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Por que brasileiros vêm perdendo lugar entre estrangeiros no Japão

today2 de abril de 2023 11

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Por quase duas décadas, brasileiros se mantiveram como a terceira maior comunidade de estrangeiros na “terra do sol nascente”, atrás dos chineses e dos sul-coreanos.

Mas tudo mudou nos últimos dez anos. Primeiro, foram ultrapassados pelos filipinos. Depois, pelos vietnamitas.

Nesse período, a população de brasileiros no Japão praticamente se manteve no mesmo nível — há cerca de 200 mil vivendo no país, após o pico de 300 mil antes da crise econômica mundial de 2008.



Os vietnamitas cresceram em número e somam hoje 500 mil, ou 16% do total de 2,6 milhões de estrangeiros residentes no país.

São o segundo maior grupo, atrás apenas dos chineses (744 mil, ou 25,1% do total), de acordo com o Ministério de Justiça japonês.

Na opinião de Eiji Shimada, executivo de uma empresa especializada em recrutamento de mão de obra estrangeira, os brasileiros vêm perdendo competitividade no mercado de trabalho do Japão por dois motivos: envelheceram e muitos não se preocuparam em aprender o idioma japonês.

“E os asiáticos que estão chegando vêm com proficiência equivalente ao nível 4 (em uma escala crescente de 1 a 5). Isso é um alívio para os empregadores”, diz.

O boom da imigração brasileira para o Japão ocorreu com a revisão da lei de controle de imigração, em junho de 1990.

Animados com a possibilidade de trabalhar e morar por um período relativamente longo no país, milhares de descendentes de japoneses e seus cônjuges até a terceira geração desembarcaram para trabalhar como operários em fábricas. O trabalho era pesado, mas financeiramente recompensador.

Entre os anos 1990 e 2000, o número de brasileiros quintuplicou e chegou a 250 mil pessoas.

Já no caso dos vietnamitas, o salto foi mais alto em igual intervalo de tempo: de 70 mil, essa comunidade passou para quase 500 mil em dez anos.

Para Eiji Shimada, brasileiros perdem competitividade no mercado de trabalho por causa da idade e por não dominarem o japonês. — Foto: Eiji Shimada/ Arquivo pessoal via BBC

Mas o professor Angelo Ishi, do Departamento de Mídia e Sociologia da Universidade de Musashi, em Tóquio, assinala diferenças importantes entre os dois grupos.

“A maior delas é que a comunidade brasileira é predominantemente nikkei (nipodescendente). E essa peculiaridade faz que tenham a vantagem do visto com poucas restrições às atividades, o que ajudou muito na adaptação ao país e para navegar no mercado de trabalho japonês (facilidade de mudar de emprego e de setor)”.

No caso de vietnamitas, a maioria tem o visto de guinoo jisshusei (estagiário), e outra parcela considerável é estudante (ryugakusei) — em ambos os casos, sofrem mais restrições do que os vistos de nikkei.

Shimada, especialista em Recursos Humanos, diz que a vantagem para o empregador em ter um estagiário técnico asiático é poder reter essa mão de obra, já que esse tipo de visto não permite que o estrangeiro mude de empregador enquanto estiver no Japão.

A T.S. Farm, do brasileiro Walter Toshio Saito, ampliou a contratação de vietnamitas e indonésios. — Foto: T.S. Farm via BBC

Na década de 1990, o Japão implantou o Programa de Estágio Interno com o objetivo declarado de fornecer treinamento, habilidades técnicas e experiência em tecnologia para trabalhadores de economias em desenvolvimento.

Porém, o sistema acabou sendo comparado a um tipo moderno de escravidão, devido às inúmeras queixas de estagiários sobre o não pagamento de salários e as péssimas condições de trabalho.

Críticos dizem que o programa visava, na verdade, compensar a falta de trabalhadores pouco qualificados no setor empresarial.

Em abril de 2019, o programa para estagiários técnicos foi expandido para permitir a entrada de 345 mil trabalhadores. Eles teriam direito de permanecer no Japão por no máximo cinco anos e trabalhar em setores como agricultura, construção e cuidados de enfermagem, onde a escassez de mão de obra é severa.

Após a conclusão do treinamento, há a possibilidade de mudar o status do visto para outro, o de Habilidades Especificadas, e, com isso, prolongar a permanência no país por no máximo dez anos.

Segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social do Japão, cerca de 1,8 milhão de pessoas (dois terços da população estrangeira) são considerados trabalhadores com vistos diversos, sendo que mais de 327 mil estão registrados como estagiários técnicos.

Esse total vem aumentando desde que as estatísticas passaram a ser computadas, em 2007.

Por nacionalidade, os vietnamitas encabeçam a lista de trabalhadores em geral, com 462 mil indivíduos (25,4% do total).

Os brasileiros vêm sentindo essa mudança no ambiente de trabalho e tendo reações diversas. Muitos veem filipinos e vietnamitas como uma ameaça.

Outros, como a carioca Selma da Silva, preferem aprender uma nova cultura com os colegas.

Em 2014, ela decidiu retornar ao Brasil depois de três décadas morando no Japão. Naquele ano, viviam na Província de Aichi cerca de 22 mil brasileiros e 18 mil vietnamitas.

Dois anos atrás, contudo, quando Selma fez as malas de volta ao Japão, se deparou com um cenário diferente em Aichi.

“Havia muitos deles (vietnamitas) onde eu trabalho — uma fábrica de peças para fogão —, e quase todos são jovens. Não entendo o idioma, mas tentamos nos comunicar com gestos e o japonês que dá para quebrar o galho”, diz.

Selma Silva está há mais de 30 anos vivendo no Japão. — Foto: Arquivo pessoal via BBC

Empresas de pequeno porte

Atualmente há 298.790 empresas que recrutam mão de obra estrangeira no Japão, sendo que mais de 60% são de pequeno porte (com menos de 30 trabalhadores).

Um exemplo é a T.S. Farm, do brasileiro Walter Toshio Saito. Conhecido como o “Rei da Cebolinha” devido ao volume da produção, ele decidiu ampliar a contratação de asiáticos (vietnamitas e indonésios) para o trabalho na lavoura.

“Para o empregador, os estagiários custam menos do que outros trabalhadores de empreiteiras. Além disso, são esforçados e suportam as condições para enviar dinheiro para casa”, diz.

Segundo Edson Urano, professor associado do programa de pós-graduação em Políticas Públicas Internacionais da Universidade de Tsukuba, a ênfase na otimização do trabalho tem sido maior devido à competição do mercado.

“O Programa de Estágio Técnico acaba sendo interessante para os empregadores, que tentam reduzir o custo com a mão de obra. Contudo, significa uma pressão a mais para os brasileiros, pois as empresas combinam diferentes tipos de contratos e trabalhadores precários no sistema de produção para cortar custos, o que pressiona os salários para baixo”.

Ele lembra que os brasileiros chegaram ao Japão em uma época em que o país estava saindo da bolha econômica, havia escassez de mão de obra e os salários eram altos.

“Por outro lado, no Brasil, a economia estava ruim, então, havia um ganho muito grande para quem quisesse vir para cá. Mas depois da crise financeira em 2008, o cenário foi mudando”, acrescenta.

Segundo ele, o trabalhador brasileiro precisa mudar seu foco.

“Se o brasileiro decidir se sujeitar ao mercado periférico de mão de obra, continuará em uma situação frágil. Para quem vive do trabalho, o corpo e a saúde são o maior patrimônio, e com a idade, talvez o corpo não consiga trabalhar por mais dez anos em uma linha de montagem”, diz Urano.

População de brasileiros no Japão quase não mudou nos últimos dez anos. — Foto: Getty Images via BBC

A falta de perspectiva não é um sentimento compartilhado apenas por estrangeiros. Atualmente, há um desânimo institucionalizado que afeta a população japonesa em geral.

Urano observa que diferentemente da década de 1980, quando o país manifestava otimismo, para alguns até exagerado, sobre o futuro, agora a sociedade japonesa carece de vitalidade, depois de quatro décadas “perdidas” — o Japão cresceu apenas 0,43% entre 1980 e 2022.

“O Japão parece estar conformado com um futuro não muito próspero, porque sabe que vai ter um declínio e envelhecimento acentuado da população e, consequentemente, da economia também”, diz.

Embora não tenha ocorrido melhorias pelo lado da renda, Shimada destaca que, no geral, houve mudanças benéficas para o trabalhador, especialmente em relação a seu bem-estar.

O Japão aprovou a Lei da Igualdade de Gênero no Trabalho para garantir salário igual para homens e mulheres, e realizou a reforma trabalhista durante o governo do ex-premiê Shinzo Abe, que prometia uma “revolução na forma como as pessoas trabalham”, visando o aumento da produtividade do país.

A ideia é incentivar as empresas a investirem mais em tecnologia e a implementar jornadas flexíveis de trabalho.

No entanto, especialistas dizem que, para lidar com o déficit de trabalhadores pelo qual o país passa, a mão de obra estrangeira será cada vez mais necessária.

Estrangeiros continuam sendo apenas ínfima parcela da população do Japão. — Foto: Getty Images via BBC

Apesar disso, os estrangeiros continuam sendo apenas uma ínfima parcela da população do Japão.

Em 2020, eles eram 2,2%, enquanto representam 13,3% nos Estados Unidos, 19% na Alemanha e 21% no Canadá.

Segundo especialistas, há forte concorrência pela mão de obra de países da Ásia, responsáveis pelo envio de mais de 40% dos trabalhadores para o mercado global, e o Japão precisará fazer novas concessões, melhorar o ambiente de trabalho e a remuneração se quiser permanecer atrativo.

“O país vem relaxando algumas de suas regras para receber os estrangeiros, enquanto sua população aprende a conviver com eles. Mas deve se esforçar mais para utilizar os recursos humanos globais”, diz Urano.

O Japão tem sido um dos principais destinos dos jovens do Vietnã em busca do sonho de melhorar de vida.

Tanto os brasileiros quanto os vietnamitas parecem satisfeitos com o país, como revela pesquisa sobre a situação dos estrangeiros, realizada desde 2020 pela Agência de Imigração do Ministério da Justiça do Japão.

“Já na primeira pesquisa em 2020, constatamos que o grau de satisfação em relação à vida no Japão é relativamente alto. A tendência se confirmou nesta segunda edição. Praticamente nove em cada dez residentes (87,8%) estão satisfeitos ou relativamente satisfeitos.”

Os mais satisfeitos com a vida no Japão são os filipinos (68%) e os americanos (62%), e na outra ponta se encontram taiwaneses (35,8%) e chineses (36,1%). Já os brasileiros e os vietnamitas estão bem na média: respectivamente, 53% e 52% satisfeitos, e 31,2% e 35,6% relativamente satisfeitos.

Pandemia e perda de renda

Perda de renda foi generalizada entre estrangeiros no Japão durante pandemia. — Foto: Getty Images via BBC

Segundo a mesma pesquisa, os vietnamitas também se mostraram mais vulneráveis aos efeitos da pandemia do que os brasileiros, observa Ishi, que participou como consultor acadêmico de todas as edições do levantamento.

Enquanto 29,5% dos brasileiros responderam que “sua renda diminuiu ou perderam o emprego”, no caso dos vietnamitas essa taxa foi de 51,6% — a maior entre todos os estrangeiros.

A perda da renda foi generalizada entre os estrangeiros. Diante da pergunta “qual o seu maior problema no trabalho”, 35,6% de todos os entrevistados responderam que “o salário é baixo demais”.

“Sobre a renda, é preocupante que 18% dos respondentes estejam se virando com menos de 2 milhões de ienes anuais (média mensal de 166 mil ienes, ou o equivalente a R$ 6,6 mil) diante da inflação galopante que o Japão tem”, afirma Ishi.

Entretanto, para concretizar o “sonho japonês”, o custo tem sido alto para os asiáticos.

Segundo um levantamento realizado em 2022 pela Agência de Imigração do Japão, os vietnamitas assumem dívidas altas para conseguir pagar cerca de 688 mil ienes (quase R$ 28 mil) cobrado por agências e grupos de intermediadores.

Embora o Japão tenha assinado acordo com 14 países envolvidos no Programa de Treinamento de Estagiário Técnico, há diferenças locais.

Segundo a agência, enquanto o governo filipino proíbe a cobrança de taxas de despacho, esta é permitida pelo Vietnã.

Segundo a mesma pesquisa, 79% dos estagiários entrevistados disseram ter recebido o salário esperado ou até superior, mas, para 21%, o valor era aquém da expectativa.

A Agência de Imigração acredita que a frustração com a baixa remuneração e as condições de trabalho podem explicar a maioria dos 7.167 casos de fuga de estagiários (60% deles procedentes do Vietnã) registrados.

Em princípio, quem vem pelo programa de estágio técnico não pode mudar de emprego, mesmo que esteja insatisfeito. Muitos preferem, então, abandoná-lo, mas continuar no Japão de forma irregular para quitar sua dívida e perseguir seus sonhos.




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Por: G1

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