros séculos do cristianismo, quando a igreja era ilegal, perseguida e underground. Nesse período, as comunidades precisavam se reunir nas casas de seus fiéis.

“A ‘igreja doméstica’ oferecia, em virtude de sua localização, oportunidades iguais para as mulheres, já que tradicionalmente esta esfera era própria das mulheres e elas não eram excluídas das atividades ali realizadas”, enfatiza ela.

“O movimento de Jesus não tinha [nesta época] sacerdotes e havia uma cooperação entre mulheres e homens que sai dos esquemas institucionais”, pontua a teóloga Gebara.

“Como era isso não sabemos exatamente. Fazemos hipóteses que nos dão algumas justificativas a aquilo que buscamos. Não há como repetir ou resgatar esse passado tão distante e tão manipulado pelos poderes deste mundo. Nossas análises e decisões devem estar ancoradas na justiça, no direito e sobretudo em nossas necessidades atuais.”

Chevitarese lembra que, nestes primeiros séculos do cristianismo, é preciso entender “os movimentos de Jesus sem Jesus como sendo multifacetados”, “todos eles produtores de literaturas em alguns desses casos”.

“Ou, se não produziram, temos autores falando sobre elas”, pontua o historiador. “Esses grupos, muitos, seguiram existindo por séculos.”

Vertente surgida logo após o marcionismo, o montanismo também valorizou o papel feminino.

Fundado por um religioso conhecido como Montano em algum momento entre os anos de 156 e 172, a liderança do grupo era dividida por ele com duas mulheres, Priscila e Maximila, que desempenhavam funções sacerdotais.

A história dele e de seu grupo foi registrada no livro História Eclesiástica, obra publicada no século 4º pelo bispo Eusébio de Cesareia (265-339).

“Essas duas mulheres que acompanhavam Montano eram profetisas, sacerdotisas”, diz o historiador Moraes.

Antes de se converter ao cristianismo, Montano havia sido sacerdote a serviço dos cultos ao deus Apolo, que na mitologia grega é representado como a divindade solar. Isto, na visão de especialistas, pode explicar como ele passou a ter interpretações diferenciadas do cristianismo.

“Alguns comportamentos dele mostram que ele nunca se libertou dessas convicções”, afirma Moraes.

O movimento liderado por ele tinha um caráter reformista e fundamentalista, buscando uma reconexão com a mensagem original de Jesus.

“Ele era contrário a um certo episcopado monárquico que começava a se organizar”, comenta o historiador.

E, nesses grupos, era comum a participação ativa das mulheres, não só pelas duas sacerdotisas líderes.

“Nesse sentido ele copiava o sacerdócio feminino que havia [no culto] ao deus Apolo”, compara.

“As mulheres foram importantíssima para o pensamento de Montano”, enfatiza Moraes.




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Por: G1

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