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Empresa do submarino desaparecido é suspeita de negligenciar a segurança

today21 de junho de 2023 5

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As equipes de resgate seguem nesta quarta-feira (21) as buscas por Titan, o submersível de 6,5m de comprimento que desapareceu no Atlântico Norte. As autoridades aceleram o passo pois, segundo estimativas, os cinco tripulantes dispõem de menos de 24 horas de oxigênio dentro do veículo.

A bordo do Titan viajavam o bilionário britânico Hamish Harding, presidente da empresa de jatos particulares Action Aviation, o empresário paquistanês Shahzada Dawood, vice-presidente do grupo Engro, e seu filho, Suleman, o mergulhador francês e especialista nos destroços do Titanic, Paul-Henri Nargeolet, e Stockton Rush, CEO da OceanGate Expeditions, a empresa que opera o submersível.

Com o desaparecimento do veículo, relatos sobre a história caótica dessa empresa que promete levar passageiros aos destroços do Titanic começam a vir à tona. Fala-se de batalhas internas sobre a segurança do submersível, um grupo de mais de trinta especialistas que teriam alertado para os riscos, processos na Justiça abertos por potenciais “turistas subaquáticos”.



“Controles de videogame” na cabine do Titan

Um produtor de televisão americano que participou de uma das expedições do Titan contou que o termo de responsabilidade que era assinado pelos passageiros mencionava o risco de morte. “Quando assinamos o termo [de responsabilidade], a morte é mencionada três vezes na primeira página”, disse o produtor à BBC.

Isso também surpreendeu o jornalista americano David Pogue, convidado em novembro de 2022 a participar de uma viagem aos restos do Titanic para uma reportagem da CBS. Segundo o jornalista, a viagem não foi tranquila e era possível perceber um certo improviso na construção do veículo.

“Há um quê de MacGyver nos detalhes desse submersível. Eles usaram canos de construção como lastro [tanque de água do mar usado em um submarino] e para navegar no Titan eles usam controles de videogame”, explicou David Pogue.

As comunicações com a superfície pararam de funcionar no domingo (18), quando o submersível atingiu uma profundidade de quase 4.000 metros. Isso não poderia acontecer, já que é o navio na superfície que guia o submersível ao longo do trajeto.

Em fevereiro de 2023, um casal americano de clientes insatisfeitos abriu um processo contra Stockton Rush, o CEO da OceanGate, para receber seu dinheiro de volta –a viagem era vendida a US$ 250 mil, cerca de R$ 1,2 milhão. O casal não pôde submergir em busca dos restos do Titanic porque a OceanGate precisou fazer testes técnicos adicionais.

Isso mostra que até o início de 2023, apenas alguns meses antes dessa expedição, ainda havia dúvidas sobre a confiabilidade do submarino, que vinha sendo desenvolvido pela equipe da OceanGate há dez anos.

Resistência do casco em xeque

A ambição da Stockton Rush de inaugurar uma forma de “turismo extremo” em uma profundidade de 4.000 metros já havia se deparado com críticas internas.

Em janeiro de 2018, David Lochridge, gerente de operações marítimas da OceanGate, fez uma inspeção no veículo após a equipe de engenharia ter concluído seu trabalho. O relatório desse veterano do setor subaquático, que foi demitido na sequência, listava graves críticas.

No centro dos problemas, as dúvidas sobre a resistência do casco, que nunca havia sido testado a uma profundidade de 4.000 metros. O veículo nem foi projetado para isso, pois a empresa que fabricou o casco garante sua resistência até uma profundidade de 1.300 metros. Para garantir uma profundidade de 4.000 metros, era necessário pagar um suplemento, o que a OceanGate se recusou a fazer. 

David Lochridge indicou que os testes eram ainda mais necessários já que o Titan seria o primeiro submersível a descer a essa profundidade com um casco composto de fibra de carbono em vez de aço.

Um material que “pode ser mais leve e mais duro que o aço, o que pode melhorar a navegabilidade do submersível. Mas também é um material que pode estar sujeito a falhas repentinas sob pressão”, explica o site de tecnologia Techrunch.

“Os passageiros que pagam pela viagem não estão cientes ou informados sobre esse lado experimental do projeto, a falta de testes de resistência do casco e a existência de materiais inflamáveis perigosos dentro do submersível”, resume David Lochridge, na queixa que apresentou à Justiça contra a OceanGate após sua demissão.

38 especialistas irritados

As críticas não foram levadas em conta pela empresa, que considerava que David Lochridge não tem capacidade técnica para essa análise por não ser engenheiro.

No entanto, outros especialistas apontaram problemas no projeto. Uma carta de 38 especialistas foi enviada a Stockton Rush alguns meses depois, pedindo que ele não lançasse expedições marítimas com seu protótipo “experimental”. A carta, que o jornal americano New York Times conseguiu recuperar, alertava que as consequências para os ocupantes do Titan poderiam ser “catastróficas” se ele mergulhasse sem receber a certificação adequada.

“Estamos cientes de que isso exigirá mais tempo e dinheiro, mas acreditamos ser um passo fundamental para garantir a proteção de todos os passageiros [do Titan]”, concluem os especialistas da Marine Technology Society.

Em uma postagem de blog no site oficial da OceanGate, Stockton Rush argumenta que a maioria dos acidentes é causada por erro humano. “Como resultado, concentrar-se apenas na certificação técnica da embarcação não aborda os riscos operacionais”, diz ele.

Em uma entrevista à Smithsonian Magazine, ele reclama do excesso de regras: “É um setor terrivelmente seguro porque há todas essas regulamentações. Mas não houve muita inovação por causa de todas as regulamentações”, diz o homem que se descreve como um inovador.

Ao logo dessa empreitada, Rush encontrou formas para não ser responsabilizado pelos órgãos reguladores dos EUA, mais exigentes. A Titan está legalmente registrada nas Bahamas e não opera em águas americanas.




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Por: G1

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