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Os prédios-fantasma ‘devorados’ pelo mar em Porto Rico

today14 de março de 2023 13

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Mais difícil ainda é acreditar que, ao lado da praia, havia uma estrada, outras residências e um vasto terreno com lojas, palmeiras e pinheiros.

Famílias se reuniam naquele local. Ali, as pessoas passavam feriados e podiam cruzar o litoral para chegar ao outro lado do bairro.

Agora, a orla é apenas uma pequena faixa de areia. O pátio da casa da ex-policial de 57 anos, que mora ali há quatro décadas, acumula cimento, lixo e vegetação com raízes expostas – e é constantemente atingido pelo mar.



Faixa de areia que antes existia deu lugar à água — Foto: RONALD ÁVILA-CLAUDIO

Nós a visitamos em um dia ensolarado de janeiro. Enquanto caminhamos pelo que restou da estrada destruída, Janet conta que os vizinhos já se mudaram e as belas recordações do bairro agora são marcadas por um profundo medo.

Para ela, o mar tem vida própria e, pouco a pouco, está tragando o litoral. No seu trajeto, deixa a paisagem desoladora.

As construções cedem e começam a cair. Elas se tornam estruturas fantasma, onde ninguém mora, e ameaçam a vida marinha e o turismo, até que acabam desaparecendo e população é deslocada.

Quiñones receia que pode ser a próxima.

“Eu me sentia segura porque o mar ficava muito longe”, comenta ela, enquanto a seguimos com a câmera.

“Agora, o mar está avançando demais, demais.” Ela se refere à linha litorânea que, 30 anos atrás, ficava a uma distância considerável da sua casa.

O fenômeno que está destruindo a região de Villa Cristiana é conhecido como erosão costeira. É um processo natural, que faz com que a praia, que é um ecossistema dinâmico, fique sem areia e o mar avance.

Cientistas afirmam que, em muitas áreas dos 44 municípios com acesso ao mar em Porto Rico, a erosão deixou de ser normal e agora representa um problema. As praias estão sendo perdidas de forma acelerada e não podem ser recuperadas.

“Pouco a pouco, minha casa está desabando”, afirma Quiñones, em lágrimas. Ela nos convida a entrar na sua casa, que fica no segundo andar da construção.

A proximidade do mar fez com que o salitre desgastasse as colunas da entrada. Como as ferragens estão expostas, não é possível colocar um batente e uma porta. Ela protege a residência com um portão de alumínio.

No interior da residência, que tem um quarto, duas salas e uma cozinha, o concreto é aparente e repleto de rachaduras.

“À noite, quando o vento é forte, as janelas do meu quarto fazem um barulho horrível”, ela conta. “Coloco uma tábua porque é muito forte. Ele está destruindo [a casa] por fora, por dentro, por todos os lados.”

A destruição da praia do bairro começou perto de 1989, mas ela conta que piorou nos últimos tempos. O mesmo aconteceu no restante do arquipélago.

As causas são várias e complexas, da mesma forma que as soluções, que, mesmo com os pedidos desesperados dos últimos anos, ainda não chegaram.

Fileira de construções destruídas no município de Rincón, em Porto Rico — Foto: RONALD ÁVILA-CLAUDIO

‘Desastre criado pelo homem’

A três horas de Loíza, no litoral do bairro Córsega em Rincón, no oeste de Porto Rico, uma fileira de estruturas inclinadas parece fazer reverência ao mar e aos belos entardeceres com intensa cor de laranja que ocorrem por ali.

Do teto de uma delas, o professor Ruperto Chaparro, da Universidade de Porto Rico e especialista em gestão de recursos litorâneos, destaca um prédio vazio onde antes ficava um conjunto de apartamentos.

O valor de cada uma das unidades ultrapassava US$ 200 mil (cerca de R$ 1,03 milhão).

Os prédios foram demolidos em 2022, depois que a maré de tempestade causada pelo furacão Maria em 2017 fez com que a praia ficasse tão reduzida que parte dos edifícios ficou dentro d’água.

As construções na região entre o mar e a terra, que ameaçam os recursos costeiros, como as dunas e os corais que detêm as ondas, e as consequências das mudanças climáticas, que provocam furacões e marés de tempestade mais fortes e frequentes, são os principais motivos do problema, segundo o cientista.

“Quando você não tem nenhum tipo de estrutura no litoral, a erosão não causa problemas. Desastres como este são antropogênicos, são criados pelo ser humano”, defende Chaparro, que também é diretor do programa Sea Grant, que se dedica a ensinar às pessoas sobre os recursos do litoral.

“As mudanças climáticas participam do processo de erosão devido ao aumento do nível do mar, porque os polos estão derretendo”, afirma ele, explicando por que as marés que avançam sobre o litoral são cada vez mais potentes.

Um relatório da Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) de 2022 indicou que, pelo menos na capital porto-riquenha, San Juan, vem sendo registrado um aumento de 1,77 centímetros do nível do mar por década desde 1962 (equivalente ao índice de aumento global do nível do mar).

Pode parecer pouco, mas o relatório detalha que o efeito dessa mudança sobre as marés é “preocupante”, ainda mais quando 60% da população da ilha moram no litoral.

O nível do mar vem aumentando em todo o mundo, mas o impacto da erosão em Porto Rico é muito forte porque o governo da ilha permitiu a construção desenfreada no litoral. Suas leis, regulamentações e políticas públicas são baseadas em definições herdadas da legislação colonial espanhola, segundo Chaparro.

As normas aprovadas pela Espanha começaram a vigorar no arquipélago em 1886. Elas foram elaboradas considerando a maré do Mediterrâneo e do mar Cantábrico, que banham a península ibérica. E seu comportamento é diferente dos mares de Porto Rico.

A ilha caribenha fica na rota de furacões e esses fenômenos naturais provocam marés de tempestade — Foto: RONALD ÁVILA-CLAUDIO

A ilha caribenha fica na rota de furacões e esses fenômenos naturais provocam marés de tempestade, com ondas que penetram mar adentro.

O professor também denuncia que, em Porto Rico, foram registrados muitos casos de emissão de alvarás de construção na costa de forma ilegal.

Alguns casos ficaram muito famosos, como a tentativa de construir uma piscina na praia localizada em frente a um outro conjunto de prédios de apartamentos, na mesma cidade de Rincón. A obra foi embargada pela justiça no ano passado, após intensas manifestações.

O caso foi amplamente divulgado, devido aos insistentes protestos de dezenas de pessoas, que decidiram passar meses acampados no prédio, enquanto o caso tramitava na justiça. Eles afirmavam que, para outorgar as licenças de construção, a costa não foi medida corretamente, de forma que a piscina ficava na área pública da praia.

Eles também alegaram que, no local, havia ninhos de tartarugas-de-couro, uma espécie ameaçada de extinção.

Um juiz confirmou as irregularidades e revogou o alvará de construção.

A secretária de Recursos Naturais e Ambientais de Porto Rico, Anaís Rodríguez Vega, admitiu à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) que os estatutos que controlam a costa litorânea precisam ser revistos e que a erosão é um problema urgente.

“Dizer que é uma lei que está vigente de acordo com o tempo seria faltar com a verdade”, comenta ela, no seu escritório em San Juan.

Perguntamos o motivo que fez com que a legislação não sofresse alterações por mais de um século e a secretária afirmou que a responsabilidade é do Legislativo da ilha: “teria que perguntar ao poder legislativo”, respondeu ela.

Em Porto Rico, o poder executivo, ao qual pertence a secretaria, também pode apresentar propostas de legislação, mas Rodríguez afirmou apenas que esta opção está sob “avaliação”.

A secretária também concordou com as denúncias de construções ilegais, que chama de “inescrupulosas”, e indicou que os esforços da sua agência estão concentrados em “orientar a população”, para que as pessoas, “ao adquirirem terrenos, saibam o que elas podem construir”.

Sobre os edifícios que foram destruídos pelo mar e abandonados no litoral, Rodríguez afirma que não o número dessas construções é desconhecido. Existe um projeto em andamento para identificá-los, mas, como não se sabe onde eles estão, não foi possível especificar quando irá começar alguma iniciativa para sua demolição.

Segundo um relatório do Instituto de Pesquisa e Planejamento Costeiro de Porto Rico, em 2018, o limite entre o mar e a terra no arquipélago já havia se retraído em 99 km terra adentro. E, além disso, cerca de 58 km de praia também haviam se movido para o interior.

Os cientistas que apresentaram suas conclusões em dezembro passado pediram que o governo levasse em conta essas mudanças no litoral para gerar soluções e evitar desastres futuros, protegendo as vidas, as propriedades e o trabalho. Mas o tempo é curto.

“As ilhotas dos recifes já diminuíram em mais de um terço. Estão muito menores do que antes”, afirma o capitão Elick Hernández, de 65 anos.

Ele exerce seu ofício há 40 anos e trabalhava transportando turistas para a ilha Ratones, na cidade de Cabo Rojo, no sudoeste do país.

O pequeno pedaço de terra mencionado por ele que ainda resiste fica exatamente nas águas atrás da sua casa, no bairro Joyuda. E está diminuindo ano após ano, segundo ele nos conta enquanto o circundamos na sua lancha.

De onde estamos, podemos ver como afundou o embarcadouro da ilha e, agora, nenhum barco consegue atracar. As estruturas que havia no local também foram destruídas. Os restos de um antigo banheiro, com o lado externo pintado de azul, ficaram sobre a areia.

Na lancha do capitão, também viajam Guarionex Padilla – um vizinho que ele considera seu sobrinho – e seu cachorro Floqui.

Hernández comenta que chegava a levar até 100 pessoas para a ilha Ratones. Agora, ele precisou se “reinventar” e seu sustento é fazer passeios em mar aberto.

O capitão cresceu em Joyuda (uma praia de Cabo Rojo) e passou décadas observando as mudanças da ilha Ratones. Mas ele afirma com convicção que o furacão Maria foi o desastre natural que provocou maior erosão.

“Esses furacões antes eram mais suaves, chegavam com categoria menor. Mas, agora, vêm furacões com categoria cinco, quatro, três”, ele conta. “São monstros que alteram as praias e o fundo do mar, as montanhas, os vales, tudo.”

Elsie Herger tem 77 anos e é proprietária do hotel Hostería del Mar em Ocean Park, um bairro da capital San Juan. Ela concorda com Hernández. No seu caso, não foi uma ilha que desapareceu com o furacão Maria, mas a costa que ficava exatamente atrás do seu hotel e que era o seu principal atrativo.

“Quando comprei o Hostería, era um hotel na praia. Agora, anunciamos como um hotel no mar. Às vezes, penso em anunciá-lo como barco”, comenta ela, sarcástica, enquanto conversamos no terraço do hotel.

Atrás do terraço, na areia, Herger colocava mesas para os visitantes. As pessoas tinham acesso a um balcão ao ar livre na praia e a um restaurante. Mas, com o desaparecimento da areia, o mar agora se choca contra a parede traseira do edifício.

A maré é um problema sério para a estrutura, construída originalmente na década de 1940 e remodelada nos anos 1980 pela atual proprietária.

“Vivo consertando a estrutura”, lamenta ela. “As janelas caem. Outro dia, caiu uma parede do restaurante e encheu de areia. Eu pinto toda semana, a eletricidade é prejudicada…”

Herger acrescenta que “muitos turistas, quando sabem que temos o mar, mas não temos praia, cancelam as reservas. Prejudicou tanto o serviço de alimentação quanto o de hospedagem.”

Elick Hernández mudou seu negócio para sobreviver, mas Elsie Herger não tem a mesma sorte. Ela comenta que precisa de uma solução rápida para proteger sua propriedade.

Herger afirma que não é só por ela, mas por toda a comunidade. Se o seu hotel, que é a estrutura mais próxima do mar na sua rua, deixar de existir, o restante do bairro logo será afetado.

“O Corpo de Engenheiros dos Estados Unidos diz que está fazendo um estudo, mas que só ficará pronto em 20 anos”, comenta Herger. “E nós não queremos esperar 20 anos, estamos dispostos a pagar pelo que nos recomendarem.”

Em outros bairros, como em Villa Cristiana, as pessoas também estão à espera de uma solução. Mas as suas possibilidades são reduzidas, já que, ali, os recursos são escassos.

Embora afirme que não tem certeza se é o correto a ser feito, Janet Quiñones pediu mais de uma vez durante a entrevista a construção de um quebra-mar na parte traseira da sua casa.

Conversamos com a prefeita de Loíza, Julia Nazario, em frente a uma peixaria destruída pelo mar na sua cidade. Segundo ela, o quebra-mar nem sempre é a melhor opção porque ele protege a terra à sua frente, mas pode agravar a erosão nas suas pontas.

Nazario propôs que sejam promovidos, nas suas comunidades, projetos compatíveis com o meio ambiente, que ajudem a controlar as marés de tempestade de forma natural, como o cultivo de recifes de coral ou a colocação de dunas de areia.

A secretária de Recursos Naturais e Ambientais, Rodríguez Vega, afirmou que sua agência destinou fundos com este propósito. E que também colabora com organizações sem fins lucrativos para tentar restaurar as barreiras naturais nas praias.

Mas estas são soluções de longo prazo. Para o professor Chaparro, o urgente a ser feito é impedir as construções no litoral. Para isso, é preciso aprovar legislação, o que já foi tentado em várias ocasiões, sem sucesso.

Enquanto isso, Quiñones afirma que não pode se mudar de casa. Sua filha mora no andar de baixo com a família. Mudar-se exigiria encontrar duas casas novas.

Construir ou comprar, com o baixo valor da sua aposentadoria, é praticamente impossível. Ela já entrou em contato com as agências do governo, mas o mar está ganhando cada vez mais terreno e a ajuda não chega.

Quiñones afirma que já perdeu a esperança.

“Costuma-se dizer que ‘o mar toma de volta o que é dele’. Não sei se você já ouviu isso”, comenta ela, enquanto caminha pela estrada destruída e ouvimos as ondas golpeando com força os pedaços arrancados.




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Por: G1

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