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‘Meu pai resgatou obra-prima roubada de Da Vinci e acabou preso’

today28 de agosto de 2023 7

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Vinte anos depois, Olivia Graham conta a história de como seu pai, ao recuperar a pintura, acabou preso e foi a julgamento acusado de um crime.

Tinha 18 anos quando meu pai me puxou para um canto do bar de que era dono em Liverpool (norte da Inglaterra).

Ele me disse que algo incrível iria acontecer — algo inacreditável — que um dia eu poderia contar aos meus netos.



Na época, fiquei tão surpresa que não quis lhe perguntar mais nada a respeito daquilo.

Mas agora fiz um podcast para a BBC, em que conto a história de como meu pai resgatou uma obra-prima roubada do século 16.

Essa história começa na manhã de 27 de agosto de 2003, quando um velho VW Golf GTI passou pela zona rural do condado de Dumfriesshire, na Inglaterra, e parou em frente ao Castelo de Drumlanrig, a casa do Duque de Buccleuch — um dos homens mais ricos da Grã-Bretanha.

Dois homens saíram do carro e entraram no castelo, onde pegaram de surpresa a guia turística Alison Russell.

Um deles colocou a mão na boca dela e disse para ela “deitar no chão”.

Então, arrancaram a obra-prima de Da Vinci da parede com um machado e fugiram.

Toda a operação durou apenas alguns minutos.

No dia seguinte ao assalto, foi realizada uma entrevista a jornalistas.

A Virgem do Fuso era uma pintura de 500 anos de um dos artistas mais famosos do mundo e valia na ocasião 40 milhões de libras (cerca de R$ 250 milhões, em valores atuais).

O roubo foi notícia no mundo todo.

Mark Dalrymple, avaliador que trabalhava para a empresa de seguro, anunciou uma recompensa “substancial” por informações que levassem à sua devolução.

Uma grande operação policial foi iniciada, mas os criminosos não foram encontrados.

Quatro anos depois, ninguém sabia o paradeiro da pintura.

Nessa altura, ela estava com um grupo em Liverpool que a adquiriu como garantia num negócio imobiliário fracassado. Eles queriam recuperar o dinheiro que haviam perdido — 700 mil libras.

É aí que meu pai entra nessa história.

Meu pai, Robbie Graham, era um homem de muitas virtudes.

Ele não tinha formação universitária e não acho que tenha deixado a escola com qualquer qualificação, mas isso não o impediu de ser bem-sucedido em diferentes tipos de trabalho.

Meu pai tinha um faro para negócios e via tudo como uma oportunidade.

Algumas de suas ideias não davam certo, mas outras prosperaram, como sua agência de detetive particular e seu site reunindo itens roubados com seus proprietários.

Era um negócio pequeno chamado Stolen Stuff Reunited, mas que atraiu a atenção de alguns clientes importantes.

Foi assim que, em junho de 2007, dois homens, conhecidos como J e Frank, procuraram meu pai e seu sócio Jackie Doyle com uma proposta.

Eles poderiam devolver a Virgem do Fuso ao seu dono e reivindicar a recompensa?

Meu pai e Jackie estavam interessados, mas apenas se pudessem fazê-lo legalmente — então, entraram em contato com um advogado, Marshall Ronald.

Marshall contatou David Boyce, advogado do respeitado escritório de advocacia escocês HBJ Gateley Wareing.

David e seu sócio da HBJ, Callum Jones, aconselharam Marshall a entrar em contato com o avaliador Mark Dalrymple.

Então, Marshall enviou-lhe um e-mail.

“Imediatamente, pensei que Ronald estava me enganando”, disse-me Mark.

Essa reação acabou por ter um grande impacto sobre os próximos capítulos dessa história, mas isso só se tornou aparente mais tarde.

Marshall não lidou diretamente com Mark Dalrymple. Em vez disso, ele foi encaminhado a uma terceira pessoa que seria representante do duque de Buccleuch.

Uma recompensa de 2 milhões de libras (cerca de R$ 12 milhões) foi acertada rapidamente.

O valor seria pago em uma conta caução — mantida por terceiros — antes de a pintura ser devolvida.

Marshall não teria acesso ao dinheiro até que a pintura fosse devolvida, mas poderia ver o valor na conta à sua espera.

O grupo que detinha a obra de arte concordou em entregá-la em troca de 700 mil libras do total da recompensa.

Um plano foi arquitetado. Robbie recolheria a obra de arte, levaria-a aos escritórios da HBJ Gately Wareing em Glasgow para a devolução e reivindicaria o dinheiro.

Mas, então, o duque mudou de ideia.

Aparentemente, nenhum dinheiro sairia de sua conta até que o quadro fosse devolvido.

Os criminosos que estavam com a pintura não gostaram nada disso. Isso abalou a confiança deles. Eles exigiram um pagamento adiantado.

Mas onde Robbie e Marshall iriam conseguir 700 mil libras em dinheiro?

“Foi a semana mais estressante da minha vida”, lembra Marshall.

As negociações levaram os dois homens a concordar com um pagamento de 350 mil libras em dinheiro, mais um cheque 150 mil libras.

Marshall quase conseguiu colocar as mãos nessa quantia de dinheiro.

Então, o processo de devolução teve início.

Hale Village fica a poucos quilômetros a sudeste do centro da cidade de Liverpool.

Foi aqui, na quarta-feira, 3 de outubro de 2007, que Robbie parou seu carro no estacionamento do pub Childe of Hale com o dinheiro e o cheque bancário.

Foi J quem apareceu para pegar o dinheiro, mas desapareceu sem entregar o quadro.

Virgem do fuso valia 40 milhões de libras à época (R$ 250 milhões em valores atuais) — Foto: GALERIA NACIONAL DA ESCÓCIA

Quando ele voltou — quatro horas depois — Jackie se juntou ao meu pai.

J veio até o carro carregando algo coberto por um cobertor branco.

Só posso imaginar o que passou pela cabeça de Robbie e Jackie quando pegaram o pacote. Sei que eles o desembrulharam em um canto e deram uma espiada. Então, Robbie ligou para Marshall.

“A Virgem está voltando para casa”, disse ele.

Às 11h05 do dia seguinte, Robbie, Jackie e Marshall se encontraram do lado de fora dos escritórios da HBJ Gateley Wareing — esperando serem tratados como heróis.

Mas não foi isso que aconteceu.

Olivia em Drumlanrig — Foto: BBC

Mark Dalrymple me disse: “Sabia que a polícia de Glasgow e Dumfries estava lá e havia cercado os escritórios”.

Este tinha sido o plano o tempo todo: pegar a pintura de volta e efetuar prisões.

A recompensa não era real, apenas parte de uma operação policial.

Lembro-me de como descobri tudo. Minha irmã me pegou na estação de trem de Ormskirk e falou tudo de uma vez.

Ela disse: “Papai foi preso, a polícia entrou lá em casa e estamos na primeira página do jornal local”.

Dois anos e meio depois, Marshall, Robbie, Jackie, Callum Jones e David Boyce foram julgados.

A acusação era conspiração para extorquir.

A defesa baseou-se em provar que o grupo tinha sido liderado pelos policiais.

Em 20 de abril de 2010, Callum e David foram inocentados.

A acusação contra Robbie, Jackie e Marshall não foi comprovada.

Meu pai me telefonou pouco depois do veredicto. Não me lembro exatamente o que ele disse.

Era algo como: “Fomos inocentados e daqui a alguns dias estarei em casa. Te amo”.

Olivia com o pai após o processo judicial — Foto: BBC

O duque de Buccleuch nunca viu sua pintura ser devolvida.

Ele morreu em 4 de setembro de 2007 — um mês antes de a Virgem do Fuso ser entregue aos escritórios dos advogados.

Ninguém foi preso pelo roubo da pintura e nenhuma recompensa foi paga por sua devolução.

O quadro está atualmente na Galeria Nacional da Escócia, em Edimburgo.

Meu pai tentou seguir em frente após o julgamento.

Passou a dedicar mais tempo à família e a seu próximo grande plano — ele sempre tinha uma ideia mirabolante.

Mas também desenvolveu um gosto pela arte, e lembro-me dele nos arrastando por galerias nas férias em família.

Olivia em frente a Virgem do fuso — Foto: BBC

Ele morreu em 19 de dezembro de 2013, com apenas 61 anos.

O funeral do meu pai, assim como a vida dele, foi uma grande festa cheia de pessoas maravilhosas, muitas histórias, amor e risadas.

Ele era um homem para quem cada dia tinha infinitas possibilidades.

Sinto falta dele o tempo todo. Meu amor por ele é eterno.

Seguindo seu último desejo, o caixão do meu pai trazia uma foto dele — uma que ele realmente amava.

Nela, ele está abraçado a uma pintura — a Virgem do Fuso, de Leonardo da Vinci.




Todos os créditos desta notícia pertecem a G1 Mundo.

Por: G1

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