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Alvo de racismo, suspenso de jogos, inquérito arquivado: como Espanha tratou jogador negro 6 anos antes de Vini Jr.

today27 de maio de 2023 14

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Em 2017, Lubanzadio, um dos cerca de 500 mil espanhóis que se identificam como pretos ou afrodescendentes, foi chamado de “puto negro” no meio de uma partida de futebol profissional da série B espanhola.

O atleta jogava, à época, no Real Unión de Irún, time do País Basco, região no norte da Espanha onde ele nasceu e cresceu. O adversário que o agrediu verbalmente, como no caso de Vinicius Jr., era de uma equipe da Comunidade Valenciana, região da costa mediterrânea espanhola.

Também como o brasileiro, Lubanzadio parou o jogo e, consciente de que havia sido vítima de racismo, foi reclamar com o juiz.



“Ele simplesmente me falou para continuar o jogo”, contou, em entrevista ao g1. “Depois do jogo, fui reclamar que nada foi feito. O juiz ignorou novamente e me mandou para o vestiário. Fiquei com muita raiva e disse que ele era um ‘cagão'”.

Essa reação do jogador, mesmo fora de campo, foi comunicada na ata do jogo à Federação Espanhola de Futebol, que o suspendeu por quatro jogos. Já o xingamento racista, que ocorreu dentro de campo, nem sequer foi citado na ata.

Entendendo que a questão ultrapassava as linhas do futebol, Thaylor Lubanzadio, que é filho de pai angolano, foi à delegacia denunciar o insulto racista. Mas a polícia nem chegou a chamar o jogador valenciano para depor, e, na falta de uma legislação específica, o caso foi arquivado.

O episódio podia ter sido um grande revés na carreira do jogador basco. Mas acabou abrindo portas para um universo o da luta antirracista, pela qual nunca havia se interessado antes, mesmo já tendo sido alvo de insultos ou tido sua nacionalidade contestada por conta da cor da sua pele.

Foi neste momento que Lubanzadio percebeu o racismo em seu país de origem.

“A Espanha é racista porque não é antirracista. E não há um ponto médio”, disse o espanhol, que, hoje, depois do que aconteceu com ele, não acha que o episódio de Vinicius Jr. seja uma exceção ou exclusividade do futebol em seu país.

Não se trata de uma minoria. (O que aconteceu com Vini Jr.) é um reflexo do que é a sociedade espanhola. O estádio tem 40 mil pessoas. Mesmo que sejam ‘só’ 500 falando isso (‘macaco’), já são muitas pessoas, as mesmas que estarão do meu lado tomando um café, ou cujos filhos irão à escola com os meus. As pessoas não têm nem sequer conhecimento do que é racismo“.

Essa falta de reconhecimento tem reflexo nas estatísticas. Na Espanha, há muito poucos estudos demográficos que levem em conta a questão racial – o que é também uma reinvindicação da comunidade negra.

Não há censos raciais, e as pesquisas de população não incluem perguntas sobre a cor da pele, acompanhando uma tendência em alguns países europeus, como Alemanha e França, onde é inclusive proibido coletar dados sobre raça e etnia.

Mas um levantamento do governo espanhol de 2021 apontou a existência de entre 700 mil e 1,3 milhão de afrodescendentes na Espanha, número ao que especialistas chegaram a partir de uma aproximação estatística.

Desse total, no entanto, pouco mais da metade eram estrangeiros, e cerca de 47%, pessoas nascidas no país europeu.

Mas os dados disponíveis, mesmo que aproximados, mostram que essa população é minoria – a Espanha tem cerca de 47 milhões de habitantes.

“O racismo na Espanha ainda é totalmente silencioso e ao mesmo tempo ocupa todos os espaços. A negação (ao racismo) é muito forte, ainda se trata a vítima como se fosse o agressor. Tudo para limpar a consciência, porque quando falamos que alguém é racista, essa pessoa se sente mal. E a Espanha é um país extremamente católico, todos querem sentir que são boas pessoas”, afirmou a psicoterapeuta espanhola Marian Nvumba Mañana, afrodescendente e especialista em identidade e pertencimento de pessoas vítimas de racismo no país.

Para se especializar na perspectiva racial, a psicoterapeuta teve inclusive de buscar outros países e se formou na West London University.

Capa do jornal esportivo valenciano Super Deporte de 22 de maio de 2023, dia seguinte aos insultos racistas contra Vinicius Jr. no estádio Mestalla, em Valência, na Espanha. — Foto: Reprodução/ Redes sociais

Capa do jornal esportivo valenciano Super Deporte após a repercussão dos insultos racistas a Vinicius Jr., na qual a publicação nega racismo no estádio Mestella, do Valencia, em 23 de maio de 2023. — Foto: Reprodução/ Redes sociais

Os desdobramentos aos insultos racistas sofridos por Vinicius Jr. no domingo (21) colocaram em evidência esse comportamento de negação de parte de espanhóis como os citados por Mañana.

Logo após o brasileiro se queixar do problema, ao final da partida, ele foi duramente criticado pelo presidente da LaLiga – a entidade responsável por organizar o principal campeonato espanhol -, Javier Tebas.

O cartola disse que o brasileiro não respeitava a liga espanhola e repreendeu as reclamações cobrando a entidade pelos casos de racismo que ele sofreu nos últimos meses.

Três dias depois, Tebas recuou e pediu desculpas, mas, ao longo da semana insistiu em negar que a liga ou a Espanha sejam racistas – ele repetiu essa frase pelo menos seis vezes durante entrevista coletiva à imprensa na noite de quinta-feira (25).

O jogador Thaylor Lubanzadio diz achar que o episódio com Vinicius Jr. e a reação do brasileiro a ele serão um marco importante no país europeu.

“O caso do Vini Jr. foi horrível, e sei que não é fácil para um menino de 22 anos assimilar esses insultos, temos que levar em conta a saúde mental também. Mas foi bom para a Espanha que isso tenha sido notícia em todos os lugares do mundo. Vai colocar as autoridades em alerta”, opinou Lubanzadio.

O brasileiro Vinicius Jr. deixa o campo no estádio Mestalla, em Valência, diante de uma torcida majoritariamente branca, após reclamar que torcida o chamou de ‘macaco’ em jogo entre o Real Madrid e o Valencia, em 21 de maio de 2023. — Foto: Alberto Saiz/ AP

Ele disse acreditar que o caso abriu as portas da luta antirracista no país, onde ele diz ter sofrido preconceito a vida inteira.

“Quando era pequeno, só via negros em bairros específicos, como guetos. Isso mudou, mas as pessoas ainda estranham que eu fale espanhol tão bem mesmo sendo daqui, e tenho muitos amigos que têm problemas para alugar apartamentos”, contou.

Isso porque existe entre parte dos espanhóis a associação da imagem de pessoas negras a africanos que entram no país de forma irregular e que, geralmente, só conseguem viver em quartos compartilhados.

Ao ver sobrenomes de origem africana, alguns proprietários de apartamentos colocam em dúvida que esses candidatos a inquilinos terão condições de pagar por eles.

“As pessoas negras sofrem racismo desde que podem se lembrar, desde antes mesmo de que o racismo fosse nomeado. Elas cresceram com uma sensação de não pertencer, que é uma necessidade básica no ser humano”, disse a psicoterapeuta Marian Mvumba Mañana.

“Acho que as gerações atuais vão crescer de outra maneira, graças às redes sociais e o trabalho que muitos de nós estamos fazendo, mas quando não te ensinam que você pode chegar a um lugar, é muito difícil você acreditar que possa chegar lá”.

Procurada pelo g1, a Federação Espanhola ainda não havia se manifestado sobre o caso de Thaylor Lubanzadio até a publicação desta reportagem.

Já a polícia do País Basco, responsável pela denúncia de Lubanzadio, disse que o caso foi arquivado por falta de provas.

O presidente da LaLiga, Javier Tebas, que esta semana foi duramente criticada por reprimir as queixas de Vini Jr., pediu desculpas ao jogador na quarta-feira (24).

Entenda a diferença entre racismo e injúria racial

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Por: G1

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