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Violência aumenta no Mali um ano após chegada dos russos do Grupo Wagner

today18 de janeiro de 2023 8

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“Vi meu filho de 16 anos morrer”, disse Diallo à Associated Press na capital do Mali, Bamako, onde vive em um campo improvisado para deslocados. Enquanto contava os eventos daquele dia, o ex-pecuarista de 47 anos não escondia a raiva contra as tropas, que ele acredita serem mercenários russos, que viraram seu mundo de cabeça para baixo.

“Eu realmente quero que a paz volte e as coisas voltem ao normal. Aqui em Bamako, vivo uma vida que não escolhi”, disse ele.

Já se passou mais de um ano desde que centenas de combatentes do Grupo Wagner, uma organização paramilitar russa que se descreve como empresa militar privada, começaram a trabalhar ao lado das forças armadas do Mali para tentar conter a insurgência de extremistas islâmicos que começou há uma década no país da África Ocidental.



Mas desde que os mercenários chegaram, diplomatas, analistas e grupos de direitos humanos dizem que a violência indiscriminada contra civis aumentou, os extremistas ligados à Al Qaeda e ao grupo Estado Islâmico só ficaram mais fortes, e existe a preocupação de que a presença russa desestabilize ainda mais a região já conturbada.

Mais de 2.000 civis foram mortos desde dezembro de 2021, em comparação com cerca de 500 nos 12 meses anteriores, de acordo com o Armed Conflict Location & Event Data Project (Acled), uma organização não governamental. Pelo menos um terço das mortes registradas no ano passado foram decorrentes de ataques envolvendo o Grupo Wagner, segundo dados compilados pela entidade.

“Eles estão matando civis e, com sua simples presença, dando luz verde às forças de segurança do Mali para agir de acordo com suas piores inclinações”, disse Michael Shurkin, membro sênior do Atlantic Council e diretor de programas globais do grupo de consultoria 14 North Strategies.

Empreiteiros militares do Grupo Wagner, fundado por Yevgeny Prigozhin, um empresário milionário ligado ao presidente russo Vladimir Putin, têm reforçado as forças de Moscou durante a invasão da Ucrânia. Mas os especialistas dizem que também operam em alguns países africanos.

Desde que os militares do Mali tomaram o poder em dois golpes a partir de 2020, uma junta liderada pelo coronel Assimi Goita manteve relações tensas com a comunidade internacional.

A França enviou tropas ao país em 2013 para ajudar sua ex-colônia a expulsar militantes islâmicos das áreas do norte do país, mas retirou-os em agosto de 2022, quando as relações se desgastaram e o sentimento antifrancês cresceu na população. O Ocidente diz que o Mali está cada vez mais olhando para Moscou em busca de segurança, embora a junta diga que só convidou treinadores militares.

Malienses protestam contra a França e em apoio à Rússia no 60º aniversário da independência da República do Mali em 1960, em Bamako, Mali, 22 de setembro de 2020. — Foto: AP Photo

Alassane Maiga, chefe de comunicações da junta, insistiu que o Grupo Wagner não está operando no país. Questionado sobre os ataques a civis, Maiga disse que o governo do Mali protege seus cidadãos e suas propriedades.

“As missões de proteção e segurança do exército são realizadas respeitando os direitos humanos e o direito internacional humanitário”, afirmou.

O Grupo Wagner não respondeu aos pedidos de comentários. Em um debate no Conselho de Segurança da ONU em janeiro, a vice-embaixadora da Rússia, Anna Evstigneeva, rejeitou as tentativas do exterior “de manchar a assistência russa ao Mali”, onde Moscou tem um acordo bilateral para ajudar o governo de transição. Ela não mencionou o Grupo Wagner.

No entanto, um relatório do Centro de Combate ao Terrorismo da Academia Militar dos Estados Unidos, que estuda violência extremista, estima que até mil mercenários foram mobilizados e que o Grupo Wagner está recebendo quase US$ 11 milhões por mês para fornecer segurança e treinamento. O relatório afirma que o Grupo Wagner está tento dificuldades para obter ganhos significativos com o aumento da violência jihadista.

Durante a estação chuvosa entre junho e setembro, quando os combates geralmente diminuem, houve mais de 90 ataques contra civis e militares por um grupo extremista ligado à Al Qaeda. No mesmo período do ano anterior, esse número foi de 6 ataques. Só em agosto, o ataque a um quartel por um grupo ligado ao Estado Islâmico matou pelo menos 42 soldados do Mali.

A organização internacional Human Rights Watch afirma que o exército do Mali e tropas estrangeiras suspeitas de serem russas cercaram e mataram cerca de 300 homens na cidade de Moura no ataque mais sangrento até agora, em março de 2022. Entre as vítimas estavam extremistas islâmicos, mas a maioria eram civis — uma investigação citou 27 pessoas, incluindo testemunhas, comerciantes, líderes comunitários, diplomatas e analistas de segurança, que foram mortas na ocasião.

O Ministério da Defesa do Mali relatou um incidente semelhante na época, mas disse que matou 203 “terroristas” e prendeu outros 51.

“Há amplos relatos de abusos dos direitos humanos em toda a região onde eles [Grupo Wagner] estão trabalhando. E nos preocupamos que essas forças não estejam interessadas na segurança e proteção do povo do Mali, mas, em vez disso, estejam interessadas em enriquecer e minar o país e piorar a situação do terrorismo”, disse a subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland.

Samuel Ramani, membro associado do Royal United Services Institute, um grupo de pesquisas de defesa e segurança, disse que a Rússia não tem muita credibilidade no contraterrorismo na África ou de forma mais ampla. O especialista destacou o conhecimento limitado do terreno, as relações tensas com oficiais de baixa patente e uma rígida estrutura de comando e controle por parte dos russos.

“O que vimos repetidamente é que a Rússia e as forças do Grupo Wagner são muito melhores em fortalecer o domínio de regimes autoritários no poder do que realmente combater rebeldes e grupos terroristas”, afirmou Ramani.

Muitos malienses acusam os militares e os soldados brancos que trabalham com eles de detenções arbitrárias de civis que pastoreiam gado, cultivam ou vão ao mercado. A maioria deles são da etnia fulani, que são cada vez mais visados ​​pelas forças de segurança que suspeitam que eles apoiem os militantes islâmicos.

Grupos de direitos humanos dizem que esses supostos abusos ajudam os extremistas, que aproveitam as queixas públicas para usar como ferramenta de recrutamento.

Um pastor de gado de 29 anos chamado Hamidou disse que foi preso em sua casa na vila de Douentza, no centro do Mali, com outras duas pessoas em novembro e acusado de ser um militante islâmico. Ele foi trancado em uma pequena sala onde foi amarrado, espancado e interrogado por soldados brancos.

“Fomos severamente espancados diariamente. Não pensávamos que sobreviveríamos. Desde o dia em que Wagner chegou ao Mali até hoje, as prisões arbitrárias e assassinatos de civis fulani aumentaram tremendamente”, disse Hamidou.

Milhares de tropas de manutenção da paz das Nações Unidas estão no Mali há quase uma década para proteger os civis da violência, mas o governo do Mali restringiu sua capacidade de operação, e países como Benin, Alemanha, Suécia, Costa do Marfim e Reino Unido anunciaram a retirada de tropas, de acordo com o International Crisis Group.

Nuland, o diplomata dos EUA, disse que o Grupo Wagner encorajou a junta a negar o acesso das forças de paz a áreas onde tem mandato para investigar abusos. A segurança está “se tornando mais difícil à medida que as forças do Grupo Wagner e outros assumem um papel maior no país e expulsam as forças de paz da ONU”.

Embora muitos moradores digam que detestam o Grupo Wagner, eles temem que nada mude até que haja um novo governo após as eleições, que estão marcadas para fevereiro de 2024.

“Cabe aos malienses decidir quais passos seguir para o retorno da paz no Mali. A força e a pressão da comunidade internacional sobre os militares só podem piorar a segurança e situação humanitária”, disse Seydou Diawara, chefe de um grupo político de oposição.

Esta fotografia sem data distribuída pelos militares franceses mostra mercenários russos embarcando em um helicóptero no norte do Mali. — Foto: French Army via AP




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Por: G1

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