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Ícone LGBTQIA+ recebe diagnóstico de seis meses de vida e decide retornar ao lendário ‘Quiosque da Cris’ em SP

today11 de outubro de 2022 221 2

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Cristiane Margarida Lopes Lorca, de 56 anos, é conhecida nacionalmente por realizar um trabalho de acolhimento ao público LGBTQIA+ em seu quiosque localizado em uma praia do litoral de São Paulo. No ano passado, a empresária foi surpreendida ao ser diagnosticada com um tumor com metástase óssea e um ‘prazo médico’ de apenas seis meses de vida.

Por este motivo, Cristiane precisou ficar um ano sem ir ao “Quiosque da Cris”, localizado na Praia do Itararé, em São Vicente, no litoral de São Paulo. Em 33 anos, esse foi o maior tempo que a empresária ficou longe do local que virou praticamente um ponto de parada obrigatório da comunidade. De acordo com ela, “foi um momento difícil e de incertezas”.

A saída que encontrou para continuar conectada com o seu propósito foi acompanhar o movimento do estabelecimento por câmeras. “Foi muito difícil ficar deitada, e eles [funcionários e esposa] aqui cuidando deles, porque eles [clientes] são a minha alma. Eu me jogo por eles, eu brigo por eles, brigo entre aspas, porque eu não brigo, raramente tem briga no Quiosque da Cris. aqui é família”, lembra.

Ao g1, emocionada, Cristiane disse que o seu momento mais importante é quando está no Quiosque. Para ela, a sua volta é a história mais feliz que já viveu, pois agora está no lugar que ela afirma ser a sua casa. “O Quiosque da Cris me dá vida”, afirma. Durante este um ano, Cris conta que recebeu muita energia positiva. “Eu tive uma corrente de energia e de luz muito grande, para hoje eu estar de volta ao Quiosque, para hoje eu voltar a atende-los, porque eu estou dando os meus primeiros passos agora“.

Cris foi diagnosticada com câncer de mama há 14 anos, já tinha recebido alta, mas continuava fazendo exames. Por conta da pandemia, adiou, e, em 2021, foi parar no hospital após não se sentir bem. O médico oncologista da Cris, Franklein Maia, explicou, ao g1, que a doença reapareceu nos ossos. O tipo de tumor da empresária tem alta afinidade por hormônios do tipo estrogênio.



Nesses casos, o oncologista afirma que as pesquisas já estão bastante avançadas, e atualmente há medicações por via oral de alta performance. “Isso possibilitou um ganho de 40 meses, aproximadamente, mantendo a doença estável, ou seja, sem novos avanços pelo corpo”, explica.

Os ossos da empresária estão frágeis, por este motivo, ela está de volta, mas com algumas restrições. Cris não pode mais ficar indo na areia toda hora, então, só vai, se quando chegar, já tiver algum cliente por lá.

Para ir até o Quiosque e atender seus clientes, Cris está com uma scooter [espécie de cadeira de rodas motorizada] para poupar o seu corpo e dores. Não há previsão de término do tratamento, Cris acredita que seja por toda a vida.

Cris do Quiosque volta ao trabalho após ser diagnosticada com metástase óssea e médico dar seis meses de vida — Foto: Gyovanna Soares/g1

Em 1989, quando a sigla ainda era GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), Cristiane decidiu deixar toda a sua vida em Campinas e tentar algo novo em São Vicente: um carrinho de pastel, conhecido como “Lua e Estrela”, símbolo que carrega com ela até hoje. Para ela, representa crescimento e evolução.

Logo após, em 1994, veio a “Mudança Radical”. Um trailer onde Cris hasteou uma bandeira de arco-íris e firmou que ali seria o primeiro lugar na Baixada Santista em que o público LGBTQIA+ seria acolhido.

A esposa de Cris, Elisa Costa Lima, que hoje também faz parte da equipe do Quiosque, conta que, na época, ela foi pioneira no meio. “Não tinha nenhum lugar, não tinha uma bandeira, um lugar que falasse aqui é GLS. Não existia isso. Então, por isso que ela fala que ela fincou a bandeira literalmente, porque ela demarcou esse lugar de aqui vocês são bem-vindos”.

Ao g1, Cristiane explicou que além de acolher esse público, teve um trabalho de provar para a cidade que ela estava lá para agregar e não tumultuar. A empresária era chamada para depor na delegacia toda semana, acusada de trazer drogas, prostituição e o próprio público LGBTQIA+, mas isso não a afetou. Ela afirma que não passava de homofobia, e acrescenta ainda que o cenário só mudou quando recebeu o título de cidadã vicentina.

“Foi um crescimento de lutas e de conquistas. Então, hoje nós podemos agradecer a essas pessoas que lutaram em um período tão crítico e homofóbico que eu peguei”, afirma.

Em 1999, houve uma mudança na orla da praia, e quem tinha um trailer, tinha direito a um quiosque, momento em que nasceu o “Quiosque da Cris”, local que virou “point” do público LGBTQIA+.

Nesses mais de 30 anos dedicando a sua vida a este trabalho, Cris conta que uma das grandes mudanças, além da sigla, é hoje poder receber os filhos do público LGBTQIA+, que agora possuem o direito da adoção.

“Estamos em 2022 e tem muita gente homofóbica, tanto para o lado do racismo, quanto para o lado do gay. Então, hoje a gente tem que ter muito mais cuidado no que se fala, faz, mostra. Aqui eles têm essa liberdade de poder retirar as duas mamas e ficar sem camisa, porque é um espaço deles, dos trans e dos outros gêneros também”.

“Eu valorizo cada pessoa que está aqui, eu valorizo cada momento deles aqui, eu não olho para eles como cifrão, nunca olhei para os meus clientes como cifrão, e sim por estar em um espaço conquistado junto comigo, porque eles conquistaram esse espaço junto com a Cris”, acrescenta.

“Quiosque da Cris” é “point” do público LGBTQIA+ há mais de 30 anos — Foto: Gyovanna Soares/g1

A reportagem do g1 foi até a Praia do Itararé e viu o resultado deste trabalho social que reflete nos clientes que frequentam o “Quiosque da Cris”. (Veja o vídeo abaixo).

Público vê o Quiosque da Cris como um local de acolhimento

Público vê o Quiosque da Cris como um local de acolhimento

Cristiane e Elisa se conheceram no “Quiosque da Cris”, e estão juntas há mais de 20 anos — Foto: Gyovanna Soares/g1

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Por: G1

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