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Ativista intersexo conta ter sofrido pressão da família para se assumir homem

today29 de abril de 2023 2

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Apesar de sempre ter se visto como uma mulher, Mayara relatou que era forçada pela a parecer e agir como um homem. “A puberdade trouxe toda aquela característica ainda mais realçada feminina, porém eu tinha que me comportar de um jeito masculino.”

“Foi uma criação masculina forçada, eu apanhei muito e fui torturada pela minha mãe para ser homem”, relatou Mayara.

A moradora de São Vicente, no litoral de São Paulo, afirmou que aos dois anos de idade já se sentia como uma menina e, inclusive, pedia para ser chamada de Mayara. Segundo ela, as características femininas se destacaram durante a adolescência e passaram a causar ‘dúvidas’ nas pessoas ao redor. Mesmo assim, ela disse que continuou sendo tratada como Marco Antônio pela família.



Mayara relatou que, aos 21 anos, foi obrigada pela mãe a ir à igreja, onde teria sofrido uma série de torturas e preconceitos. De acordo com ela, um dos momentos mais marcantes foi quando a fizeram raspar o cabelo. Após se ‘libertar’ das situações, ela se casou e teve a filha Paola, hoje com 7 anos, que foi gerada em outra mulher.

Mayara Natale, de 34 anos, foi criada como um menino, mas sempre se identificou como mulher — Foto: Arquivo Pessoal

Mayara se descobriu uma mulher intersexo aos 27 anos, após ter se divorciado e, inclusive, atentado contra a própria vida. Ela contou que precisou ficar longe da filha no período e que a situação gerou uma gravidez psicológica [quando a mulher apresenta sintomas de gravidez embora exames mostrem o contrário]. A ativista relatou que os seios cresceram e produziram leite, o que a permitiu amamentar Paola.

A descoberta, segundo Mayara, aconteceu durante o tratamento da gravidez psicológica. Na ocasião, um psiquiatra teria pedido exames ao identificar o cérebro e aparência dela como ‘totalmente femininos’. Segundo a ativista, o diagnóstico foi uma afirmação da própria identidade.

Mayara disse nunca ter sofrido preconceito de estranhos, uma vez que sempre teve aparência feminina. Apesar disso, que os parentes até hoje a rejeitam.

“Eu não falo mais com a minha mãe porque ela falou que eu sou uma aberração da natureza. [Para ela], Deus não faz pessoas intersexo. Isso é uma mentira, se existe um criador, ele fez isso na natureza”, comentou Mayara.

A mulher acrescentou que, apesar de todo o preconceito sofrido, considera que a família errou ainda mais em não ter buscado ajuda médica para entender as variações biológicas que aconteciam no corpo dela. Mayara disse que tenta fazer diferente com a filha, educando a menina sobre o assunto.

“Como eu fui torturada e passei muitas coisas ruins na infância, decidi mudar esse ciclo e fazer tudo ao contrário, em [termos de] amor e carinho. Ela fala assim: ‘Você é a melhor mãe do mundo. Se eu fosse sua mãe, eu não ia machucar você'”, contou.

A ativista não se importa em falar sobre Marco Antônio, como era chamada até a adolescência. Para ela, o nome masculino ‘morreu’ quando descobriu ser uma pessoa intersexo e teve certeza da própria identidade. Ela afirmou que, apesar disso, os momentos em que era obrigada a ‘ser homem’ continuarão vivos na memória.

O Marco Antônio foi um menino muito forte que escutou graça e passou por violência […]. Ele não morreu porque me protegeu, no sentido masculino. Estava ali do meu lado, mas sempre foi a Mayara a protagonista dessa história.

— Mayara Natale

Hoje, Mayara faz parte da Associação Brasileira de Intersexos (Abrai) e usa a própria história para orientar pessoas intersexuais no autoconhecimento e aceitação. A decisão de se tornar ativista surgiu após um homem ameaçar tornar público como é o seu corpo íntimo – informação que preferiu não divulgar nesta reportagem.

Entre os momentos mais gratificantes no ativismo, Mayara destacou a participação no clipe do DJ Pedro Sampaio no Lollapalooza, onde o artista se declarou bissexual, além de palestras realizadas em um congresso para médicos e na Ordem dos Advogados do Brasil, em São Paulo.

Mayara Natale, de 34 anos, representou pessoas intersexo no clipe do Dj Pedro Sampaio no Lollapalooza — Foto: Arquivo Pessoal

O termo intersexo é usado para pessoas que possuem características do sexo feminino e masculino. Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que entre 0,05% e 1,7% da população mundial nasce com características intersexo — o que pode significar até 3,5 milhões de pessoas apenas no Brasil.

Essas pessoas podem ter alterações hormonais, genitais ambíguos e outras diferenças anatômicas. Elas podem também nascer com códigos genéticos diferentes do padrão, como por exemplo: o corpo pode ser fisicamente feminino, mas o seu código genético ser XY [X é o cromossomo feminino e Y é o masculino], o que pode afetar o desenvolvimento e a produção de hormônios.

Os médicos dizem que qualquer decisão de redesignar o sexo não é fácil — um teste genético é realizado para determinar o gênero da criança e vários médicos, pais e geneticistas discutem juntos se a cirurgia deve ser realizada. Mas, ativistas se opõem à cirurgia não urgente de redesignação sexual em crianças. Eles dizem que uma pessoa pode tomar a decisão certa sobre seu gênero apenas na idade adulta.

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