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Provável destino de barco que chegou com 9 corpos no Pará, Ilhas Canárias vivem explosão de onda migratória

today20 de abril de 2024 11

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O número equivale a um aumento de 490% na comparação com os 2.376 registrados no mesmo período de 2023.

Segundo o professor de África do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio Alexandre dos Santos, três fluxos migratórios da África em direção à Europa ganharam força no começo do século 21:

  • Por terra, entrando nos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, que ficam no continente africano, junto ao Marrocos;
  • pelo Mar Mediterrâneo, em direção a países como Itália e Grécia, principalmente;
  • e pelo Atlântico, via Ilhas Canárias, que ficam relativamente próximas do continente africano.



Santos explica que, nos últimos anos, alguns acontecimentos têm empurrado os imigrantes para o segundo e o terceiro fluxos, mais perigosos – via mar.

“O primeiro é o envolvimento maior da União Europeia, através da Espanha, impondo uma política migratória muito mais pesada para quem chegava em Ceuta e Melilla”, diz.

Isso fez com que o fluxo nesta rota diminuísse no final da década de 2000. Em 2024, 908 imigrantes chegaram a Ceuta e Melilla por via terrestre, 6% dos 14 mil que chegaram às Ilhas Canárias.

Outro, segundo o professor, foi um aumento do risco para os imigrantes que tentam embarcar para Europa a partir da Líbia, país que vive guerra civil que se instaurou após a queda do ditador Muammar Kadafi, deposto e assassinado em 2011.

“No atual momento a rota da Líbia é a mais perigosa de todas. Ninguém quer passar”, afirmou o especialista.

Rota do Atlântico é a 2ª mais perigosa do mundo

O trajeto da África em direção à Europa pelo Atlântico é a segunda rota mais mortal do mundo, atrás apenas da que segue pelo Mar Mediterrâneo, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Embora as Ilhas Canárias fiquem relativamente próximo da costa africana, muitas embarcações – em geral pequenas e precárias, como a que chegou ao Pará – acabam se afastando do litoral, acabam se perdendo no mar ao tentar escapar da vigilância de guardas costeiras, correndo o risco de cair em correntes marítimas no alto mar.

“Provavelmente o barco se perdeu ao mar, deve ter pegado uma corrente marítima e chegou ao Brasil”, disse o superintendente da PF no Pará, José Roberto Peres, na quarta-feira (17).

Oito corpos estavam dentro da embarcação, e um próximo a ela. A Polícia Federal suspeita, no entanto, que cerca de 25 pessoas estavam no veículo – já que foram encontradas 25 capas de chuva e 27 celulares.

Em 2021, sete barcos semelhantes ao que chegou ao Pará atravessaram o Atlântico e foram encontrados – à deriva e com corpos – no Caribe e no Brasil. Um deles é o que foi encontrada em 1º de abril naquele ano por pescadores na costa do Ceará com três corpos em estado avançado de decomposição. Com eles, também foram encontrados celulares, além de cartões de crédito e dinheiro de países africanos.

Uma investigação de quase dois anos da agência de notícias Associated Press mostrou que um desses sete barcos, o que chegou no dia 28 de maio de 2021 a Tobago, ilha no Caribe, levou 135 dias para atravessar o Atlântico.

Quando foi encontrado, o barco tinha 14 corpos, mas a suspeita é que ele transportava 43. Com esperança de identificá-los, a Cruz Vermelha recolheu amostras de DNA de familiares de pessoas desaparecidas. Os resultados ainda são desconhecidos.

Até a publicação desta reportagem, nenhuma pessoa do barco encontrado no Pará havia sido identificada. Os documentos indicam que eles eram dos países africanos Mali e da Mauritânia.

‘Pode ser morto dentro do seu quarto’, disse malinês

Adama Konate, malinês residente no Brasil: moradores do Mali se arriscam nas travessias porque acreditam que não vão viver muito tempo. — Foto: Arquivo pessoal

Em 2012, Adama Konate, do Mali, planejava uma viagem de turismo para os Estados Unidos. No entanto, a leitura do livro “Escravos”, do togolense Kangni Alem, mudou a rota. Ele se interessou pela história do Brasil e veio ao país.

A viagem, que era de turismo, se tornou definitiva. O administrador contábil, hoje com 46 anos, está há 12 anos em São Paulo, e é porta-voz da comunidade malinesa do Brasil.

Após o golpe, o país mergulhou em uma crise política, de segurança e humanitária que já dura mais de uma década. Nos últimos anos, os malineses viram, ainda, violência e o terror aumentarem com o avanço de grupos jihadistas no país.

Segundo Adama, a crise também afetou o setor agrícola e causou a paralisação de vários serviços, aumentando ainda mais a precariedade econômica. “Por isso que muitos jovens tomam a decisão de sair para poder ajudar suas famílias”.

“Eles acabam se sacrificando [nas travessias], porque eles têm na cabeça que você não vai viver muito tempo, você pode ser morto dentro do seu quarto”, disse Adama sobre seus conterrâneos.

Mauritânia: local de passagem e de fuga

Vizinha do Mali, a Mauritânia é hoje o país que mais recebe malineses após a intensificação do conflito no país, segundo o mestre em relações internacionais pela Universidad Autónoma de Asunción, Antonio Carvalho. Para chegar a Mauritânia, alguns enfrentam grandes travessias a pé no deserto.

E não são só refugiados do Mali. Por uma localização estratégica no litoral do noroeste africano, também chegam ao país moradores do Niger, Burkina Faso, Nigéria e outros países da África. O objetivo é, pelo mar, sair em direção ao continente europeu.

Os conflitos étnicos internos (o país foi o último a abolir a escravidão e ainda enfrenta uma divisão social profunda entre descendentes de negros subsaarianos e descendentes de árabes), a insegurança alimentar e do terrorismo (a Al Qaeda ainda é ativa no país, segundo a CIA, a agência de inteligência norte-americana) fazem com que os moradores também busquem deixar o país.

“[A Mauritânia e o Mali] São países ainda rurais, com a economia primária ainda fundamentada na agropecuária e no extrativismo. Quando acontecem esses conflitos, dificulta qualquer tipo de estabilidade econômica para a população”, diz Carvalho.




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Por: G1

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