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Por que o 9 de maio é tão importante para a Rússia

today10 de maio de 2023 14

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Mas por que em 9 e não em 8 de maio, como nos países da Europa Ocidental? Bem, a capitulação incondicional da Alemanha nazista foi assinada em 7 de maio de 1945, às 2h41, pelo então chefe do Estado-Maior da Wehrmacht, coronel-general Alfred Jodl, no quartel-general do general Dwight D. Eisenhower, em Reims, na França.

Conforme o documento, a Wehrmacht encerraria os combates contra os Aliados em todas as frentes de batalha a partir das 23h01 de 8 de maio. A diferença entre a data da assinatura e a entrada em vigor era o tempo necessário para que a ordem de capitulação chegasse a todos os comandados.

Na prática, porém, em muitos pontos de combate os alemães já haviam se rendido: no norte da Itália, em 29 de abril; em Berlim, em 2 de maio; no noroeste da Alemanha, em 4 de maio; no sul da Alemanha, em 5 de maio.



Assim, o 8 de maio é conhecido em países europeus como o Dia da Vitória na Europa, ou Victory-in-Europe-Day (VE-Day).

Mas o ditador soviético Josef Stalin exigiu que houvesse uma repetição da assinatura de capitulação em Berlim pelos comandantes supremos da Wehrmacht. Do ponto de vista jurídico, essa exigência era sem sentido, pois Jodl tinha plenos poderes para assinar os documentos.

Historiadores afirmam que, com uma encenação da capitulação em Berlim, Stalin pretendia reclamar para a União Soviética o prestígio da vitória sobre a Alemanha nazista.

Assim, na noite de 8 para 9 de maio de 1945, os comandantes supremos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica da Wehrmacht assinaram o atestado de capitulação no quartel-general soviético em Karlshorst, em Berlim (hoje o Museu Berlim-Karlshorst). A última assinatura foi firmada em 9 de maio, às 0h16.

Por qualquer um dos dois documentos, a capitulação alemã se deu, do ponto de vista soviético, em 9 de maio de 1945. Pois no primeiro documento consta 23h01, ou um minuto depois da meia-noite em Moscou. E, no segundo, a última assinatura dos alemães é firmada já em 9 de maio.

Stalin ordenou primeira parada

O 9 de maio e a parada militar na Praça Vermelha nem sempre tiveram a importância que têm hoje na Rússia. Quando a Segunda Guerra Mundial chegou ao fim, o sentimento dominante entre os russos era de luto devido às incontáveis perdas humanas.

A origem histórica das atuais celebrações anuais na Praça Vermelha é a parada da vitória que ocorreu em 24 de junho de 1945, no mesmo local de Moscou.

Aquela foi a maior parada militar da história da União Soviética: 40 mil soldados, 1.850 tanques e outros veículos de guerra e uma orquestra com mais de 1.300 músicos militares para celebrar a vitória sobre a Alemanha de Adolf Hitler. Só o tempo ruim não ajudou.

A celebração deixou uma imagem icônica da era soviética: a do marechal Gueorgui Júkov inspecionando as tropas perfiladas do alto de um cavalo branco. Deixou também uma anedota: a de que Stalin pretendia entrar triunfalmente na praça a cavalo, mas caiu do cavalo durante um ensaio e machucou um dos ombros. O ditador teria então determinado que Júkov o substituísse.

Simbolicamente, a parada remetia à Rússia Czarista: a União Soviética servia-se claramente de antigas tradições militares da época do czar. A Revolução de Outubro, de 1918, havia eliminado muitas cerimônias e formalidades militares, assim como insígnias e mesmo a designação de “oficial”.

Porém, a “Grande Guerra Patriótica” – como Stalin nominou a Segunda Guerra Mundial – trouxe uma espécie de reconciliação com a antiga Rossija. A recuperação de antigas tradições servia para elevar o moral da tropa, o Exército Vermelho passou a se chamar oficialmente de Exército Soviético, e o “oficial”, com as suas suntuosas ombreiras douradas, estava de volta. Antigos membros do Exército do czar, como o marechal Júkov, exibiam novamente a Cruz de São Jorge.

Stalin, que morreu em 1953, não repetiu a parada da vitória. Ele possivelmente entendeu que as lembranças da guerra eram muito dolorosas para os russos – afinal, mais de 20 milhões de cidadãos da União Soviética morreram, de longe o país com o maior número de mortos.

A parada foi reencenada apenas mais três vezes pela União Soviética: nos anos de 1965, 1985 e 1990. Só a partir de 1995 que uma grande parada militar passou a ser organizada anualmente em Moscou no Dia da Vitória, no caso, 9 de maio. Em 2020, por causa da pandemia de covid-19, ela foi adiada – justamente para o dia 24 de junho.

O culto em torno da “Grande Guerra Patriótica” começou na era Brejnev (1964-1982). Leonid Brejnev era um veterano da guerra. Antes dele a Revolução de Outubro era o evento central da identidade soviética – e também de legitimação do Partido Comunista. Com Brejnev, o foco passou para a vitória sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial.

Assim, em 1965, pela primeira vez o 9 de maio foi um dia feriado. Naquele ano foi novamente encenada uma grande parada militar na Praça Vermelha para festejar a vitória, que completava 20 anos.

Durante a era Brejnev, monumentos e museus sobre a Segunda Guerra Mundial foram inaugurados em toda a União Soviética, e o passado heroico da libertação da Europa do fascismo passou a servir de legitimação para o Estado ditatorial soviético.

O foco na Segunda Guerra permitia também a reabilitação de Stalin, que havia sido denunciado por Nikita Khrushchev em 1956, pois era claro que não era possível celebrar a vitória sobre os nazistas sem celebrar Stalin.

Após o colapso da União Soviética

Em meados dos anos 1990, já na era pós-soviética, quando o projeto de liberalização comandado pelo presidente Boris Iéltsen entrou em crise, o governo russo voltou a fazer uso da mitologia soviética. Uma nova parada militar foi encenada no Dia da Vitória na Praça Vermelha, e Iéltsen, sob os escombros do império soviético, declarou que aquela era a data mais importante da história russa.

Mas foi com Vladimir Putin que o culto da Grande Guerra Patriótica, com a parada militar na Praça Vermelha no Dia da Vitória, ganhou uma nova dimensão. Putin estabeleceu uma nova narrativa sobre a grandeza do Estado russo, deixando cada vez mais de lado, por exemplo, o terror sob Stalin, e centrando o foco na imagem da Rússia como a libertadora da Europa.

Desde a anexação da Crimeia, em 2014, a grande parada militar do 9 de maio passou a servir também para a legitimização da guerra contra a Ucrânia, com a alegação infundada de que nazistas estão no poder em Kiev.




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Por: G1

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